Mastro Mestre

Mastro Mestre

Deslizando a lona da vela sobre o mastro mestre da nau se apreende que há uma voz interior, e anterior a tudo, que nos assiste em nosso curso de viagem. Ana Balesca, por exemplo, prepara o pão da manhã à maneira de minha mãe em tempos de Escola Musso: pão de arroz integral, nossa tradição desde então.

Mas é o alimento, uma vez preparado, que se serve à mesa, embora nela os frutos possam ser abundantes, existe todo um preparo de semeia até a colheita dos frutos.

Penso que trabalhamos como seres vivos o que somos para a ideia do que nos desenvolvemos como seres humanos nos quais nos tornamos, me parece ter uma implicação lógica nesse sentido, não?

Contudo, a verdade, no que posso perceber, é a que diz respeito a um mundo de ignorância, e de maldades implícitas em caminhos falsos, desprovidos de uma verdadeira consciência quanto à realidade de seu próprio mundo interior.

 

Hoje amanhece um belo domingo. Navegamos em sentido de cumprir com o programado para essa etapa da viagem. Retiro-me do convés e sigo entre as cordas até o alto do mastro, no cesto da gávea, onde me dou conta que é ali o lugar em que devo ficar, por isso ouço o mar como se na concha de praia, e posso perceber o vento fresco da madrugada tremular as velas numa ignição de temperamento. Os antigos chamam de “cavalo do mar” aquelas embarcações das quais se pode ouvir o “tropel” dos mastros. Creio estar em uma delas.

É daqui, também, que avisto o que mais posso alcançar com a luneta. Gosto de perceber por aquele olho mágico o que se aproxima, algo que está tão ao longe no horizonte a ponto de acontecer, ou não, em nosso trajeto.

Nossa casa, portanto, flutua como a Terra pelo cosmos da criação. Abaixo da linha do mar em que navegamos há um cosmo de vida tão particular e de maneira abundante que é impossível não se perceber a vida intrauterina humana ali relacionada, apenas mudando-se o ambiente.

Essas passagens ocorrem por meio de ideias que nos servem às mudanças de sentidos, dentro dos quais nos comunicamos, aí sim de maneira íntima.

É preciso certa coragem de se ver.

E se reconhecer em escolhas que invocam certas responsabilidades quanto a um mundo que é parte de nós. Daí surge o verdadeiro desenvolvimento humano.

Enfim, percebe-se que a passagem é apenas um ponto, tanto daquilo que se escreve quanto daquilo que se vive a cada momento, sendo esse o tema maravilhoso em que Ana Balesca está trabalhando, de ponto a ponto.

Eu, comigo, levo o temperamento dessa nova embarcação em conta, porque não é fácil lidar com circunstâncias de mundo que estão alheias as nossas vontades mais determinantes, e, por isso, os cuidados quanto aos compromissos permanecem sérios e necessários, em razão das condições do mar inclusive.

De fato e na realidade nos propomos a apostar em projetos de futuro que nos sejam alternativas de meios de vida e, nesse ponto em particular, nos vejo em condições de participar ativamente em projetos de futuro ao Terceiro Milênio. Mas a realidade que é tangente ao dia a dia parece dizer o contrário quanto a essas realidades possíveis. Aliás, penso mesmo que há uma necessidade de se pensar o desenvolvimento humano nesse sentido, já que é notável a necessidade de desenvolvimento de valores humanos relacionados a esse princípio para a própria humanidade.

Temos consciência a esse respeito? Sim, não?

Estar a procura de um refúgio quando se está em calmarias não é a mesma situação de quem procura refúgio em meio a tempestade. E como ambas são transitórias na imensidão do oceano, ficamos a par desta realidade que nos é tangível.

Sejamos sensatos, no  mínimo, quando estamos a olhar o horizonte em busca de condições de porto seguro. Sabe-se que é nossa viagem que se narra, e não necessariamente o destino, mas como é bom saber que, etapa a etapa, compreendemos nossas realizações, a fins mesmo de registro?

Levo a sério meus devaneios porque são dos quais que tenho comigo um grau de exigência a olhar a sério. Nosso mastro mestre, além da abundância à mesa da vida, são os conhecimentos dos meios que nos levaram a ela.

Manhã de domingo, Gi Nascimento 

De nosso diário de bordo, 21 de outubro de 2018   

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Published byGi Nascimento

Gi Nascimento é pseudônimo e avatar de Egídio Mariano do Nascimento, autor de artigos, contos e novela. Formado em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, é pós-graduado em MBA Planejamento e Gestão Estratégica/UNINTER e em Docência no Ensino Superior/UNIASSELVI, e cursos em Gestão de Pessoas-RH/ Potencialmkt Gestão Empresarial. Desde 2009, desenvolve a experiência de navegação à realização de vida e processo de desenvolvimento humano. Nesse percurso iniciativas de inúmeras pessoas se entrelaçam em busca de alternativas de vivências socioambientais e econômicas. Esse é um relato histórico dessas iniciativas que convergem à nau.

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