As origens do Capitão

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As origens do Capitão

03/03/2016 Nau - A Jornada 2

Vivemos tempos cruciais, de grandes eventos e de grandes transformações nessa nossa experiência de ser uma mesma e somente humanidade, por isso, os relatos De nosso diário de bordo são também crônicas de eventos e fatos que estão sendo registrados há alguns anos em nossos cadernos.

 

Contos - 2000

Contos - 2000

De certa forma, são esses registros que nos levam à época do lançamento da publicação do livro “Os Náufragos”, uma iniciativa de alguns estudantes do curso de direito em tempos de faculdade: coletânea de contos em que, à orelha da edição do livro, se lê a descrição de C. Capela a respeito do que, de um modo geral, vivíamos por volta do ano de 2000.

 

Em relação “às rotas oficiais e assistentes, [que] a despeito de toda a sua ciência, vem traçando para a nave” estávamos num estado de deriva e, em torno desse estado de fatos alheios, navegávamos incertos os nossos dias. Uma citação de Nietzsche então aparece à dedicatória do livro, citando de A Gaia Ciência, o aforismo 124 pelo qual se descreve aquele crucial momento de se lançar a mar, quando se percebe que do mar não há mais regresso do que é, em si, busca por novos significados.

 

Lembro de estar presente na festa de lançamento de “Os Náufragos”; lembro da casa noturna cheia e de inúmeros rostos conhecidos em razão da convivência na faculdade.  Mas de uma pessoa em especial tenho a recordação mais clara, era de quem se intitulava, à época, de Capitão, não em razão de qualquer patente, mas por sua própria ideia de comandante à revolução, “J”.

 

“Capitão J.” era um homem de um espírito combativo, espírito que ele justificava, aliás, dizendo ser o irmão do meio, de três filhos homens, disciplinados “à base de porrada”. Seu comportamento não se distanciava daquele seu aspecto imperativo, do tipo com o qual não se tem muitas palavras, e com quem era sempre preciso ir um pouco além da superfície: ler o super-homem de Nietzsche em razão da ideia da existência de homens pássaros vivendo em árvores naquela ilha em que vivíamos como náufragos.

 

Para o Capitão J. daquela época, talvez fôssemos jovens que, por maiores asas que tivéssemos, não éramos capazes de deixar o chão, e, portanto, não seríamos dignos da lírica e da poesia das copas de árvores que somente ele conhecia e de qual falava tanto em sua genialidade quanto em sua loucura.

 

Da sua lucidez, recordo da ansiedade com que ele tomava a palavra “revolução” ao mesmo tempo em que, de traquinagem, chamava-se de revolucionário como quem debocha da fé alheia quanto a qualquer sentido de mudança. Aparecia em festas e em bares circulando ele dentro da noite muitas vezes a esmo, quando, enfim, se fazia notar nos lugares em que passava pela maneira com que chamava a todos de "comandante". A quem o ouvia, justificava a frenética vida noturna com o ritmo de independência que julgava viver por sua individualidade, se cercando de admiradores e de interesseiros.

 

Particularmente, não existindo a ideia de navegador que tenho eu hoje a meu próprio respeito, usava de meu caderno de anotações a fim de deixar registrado o que seguia vivendo sem tanta direção ou destino.

 

Cerca de um pouco mais de cinco anos antes da publicação de “Os Náufragos” e de sua festa de lançamento, procurei mudar de vida ao morar na cidade de São Paulo, levando nas costas, além de meu espírito de aventura, uma mochila com roupas e livros. O que eu buscava, à época, era a oportunidade de chegar à Austrália como quem faz sua história pela escrita de suas escolhas. O que tive na realidade da cidade de São Paulo foi um sentimento de mais profunda solidão em meio à pasma percepção de estar entre milhares de centenas de pessoas. De pontos estratégicos, passei a retratar meus dias procurando por figuras esquecidas, e essas eram muitas, em cantos obscuros daquela realidade cotidiana de grande metrópole. Jamais esqueço eu do velho violeiro que vinha chorar suas saudades do interior paulista em que havia crescido, estando ele, como eu, à entrada do Centro Cultural de São Paulo, bem distante daquela realidade sugerida e diante do ensurdecedor barulho das avenidas, estando nós em meio à melodia interpretada pelo cantor em sua própria canção de vida.

 

A solidão era tanta e de tão variadas formas que meu silêncio, em vários daqueles ambientes de passagens e de trânsito de pessoas, era de alguém invisível.

 

Um dia, simplesmente, decidi assumir a ideia do estilo de vida paulistana, desembarcando na Estação Vergueiro e procurando nas imediações uma pizzaria, como se ao participar daquele ambiente bastante típico da cidade de São Paulo, eu me transportasse diretamente à realidade de encontros entre amigos. No entanto, sozinho, jantei a pizza que pouco me importava o sabor, não ficando além do necessário ao jantar.

 

Voltando à Estação Vergueiro, parei em um canto qualquer, sentei no chão procurando apoiar as costas contra uma parede, e passei a escrever sobre o sentido de fracasso que me forrava o estômago com algo que alimentava apenas meu corpo, e não o vazio que havia dentro de mim.

 

Foi quando conheci Ingryd e Veridiana.

 

Por um breve lapso de tempo as vi em meio às pessoas que seguiam para fora da estação, isso porque também no instante seguinte, com mais nitidez, dei com a presença daquela garota aparentemente mais nova do que eu, sentada ao meu lado como quem escolhe aleatoriamente um lugar para ocupar e ficar à espera de mais alguém. Essa era Ingryd. Por outro lado, Veridiana era mais desconfiada de tudo e de todos, permanecendo de pé, um tanto a proteger o canto em que estávamos como quem também nos guardava, ou como quem então particularmente fizesse sobre a minha pessoa uma avaliação em razão de Ingryd sentada ao meu lado.

 

Era de se estranhar que “do nada” surgisse companhia. Mas na medida em que a desconfiança perdia espaço para uma conversa mais descontraída, surgia o tema do interesse da gente por razões diferentes quanto aos nossos escritos, e percebemos que nos aventurávamos pelos mesmos motivos quanto ao que queríamos em relação às nossas próprias vidas.

 

Não muito depois desse encontro, voltei à ilha em que vivia meu desterro, tomando outros cursos que me levaram a prestar vestibular e entrar na faculdade de letras. É nesse período, durante protestos estudantis em atos políticos, que conheço “J.”: alguém de temperamento revolucionário e explosivo, confrontador. No entanto, de uma teatralidade que demonstrava sua sagacidade em interpretar papéis: de bobo da corte a imperador, “J.” fazia justiça à fama de gênio/louco que angariava por aqueles anos de início de faculdade.

 

Como escritores, produzíamos textos de conteúdo político em fanzines xerocados em preto-branco, como também publicamos contos em revistas de produção estudantil, e participamos até que intensamente da produção de escritos que partiam de iniciativas isoladas a formar coletâneas, ou que tinham suporte da própria estrutura da instituição de ensino. É nesse ambiente editorial que conheci Anacreonte Von Jiq: cursávamos Letras, ele no curso de língua alemã e eu no curso de língua portuguesa. Para tentar descrevê-lo de como era ele à época em seu muito curioso modo de ser, o comparo ao gigante Rúbeo Hagrid, personagem do filme de Harry Potter, filme lançado anos depois da época em que eu o conheci como Anacreonte: um jovem grande e corpulento, com uma grande barba negra e imensa cabeleira preta, embora de fato não fosse ele nenhum gigante. Mas sua figura icônica persistia com sua mesma jaqueta de couro preta, surrada de anos de uso, e aquele jeito de quem não está nem aí pra nada. Um grande amigo.

cartilha jack janis

Vivia nas imediações da faculdade em um apartamento em que basicamente ninguém mais se entendia quanto a quem morava lá de fato. Esse ambiente, aliás, inspirou a novela que escrevi a partir daquele ano de 1998 com o título “Cartilha de Jack & Janis”, algo que foi só publicado anos depois, em 2001, tendo eu o auxílio de Anacreonte quanto à editoração da capa, ajudando-me ele nessa minha primeira edição de autor através do conhecimento dele à frente de sua Spectro Editora.

 

Hino da Tormenta Charles Bukowski

Hino da Tormenta
Charles Bukowski

Enfim, depois da publicação de "Os Náufragos" em 2000 por aquele grupo de amigos, seguiram-se também outras publicações como a tradução de "Hino da Tormenta" de Charles Bukowski, projeto publicado pela Spectro Editora em torno do qual participaram demais amigos. Assim foram publicados poemas e escritos de jovens autores nos anos seguintes. E em comum, todas as publicações traziam a experiência de vivermos tempos de "deriva", de uma estado sem sentido e sem direção.

Continue em Até 11 de setembro de 2001.

De nosso diário de bordo, 03 de março de 2016

Gi Nascimento.

Divulgue!

2 comentários

  1. […] a uma conversa com ela como quem conversava com uma pessoa conhecida há tempos idos, a “Ingryd” de São Paulo, e não era. Em nossas mensagens, a ideia de porto seguro norteou nossas […]

  2. […] Existe uma progressão de fatos que se delibera a um desenvolvimento pessoal intransferível de conhecimento em cada tomada de decisão. É disso que o Capitão J. nos lembra ao que éramos náufragos no ano de 2000 D.C. […]

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