Tinham combinado que Ana o aguardaria no restaurante do hotel em que eles estavam hospedados havia alguns dias. Por isso, Gi se recordava que, na manhã seguinte à data da chegada deles, o ônibus à cidade natalina definitiva havia passado na rua daquela pequena comunidade litorânea em que Ana e ele se habituaram a se encontrar, tal como fazia o rapaz que eles tinham visto em frente à rodoviária quando lá ambos desembarcaram do ônibus, estando o rapaz sentado em um banco daqueles dos disponíveis junto à parede externa aos guichês: era só um rapaz distraído do mundo enquanto folheava atentamente as páginas de um álbum de figurinhas autocolantes, uma marca de outro tempo que, no álbum de figurinhas quase preenchido, já não deixava muitos espaços vagos terem sentido na cena enquanto o rapaz existia entre as folhas de páginas passadas e revisadas sob seu olhar atendo.
As bordas daquela cidade invisível eram feitas a partir de um modesto cais não muito distante da rodoviária. Era onde alguns barcos de pesca atracavam por volta do amanhecer do sol sobre a laguna de águas tranquilas.
Diante dessa cena preenchida com tons avermelhados de luz e com sombras em contraste às águas, Gi admitia para si que, naquele dia, já não era ele uma pessoa que temesse a solidão de um espaço que se desconhecia. Ele e Ana, ambos de mochilas às costas e levando, dentro delas, um espírito aventureiro que lhes animava a chegada deles naquele amanhecer de dia tão aparentemente corriqueiro, caminhavam juntos a um dia muito bonito, e que se mostrava preenchido por paisagens a serem compreendidas por telas coloridas que a imaginação de ambos facilmente podiam acessar a fim de compor uma parte de um estado de felicidade que os dois alcançavam com isso.
Contudo, foi Gi que sentou-se à mesa do restaurante antes que Ana chegasse. No local combinado entre eles e àquela hora da manhã, ele percebeu que o silêncio do lugar não era tanto uma ausência de som, mas uma espécie de prece suspensa à espera de um desfecho. O tilintar distante de talheres vinha da cozinha quando, da direção contrária, vinha o murmúrio do mar alcançando as janelas enquanto o vaivém de alguns funcionários compunham uma liturgia cotidiana à mesa do buffet, como se cada gesto repetido fosse parte de uma oração sem palavras. Gi pensou que as cidades invisíveis talvez existissem exatamente assim: não nos mapas, mas na soma dos hábitos, dos intervalos e das esperas.
Lembrou-se, então, do ônibus, aquele que parecia cruzar as cidades apenas uma vez, deixando atrás de si uma sensação de promessa cumprida. Não era um veículo feito de metal e pneus apenas, mas, sim, de expectativas acumuladas, de histórias que se tocavam por instantes e seguiam adiante. A cidade natalina definitiva, sobre a qual ninguém sabia dar explicações completas, parecia menos um destino e mais um estado de espírito — algo que se alcançava quando o olhar aprendia a reconhecer o extraordinário no que insistia em parecer comum.
Ana chegou com um sorriso breve, como quem não queria interromper o pensamento que ele carregava. Sentou-se e, antes de falar, fechou os olhos por um instante. Gi entendeu aquele gesto silencioso, talvez um agradecimento pelo dia, talvez um pedido para que aquele lugar continuasse existindo, mesmo depois que partissem. As orações, pensou ele, não pedem respostas; elas constroem pontes invisíveis entre quem reza e o que se espera encontrar.
“Querido”, disse-lhe Ana ao abrir os olhos, “vamos à praia?”. A naturalidade da fala dela levava ambos a acreditarem na realidade dos dias que passavam juntos. Era só compreender a profundidade oculta nas palavras de Ana.
Depois do café, quando saíram do restaurante, caminharam até o cais. Os barcos já estavam ali, imóveis, como palavras aguardando sentido. Gi imaginou que cada cidade invisível se sustentava por orações desse tipo: discretas, imperfeitas, feitas por pessoas que não sabiam exatamente o que pediam, mas que insistiam em pedir com um sorriso. E assim, enquanto o sol avançava sobre a laguna, ele teve a certeza de que algumas cidades só se revelavam àqueles que aprendiam a caminhar com atenção e silêncio — como quem reza andando.
A procissão de navegadores ocorria naquela manhã que beirava à praia, cheia de embarcações com homenagens e pedidos à Nossa Senhora dos Navegantes. Ana a indicava de maneira discreta enquanto a procissão seguia com sua imagem destacada acima das cabeças cobertas por panos brancos frente ao Sol. Entre o cais e a praia, a procissão tinha percorrido ruas de paralelepípedos de pedra, ruas que eram estreitas e limitadas por fachadas de casarios antigos, silenciando-se, ali, todos os passos, apesar do volume da andança de mais de cem pessoas. Foi nesse intervalo que Ana lhe contou que estava grávida de poucos meses. Assim, ao que ela indicava a barca em que a Santa era levada ao mar, Gi percebia a natureza do pedido e da benção que se queria naquele rito de preces feitas enquanto se despediam da imagem levada às águas. Abraçou com carinho Ana ao seu lado, compreendendo a transformação que ocorria em sua trajetória de vida, um círculo solar na linha do horizonte, a vinda de um bebê que se aninhava ao seu peito, querido e esperado tanto quanto o era Ana em todo seu caminho percorrido.
Gi manteve o braço ao redor dos ombros de Ana enquanto a procissão já se afastava, dissolvendo-se pouco a pouco no brilho da manhã. Por alguns instantes, nenhum dos dois falou. O som da água batendo leve no casco das embarcações parecia completar o que ainda não encontrava palavras.
— Você percebe — disse Ana, em voz baixa — como tudo caminha para o mesmo ponto?
— O sol? — respondeu Gi, sem desviar os olhos do horizonte.
Ela sorriu.
— A criação. É sempre para lá que vamos, mesmo quando achamos que estamos apenas seguindo uma rua, um cais, um dia comum.
Gi respirou fundo.
— Talvez seja por isso que o ônibus só passe uma vez — disse. — Ele não volta porque não precisa. A gente já está em movimento.
— Em movimento e em oração — completou Ana. — Mesmo quando não sabemos que estamos rezando.
Ele pousou a mão com cuidado sobre o ventre dela, ainda discreto, quase secreto.
— Então todos os dias são um recomeço…
— São — afirmou Ana. — Todos os dias caminhamos em direção ao sol nascente, mesmo quando ele está escondido. Criamos quando amamos, quando esperamos, quando seguimos.
Gi inclinou a cabeça, tocando a testa na dela.
— E amanhã?
— Amanhã também — respondeu Ana, tranquila. — Amanhã, de novo, à criação.
Diante deles, o sol já se erguia por completo sobre o mar. E, sem pressa, como quem compreende o sentido do caminho, eles seguiram.
Gi Nascimento e Ana Balesca
De nosso diário de bordo, 27 de dezembro de 2025