A transformação do espaço, antes de ter uma substância concreta, tem um pensamento possível de sua existência, sendo que tudo parte de uma mesma e somente uma substância. É um livro dinâmico, uma bicicleta encostada, uma ideia de rotina de modo a se elaborar a si mesmo a partir de uma agenda de práticas como uma elaboração de uma vontade continuada a se transcorrer no tempo e no espaço como expressões de uma vontade maior, a que damos o nome recorrente de Deus. E não o percebemos como fato em grande parte das vezes.
Mas a ligação à ancestralidade demonstra que o conhecimento do tempo, sobretudo, de seu próprio tempo vivido, afeta as condições em que vivemos quanto a uma qualidade que percebemos digna a todos, embora todos de distintas maneiras afetados por um efeito dominó, o que explica a ligação à ancestralidade que nos trazem ao presente, do qual somos partes indivisíveis no testemunho à fé, onde “orar e vigiar” é recinto de hábitos em um espaço específico, a exemplo da casa da avó.
Na ancestralidade humana a recorrente conversa entre os espaços e as pessoas condicionaram as expressões materiais dos primeiros e as mudanças de hábitos dos segundos, transformando-se em espaços cíclicos.
Lembro disso, porque tomo de exemplo a cozinha em que vi minha avó por muitas vezes se ocupar com almoços de família. A mesa, necessariamente grande, ocupando o espaço retângulo da cozinha em seu centro, não permitia que duas cadeiras das seis posições à mesa, fossem utilizadas, porque, assim que utilizadas, trancava a passagem que se tinha diante do fogão e da pia, onde ela trabalhava nos pratos. Não por acaso, portanto, o evento continua existindo, porque, embora não tão grande quanto antes, é nossa presença à casa que retoma em minha memória esse clima “ancestral”, por assim dizer, no qual vejo meus filhos melhor instalados e em condições melhores para que possam viver suas próprias escolhas, escolhas pelas quais temos ciência de que partem deles na vivência do tempo deles. E se não fosse assim, as mudanças que chegamos a conhecer não seriam possíveis, principalmente as de comportamento cultural de uma geração a outra, seguindo sua inexorável jornada de ser início e fim.
O cíclico, como aspecto do transcorrer do tempo em elementos identificáveis pelos quais reconhecemos um estado de vivência, é essa natureza mais simples de compreender as necessidades humanas como estados de passagem para um novo momento. Assim contamos anos de um mesmo instante que se refere a ato mais elementar de nossa existência corpórea biológica que é a inspiração, e que nos tornou possível a vida. Mas, e há milhares de anos? Como teria sido? Essa humanidade em um tempo primitivo teria entendido que dependia do ar que respirava para viver? Ou teria compreendido a sua realidade como algo ainda mais sutil, um “alento” de uma substância que o ligava à própria existência da vida, e não simplesmente uma substância invisível a que damos o nome de ar.
Não sabemos. Mas reconhecendo que há nas histórias lições importantes de sabedorias ancestrais, nossas escolhas já percorrem trilhas conhecidas de experiências adquiridas por gerações e, embora exista o fato da finitude da vida como prova de que tudo é sacrifício, o novo instante ainda vem de um ponto infinito que passam pelas capacidades humanas de transformar sua conduta em habilidades relacionadas aos espaços.
No entanto, lidamos com mentalidades fatalistas, insensíveis de que existem meios a mudar essa perspectiva de que “não há outra saída”, porque há; pois, do contrário, a história humana não teria se desenvolvido a ponto de se recordar de seu aspecto mais sofisticado, e de que trata de sua essência.
Essas duas “teses” parecem determinar, de maneira geral, os interesses quanto aos recursos finitos, e aterrador é o afunilamento dessa mentalidade quando, na verdade, tudo se transforma em uma dinâmica de transformação da cultura humana, a ver o exemplo da história que envolve a Santa Bárbara, jovem instruída, mas isolada, que, em contato com o mundo, escolheu a fé cristã de Trindade Divina, com que ela acabou sua vida, sendo ela degolada pelo pai: a geração anterior, que nada entendia daquele novo pensamento a que se apegara a filha, punida por um raio, e, por isso, a data comemora a proteção dos lares quanto às tempestades, raios, sendo nomeada Santa Bárbara, Padroeira dos artilheiros, dos mineradores e das pessoas que trabalham com fogo. Penso que, em homenagem à Santa Bárbara e sob a proteção da qual nos encontramos na data de hoje, fique dedicada essa postagem.
De nosso diário de bordo, 04 de dezembro de 2019.
Por Gi Nascimento.
[…] harmônica de energias movidas. Mas foi numa postagem de 2019 que eu falo um pouco mais sobre isso AQUI, porque foi muito um resumo do que passávamos até o fim daquele […]