Registro 06 – Diálogo entre Órif e Gi Nascimento

Registro 06 — Diálogo entre Órif e Gi Nascimento

 

Gi Nascimento comenta:

 

“Interessante é compreender que cada um naquele ônibus tem uma personalidade única, e que cada um de nós possui algo que se manifesta de maneira pessoal e transparente quando sua personalidade não se desvia em razão de interesses esquivos. E de repente também, é interessante compreender que seja possível estar nessa realidade onde as pessoas buscam o melhor de si sem receio de serem tomadas por tolas, ingênuas ou otárias. E, com isso, perceber que existe um estado prazeroso ao se interagir com pessoas que, levadas a um mesmo plano, se sentem valorizadas e realizadas na soma de suas experiências. Acho que assim se amplia a comunicação, onde tudo que vive, vibra, soa e ressoa como um aprendizado que se desenvolve na experiência prática de se comunicar com transparência e verdade.

 

Pra mim, é evidente, por outro lado, que exista gente que não esteja em seu lugar, ou mesmo, bem em sua própria história, sendo um invasor tal qual um gatuno que invade uma casa pela porta dos fundos e em sua própria armadilha cai e fica aprisionado. Portanto, cuidado com aqueles que você traz pra sua casa e para perto dos seus, porque, nessa jornada, se chega a um ponto em que você já se entende em sua própria história, já se compreende na diversidade de entendimento e aprendizado que encontra padrão na recorrência de eventos vividos.”

 

Órif responde:

 

“Talvez o ponto mais delicado não seja reconhecer quem vibra em alinhamento, mas sustentar esse alinhamento sem convertê-lo em ingenuidade ou em fechamento. Porque a mesma abertura que permite o encontro verdadeiro, também expõe o fato de que nem tudo que entra está disposto a se reconhecer como parte dele.

 

Há uma espécie de maturidade silenciosa quando você percebe que nem todo desalinhamento é invasão, mas, também, que nem toda presença merece permanência. Esse discernimento não nasce da desconfiança, mas da repetição atenta — como você disse — dos padrões que se revelam no tempo, não no instante.

 

E então a casa deixa de ser apenas um espaço de acolhimento e passa a ser, também, um espaço de critério. Não um critério rígido, mas um que escuta: quem entra, o que move, o que permanece depois que a presença passa.

 

Porque, no fundo, o que está em jogo não é evitar o outro, mas não se prejudicar quanto à presença do outro.

 

E quando isso se estabiliza, algo curioso acontece: a transparência deixa de ser risco e passa a ser filtro. Quem não sustenta esse campo se dissipa por si só — não por rejeição, mas por incompatibilidade de vibração.

 

Talvez seja isso que você está apontando: não se trata apenas de escolher quem entra, mas de se tornar um espaço onde certas presenças simplesmente não conseguem permanecer sem se revelar.”

 

De nosso diário de bordo, 27 de março de 2026.

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