
Registro 05 — Narrativa de travessia compartilhada
A fila na plataforma para o embarque no ônibus era longa — cerca de cinquenta pessoas aguardavam a linha que nos levaria ao centro. Quando o veículo chegou e abriu as portas, o fluxo se iniciou com naturalidade, sustentado por um acordo implícito: cada um aguardava seu momento de passagem.
Aos poucos, no entanto, esse acordo foi sendo atravessado. Alguns se aproveitaram da abertura para embarcar diretamente, contornando a fila. Duas garotas, poucos lugares à frente de onde eu estava, trocaram impressões — não exatamente sobre o ato, mas sobre o que nele se rompia.
Já em movimento, durante o trajeto, uma motociclista cruzou abruptamente à frente do ônibus. O motorista freou com força. O corpo coletivo reagiu ao impacto, e, entre os passageiros, circularam comentários sobre a imprudência da manobra — uma travessia que, por pouco, não se desfez sob o próprio veículo.
Entre a fila e o trânsito, algo se repetia: a passagem compartilhada exige mais do que movimento. Há um modo de atravessar que sustenta o outro — e outro modo que o coloca em risco.
Gi Nascimento.
De nosso diário de bordo, 24 de março de 2026.