A rodoviária de Despedida não se organizava por destinos, mas por modos de se despedir. Era um terminal local para ônibus de viagens intermunicipais, feito de um único e longo corredor, com vários guichês de empresas à entrada de um lado, onde atendentes vendiam passagens para diferentes destinos. Depois dos guichês, à contra parede contrária que, vazada, permitia ver a chegada dos ônibus, estavam alguns dos bancos de concreto com assentos em madeira já gastos e, no entanto, nada ali se mostrava como se estivesse fora do mundo: o ar e sua densidade de lembranças não ditas, quando cada chamada ao embarque soava como se viesse do fundo de outra estação, de outro tempo, sempre de algum lugar desconhecido.
Na rodoviária de Despedida eram comuns bancos destinados aos que fingiam esperar, ou corredores reservados aos que já haviam partido antes mesmo de embarcar, e plataformas onde dois caminhos se cruzavam só para confirmar que não seguiriam juntos a uma próxima estação. Era o acaso do momento deles, entre idas e vindas ocorridas nas plataformas, partiam com algum futuro encontro previsto.
— Escuta — disse Ana, com a voz quase mesclada ao som ambiente da rodoviária, tocava Low Hum em Comatose. Era um convite dela para que Gi a aceitasse tê-la em seus braços, e, assim, dançassem ao delírio silencioso de uma cena que não se acabava com a ideia de separação. Por isso mesmo, Gi não queria partir daquela pequena cidade litorânea, onde tudo o que acontecia, ganhava um sentido mais profundo ao lado de Ana. E estar com ela naquela rodoviária, não implicava simplesmente no fato de partir sozinho, mas num embarcar a um lugar onde cidades invisíveis se dobravam como colchas de memórias e expectativas, como objetos que existiam em razão de alguma atenção que precisava ser dada a um espaço.
Gi segurou a mochila com a familiaridade de quem já carregava seus sonhos por muitas estradas, mas havia algo diferente naquele instante: a cidade litorânea onde Ana e ele caminharam — em silêncio, com passos lentos e de braços dados, tudo ainda, e muito, ecoava pelos cantos daquelas paisagens. Gi olhou para a rodoviária inteira, mas não a viu como lugar de chegada ou partida enquanto Ana a buscava como se fosse seu destino.
— Esta rodoviária não aparece nos mapas, disse Ana, observando o painel de partidas onde os nomes das cidades se rearranjavam sozinhos.
De repente, o som ambiente deu lugar a de um aviso que ecoou pelos alto-falantes, sinalizando uma partida de um ônibus para breve. Mas eles não se moveram imediatamente. Ficaram ali, cada um atento à própria respiração e ao conjunto de trajetórias invisíveis que orbitavam seus corpos e pensamentos naquele instante em que se mantinham abraçados.
Os ônibus respiravam lentamente, abrindo e fechando portas como se testassem a coragem dos passageiros. Cada veículo carregava uma promessa diferente: alguns prometiam retorno, outros esquecimento; poucos prometiam transformação — e esses partiam sem um aviso sonoro.
Na rodoviária, os passageiros aguardavam seus destinos sem aparentarem alguma pressa — nem mesmo uma grande expectativa de partida, ansiedade ou algo do gênero, como se o movimento ali fosse mais interno do que externo. Alguns seguravam bilhetes; outros, apenas seus pensamentos. Mas nenhum parecia realmente chegar, nem partir.
Ana se afastou de Gi, ficando parada, não exatamente à vista de todos, mas estava à vista de tal maneira que se tornava ainda mais presente à cena: Ana ganhava a forma de uma mulher que só Gi conhecia nela, era uma imagem familiar que havia se tornado possível pelo tempo que ambos compartilharam juntos e, depois, pelo contorno das ideias que tinham sobre o que era esse estado de viver a vida a dois.
Ana o olhou com a leveza de quem sabia que não havia pressa em se despedir:
— Você vai partir mais inteiro desta vez.
Não era um comentário sobre a futura viagem — era uma observação sobre a maneira como Gi a conquistara.
A plataforma de embarque foi anunciada quase sem som, como se o ônibus não atravessasse uma cidade comum, mas um mundo invisível que só se tornava real no momento exato em que alguém o percebia.
— Se ficássemos mais um pouco, disse ele ao ser abraçado por ela, a cidade nos inventaria um motivo para não partir.
— E nos tornaríamos seus habitantes, respondeu ela com um sorriso travesso, afastando-se dele.
Caminharam até a plataforma central, onde os bancos eram frios mesmo sob o sol. Ali, as despedidas não se anunciavam. Gi pensou em dizer algo definitivo, mas percebeu que toda frase possível já estava atrasada. Ana, por sua vez, voltou a sorrir como quem reconhecia um silêncio bem colocado.
— Leva contigo o que não pesa, desejou-lhe ela.
— E você?
— O que permanece não precisa ser carregado.
O ônibus de Gi chegou sem ruído. Nenhum aviso. Nenhuma contagem regressiva. A porta se abriu como um intervalo no mundo. Gi embarcou, olhou para trás por um instante, mas não acenou. Na rodoviária de Despedida, os gestos excessivos alterariam o equilíbrio das coisas.
Quando o ônibus partiu, a rodoviária reorganizou seus espaços: o banco onde estiveram juntos tornou-se longo demais para Ana; o corredor se estreitou; o painel apagou o destino que Gi havia tomado. A cidade cumprira sua função.
A cidade de Despedida
Em Despedida, ninguém chega. Quando muito, desacelera.
A cidade foi construída com plataformas estreitas e relógios sem ponteiros, porque ali o tempo não avançava. As ruas não levavam a bairros, mas a instantes exatos em que duas pessoas reconheciam que já caminharam em lados distintos, mesmo estando lado a lado.
As casas não têm portas; têm intervalos. Aprendia-se cedo que habitar Despedida é aceitar uma convivência breve: uma conversa que não se conclui, um gesto que substitui a frase, um olhar que termina antes de começar. Os moradores diziam que, se alguém permanecesse por tempo demais, era certo que a cidade se desfazia ao seu redor — bancos tornavam-se compridos demais, corredores estreitavam, placas tinham as letras apagadas — até que a pessoa compreendesse que precisava partir.
E era o que Ana e Gi haviam feito, na rodoviária de Despedida, no centro daquela cidade pequena, onde não se anunciava partida alguma enquanto os ônibus chegavam vazios e partiam com seus passageiros para cidades que prometiam retorno, partiam para lugares cujo nome mudava enquanto se pronunciava o nome à lembrança do que havia sido feito para se chegar a um destino. Mas em Despedida, o destino importava menos que a qualidade da separação.
Foi ali que Gi e Ana se abraçaram uma vez mais. Depois, para Ana, a cidade recompôs os espaços. Nesses lugares, diziam que quem passava por Despedida levava consigo uma habilidade rara: a de partir sem romper. Porque ali não se aprendia a dizer adeus, mas a reconhecer o instante preciso em que a permanência deixaria de ser literalmente próxima, para se tornar distante como forma de um estar constante.
Gi Nascimento e Ana Balesca
De nosso diário de bordo, 30 de dezembro de 2025