Uma arte de vila

Uma arte de vila

Ainda que em terra firme, nos sentimos mareados enquanto acampamos à praia como se o mundo nos fosse mais fluído à terra do que sobre o mar. Isso é comum de acontecer conosco quando pensamos que há pouco tempo aportamos nessa ilha. De ontem, como no Mar alto, ficamos um pouco à deriva nesse tempo e espaço que nos recepcionou em silêncio.

Aliás, quando hoje cedo acordamos, reunindo-nos em torno das brasas da fogueira de ontem à noite, reanimamos o fogo com lenha e folhas de papel De nosso diário de bordo, consumindo-se histórias já descritas, porque elas perecem no passado de nossa memória.

Mas, como acima já dito, estamos mareados em terra firme, o que nos deixa com uma alteração perceptiva, afinal, qual era o sentido de Larses aparecer em nosso acampamento à hora do café como quem ali estivesse para compartilhar desse desjejum matinal?

Estávamos em silêncio. O tempo cinza tem um clima de distância, mas nós estávamos cientes de nossos espaços e de nossos diálogos internos, o que, no entanto, não causava diferença quanto à razão alheia que parecia ter Larses conosco ali, sentado próximo à fogueira que já brotava em chamas do chão.

Ana Balesca ofereceu um pão a Larses. Como ele não esboçou reação, pensou que fosse pouco o que ela oferecia a ele, oferecendo um segundo pão. Larses deu um riso de canto, de aparente cinismo, e se levantou de onde estava sentado, levando os dois pães com ele  e seguindo em direção a uma estrada, que é por onde se chega à vila que encontramos ontem depois de aqui atracarmos.  

Uma vez que tenhamos estranhado a atitude da pessoa de Larses, ficamos sem entender sua aparição tão cedo no amanhecer de hoje, mas prosseguimos com nossa programação definida após a partida dele de nosso acampamento à praia.

Tomamos café, preparamos mochilas e seguimos a pé cerca de uma hora depois que Larses havia nos deixado, quando aproveitamos a visão da paisagem para sentirmos o silêncio que nos animava a estar junto uns dos outros, cada qual em sua própria vontade e sobre seu próprio caminho de escolhas, seguindo numa mesma direção. 

Ao que parei para fotografar o cenário, me dei conta que estávamos realmente à passagem a uma realidade bem particular que ocorre no meio do oceano, onde se pensa que se vive isolado de tudo que há para além desses limites de terra.

Mas não.

Passamos à vila de viela estreitas, paredes brancas, flores em vasos e às janelas. Nos encantamos. E aqui, nela, observamos com surpresa os caminhos que nos trazem a revelações inusitadas, como Ana Balesca e eu logo o percebemos.

Caminhávamos ainda em razão de comprar mantimentos para levar a nau quando, sobre o portão que havia ao fim de uma viela estreita, avistamos um letreiro grafado de entalhes sobre pedaço de tábua em formato de prancha, onde se lia “Mercearia Marroquina”, o que muito nos chamou nossa atenção pelo aspecto azul da cena que nos levava a ela.

Onde a realidade em nada se altera pouco sentido tem por sua existência em nossa memória. Ao nos aproximarmos do portão, ouvíamos um cacarejar de galinha do lado de dentro do portão como se para procurar canto a fim de pôr seus ovos do dia.

Abrimos o portão e para nossa surpresa quem estava bem à porta do estabelecimento era Larses, impassível à espera dos ovos que a galinha deveria pôr dentre ali a instantes. 

Cumprimentamos Larses com um gesto de mãos, esperando que ele reagisse, nos dirigindo sua atenção, o que não aconteceu. Pedi licença para que passássemos para dentro da Mercearia Marroquina, não esboçando ele reação a esse respeito. Era como se não existíamos ali.

Nos desviamos da pessoa dele e passamos pelo vão da porta aberta da Mercearia encontrando um espaço amplo, muito bem organizado com diversos produtos da região, e em especial, uma gamela esculpida à mão, tendo dentro harmoniosamente organizados uma infinidade de tipos de pães assados. Foi quando ouvimos então o cacarejar da galinha lá fora, e depois, entrando pelo vão da porta em seguida, Larses, com seu provável ovo no bolso.

A variedade e a quantidade de pães na gamela esculpida talvez pela mesma pessoa que havia esculpido o letreiro à frente da Mercearia, tinha chamado a atenção de Ana Balesca para os detalhes dos formatos e do quanto bem feito pareciam aqueles pães. Os pães que tinha lhe oferecido estavam nessa mesma gamela, e ela viu com modéstia sua própria contribuição para aquela farta mesa diante de nós. Eram pães de arroz.

Bem maior foi a retribuição de Larses a nosso respeito. Nos recebia na Mercearia como se já nos conhecêssemos, mas de outros momentos. Por óbvia questão de impedimento, não fazia esforço para se comunicar pelo som gutural que provavelmente sua voz teria se articulasse, com a língua, as palavras, mas não. O silêncio era presença permanente na vida dele, o que de novo me levava a perguntar: o que teria ele apostado com o pirata a perder a língua e a voz em razão disso?

Voltamos com uma cesta de pães e outros mantimentos que nos são necessários à jornada. Dentro em breve voltamos a partir para o mar.

De nosso diário de bordo, 08 de novembro de 2018

Gi Nascimento

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Gi Nascimento é pseudônimo e avatar de Egídio Mariano do Nascimento, autor de artigos, contos e novela. Formado em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, é pós-graduado em MBA Planejamento e Gestão Estratégica/UNINTER e em Docência no Ensino Superior/UNIASSELVI, e cursos em Gestão de Pessoas-RH/ Potencialmkt Gestão Empresarial. Desde 2009, desenvolve a experiência de navegação à realização de vida e processo de desenvolvimento humano. Nesse percurso iniciativas de inúmeras pessoas se entrelaçam em busca de alternativas de vivências socioambientais e econômicas. Esse é um relato histórico dessas iniciativas que convergem à nau.

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