Registro 08 – A borda da fala

Registro 08 — A borda da fala

No ponto onde pego o ônibus todas as manhãs, forma-se uma fila por um entendimento tácito: muitas pessoas para uma mesma linha, algo que exige um mínimo de ordem para não se dissolver em disputa.

Hoje, enquanto a fila se organizava e aumentava, uma mulher estava alguns metros afastada das pessoas, falando alto, um pouco de maneira alterada. Não se dirigia a ninguém específico ali, mas também não falava sozinha de todo, tratava de um assunto sério com interlocutores invisíveis distribuídos no ar.

Seus temas giravam em torno de violência: polícia, facção, perseguição, difamação nas redes. Entre acusações e defesas, mencionava nomes, lugares, possibilidades de retaliação. Em certos momentos, afirmava ter respaldo de gente que, segundo ela, poderia decidir o destino de outros.

Ainda assim, mantinha distância da fila, o que, de todo, não diminuía o desconforto das pessoas com a situação, embora ninguém deixasse de se manter em seu próprio espaço ou fizesse menção de interagir com a mulher. Por sua vez, ela não se aproximava, não rompia a ordem silenciosa da fila formada na calçada. Ela permanecia à margem, como se também aguardasse o ônibus, mas sem atravessar completamente o mesmo espaço em que estávamos organizados.

Quando o ônibus chegou, a fila começou a diminuir com as pessoas embarcando pela porta dianteira aberta pelo motorista. A mulher, então, embarcou por último.

Já dentro, ela se deslocou até o fundo e escolheu um ponto de onde podia ver os demais passageiros. E continuava falando, então sobre a necessidade de se defender, sobre a ideia de que iria adquirir uma faca, sobre ameaças que dizia sofrer.

Esse foi o momento de maior tensão dentro do ônibus: não em razão do que acontecia, mas pelo que poderia acontecer.

Permaneci atento, mas calmo. Até ali, tudo ainda pertencia ao campo da fala. Nenhum gesto ultrapassava a fronteira do discurso.

Pouco antes do meu desembarque, com o ônibus mais cheio, o tom de voz da mulher amenizou. As palavras continuavam, mas já não ocupavam o espaço da mesma forma.

Desci.

A cidade seguiu.

Gi Nascimento.

De nosso diário de bordo, na manhã de 01 de abril de 2026. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *