Carta de Herbert – ao ver a imagem…

Caro Hernesto,

Hoje encontrei algo que me deteve o passo — uma imagem.
Não sei se foi sonho, lembrança ou acaso, mas ali estávamos: você, Paloma e eu.
Não dançávamos um com o outro.
Dançávamos com o que nos ligava.

Havia uma fita de luz atravessando os gestos, como se nossas intenções se entrelaçassem antes mesmo de serem entendidas. Paloma, no centro, parecia sustentar não só o ritmo, mas o mistério. A estrela que ela trazia nas mãos — uma dourada, outra prateada — nos fazia lembrar que ninguém pertence a ninguém, mas alguns pertencem ao mesmo instante.

Você estava levemente esmaecido, Hernesto. Como os cronistas que preferem ouvir ao falar. Como os gatos que sabem estar sem serem vistos. Aliás, havia um — no canto. A gata. Ou sua ausência. Ou talvez a recordação do tempo em que ela ronronava em nossos silêncios.

A frase no rodapé ecoou dentro de mim como um refrão antigo:
“Dançavam com o que os ligava.”
Sim, é isso. Não o toque, mas o entre.
Não o encontro, mas o fio.

Se um dia essa imagem for vista por outros olhos que não os nossos, espero que eles também sintam esse movimento sutil, como quem respira junto com um retrato.

Deixo aqui esse bilhete, quase sem envelope, apenas para te dizer:
obrigado por me ter convidado a dançar com as palavras.

Com afeto sereno,
Herbert

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