Mar alto

Mar alto

Uma arte enaltecida que quase sempre pode não se saber muito dela, ao menos conscientemente, é a da narrativa. Não importa o quão breve pode ser essa escrita que conta uma história, há uma constante demonstração de que existe o que contar, não por quem escreve uma, mas para quem lê, ou ouve, e interpreta o que se conta.

Paramos para tratar dos víveres a bordo. Há uma pequena e pacata vila numa Ilha em meio ao oceano. Quem nos recebe, se coloca como navegante de terras firmes, porque é com surpresa que nos avista, deixando de lado, por um instante, os seus afazeres diários. 

Esse personagem se chama Larses, tem aproximadamente um metro e sessenta de altura, e se aproxima da gente, tendo no seu encalço uma galinha que segue o balde de restos de cozinha que Larses viria a distribuir no quintal, se não tivéssemos o interrompido ao desembarcarmos de nossa nau.

Ele nos cumprimenta com um forte aperto de mãos, olha nos olhos, parecendo nos conhecer, ou querer recordar de nós de algum tempo que nem mesmo nós tínhamos ideia de que poderia existir. Daí nos explicamos, falando de que somos navegantes a borda de nossa nau, e de que estamos precisando de víveres para a continuidade da viagem, ou um pouso em que pudéssemos parar para nos reabastecermos. Ele sorriu de canto, fez pouco caso de nossas necessidades, e apontou para um local além do quintal de sua casa, modesta e bem preservado como as demais da vila dessa Ilha.

Soubemos, mais tarde, que ele se chama Larses, e tinha perdido a língua numa aposta com um capitão de um navio pirata, quando, nas mesmas condições, a embarcação do pirata atracou na praia.

O que teria apostado para perder a língua não chegamos a saber, tomando o cuidado para nos preservar diante das circunstâncias um pouco estranhas desse novo ambiente em que nos encontramos.

O fato é que nos encontramos bem, apesar de não termos sanado a questão dos víveres para a continuidade da viagem, e estamos na expectativa de outra embarcação chegar, ao que parece, para repor os mantimentos dos habitantes locais, porque água potável, ao menos, a ilha tem.

E no aguardar dessa embarcação atracar, nos colocamos à praia, acampados.

Cai a noite, acendemos uma fogueira, nos sentamos em volta dela e contamos histórias com as quais nos divertimos, conversamos e cantamos ao som de violão, flauta, batuque e sinos.

Somos estranhos à praia, somos os que passam a noite em terra firme para sairmos um pouco da rotina de bordo. O último mês, apesar dos pesares, nos levou a algum ponto do oceano que serve de experiência para uma próxima etapa.

De nosso diário de bordo, 07 de novembro de 2018

Gi Nascimento  

 

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Published byGi Nascimento

Gi Nascimento é pseudônimo e avatar de Egídio Mariano do Nascimento, autor de artigos, contos e novela. Formado em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, é pós-graduado em MBA Planejamento e Gestão Estratégica/UNINTER e em Docência no Ensino Superior/UNIASSELVI, e cursos em Gestão de Pessoas-RH/ Potencialmkt Gestão Empresarial. Desde 2009, desenvolve a experiência de navegação à realização de vida e processo de desenvolvimento humano. Nesse percurso iniciativas de inúmeras pessoas se entrelaçam em busca de alternativas de vivências socioambientais e econômicas. Esse é um relato histórico dessas iniciativas que convergem à nau.

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