Pontes temporais
Edição Especial de Inverno 2021
Se o tempo é uma sucessão de eventos ordenados por uma percepção quanto a uma mudança de estados, a densidade dos fatos nos revela uma maior ou menor sensação de mudança temporal dentro de um transcorrer acelerado ou lento do giro dos ponteiros de um cronômetro. Os nossos sentidos, quanto ao que se passa do lado de fora da cabine, estão, ainda, num mundo a se compreender, principalmente depois do impacto da realidade pós-pandemia da segunda década do século XXI em diante.
Se na última série De nosso diário de bordo, “Novo Mundo”, abordamos uma rotina de mudanças de comportamento que foi necessária ao período de isolamento, uma necessidade posterior foi a de se resolver compromissos de maneira virtual, no que, assim, se tornaram nossas relações de trabalho quando pensamos numa localização de um escritório ou em quaisquer tipos de serviços oferecidos sem que a presença física das pessoas seja exigida.
Esse é o detalhe que se refere à nossa época de partida.
Um ano antes da pandemia, em 14 de abril de 2018, Kreskin, nome artístico de George Joseph Kresge Jr., apresentava um dos seus quadros para uma plateia de auditório quando, por mais uma vez, depois de trinta anos de palco, conseguiu encontrar um envelope escondido entre as pessoas da plateia e que continha seu cache pelo show de mentalismo que apresentava pelo seu programa “The Amazing World of Kreskin”, nos EUA e Canada.
Tenho comigo um livro da autoria de Kreskin que foi publicado no auge de sua carreira como ator “mentalista”, que desde os anos 1970 fazia shows com sua capacidade de “ler” mentes. E é curioso para mim que eu encontre, nesse livro editado pela Record, “uma percepção mental” de que o autor vai chamar de “crepuscular” quanto ao que Kreskin considera uma arte: a de sugerir ou de iludir o espectador em torno de algumas orientações subentendidas quanto às suas motivações no decorrer dos eventos do show. Diz ele que, para chegar a esse ponto, precisa existir uma comunicação mental entre ele e o público, ou ele e a pessoa para a qual ele sugere uma interpretação, adivinhando-lhe alguns dos pensamentos que, por natureza do show, são próprios aos eventos narrados. Sobretudo, Kreskin se separa de qualquer noção “extra-sensível” sobre sua particular capacidade, negando ter algum poder sobrenatural que pudesse exercer em palco, quando, o que ele faz, afirma, é se tornar hipersensitivo à comunicação mental que pode ser exercitada como um músculo qualquer de um corpo biológico, sendo que “…, pela hiperestesia o indivíduo se tornava sensível aos menores detalhes do ambiente…” (p. 23) e, portanto, o que Kreskin fazia era explorar a percepção mental das pessoas na plateia, sensibilizando-se pela interação verbal até conseguir fazer alguns prodígios relacionados à adivinhação da personalidade das pessoas, além de saber de informações que se confere em um número de documento. Conclui ele que os meios de comunicação, nesse ambiente, se sobrepõem ou se combinam para se ter o efeito de contato telepático.
Aliás, de acordo com Kreskin, estaríamos, como espécie humana, melhor preparada para o uso da telepatia antes da ascensão das tecnologias recentes que, como ele mesmo cita em seu livro “Kreskin e seu mundo sobrenatural”, teria diminuído a capacidade psíquica pelas formas de mediação do que são nossos conhecimentos a que estamos sensíveis.
Ou seja, na perspectiva de Kreskin, seríamos, enquanto espécie, “naturalmente” telepatas antes da Revolução Agrícola, já que essa determinou uma mudança de modo de vida que se caracterizou como essencial às civilizações da Antiguidade e todas as tecnologias escritas.
Em nossa cabine, sou quem pode parar a linha do tempo que se transcorre e a observar seus mínimos detalhes, fazendo, assim, um “print” instantâneo do ponto histórico em que nos encontramos ao estudar os instrumentos técnicos da época, os hábitos e as expressões das pessoas em seus ambientes.
É algo que muito se aproxima da hiperestesia como a experimentada por Kreskin em seus shows na TV, uma forma de exercício mental que se descreve pela análise das expressões culturais humanas, decorrendo-se um campo de condutas possíveis à interpretação em estados futuros, presentes ou, ainda, de um aspecto passado. Kreskin é um mestre da ilusão, quem sabe sendo ele até um meta-morfo, já que não podemos nos esquivar de considerar alternativas paralelas possíveis por sua perspectiva, embora seja algo apenas plausível para se responder a algumas das questões que levantamos enquanto navegadores temporais.
De nosso diário de bordo, dia 09.
Edição Especial de Inverno 2021
Ficções Especulativas
De nosso diário de bordo
Período de 09/07/2021 a 31/07/2021
Tripulantes de nossa nau
De nosso diário de bordo 2021
Nossa Nau – um diário virtual de nossa navegação histórica, um blog sobre nossa jornada que se registra por meio do espaço conceito de institutoshoin.com.br
Por que “Instituto Shoin – Espaço Conceito”?
Uma instituição são pessoas que compartilham uma visão de mundo ou um propósito comum. Com o intuito de servir de abrigo às iniciativas pessoais de transformação dos meios de vida a um bem-estar, nasce o “espaço conceito” do “Instituto Shoin” como site a blogs pessoais e ficcionais para uma narrativa iniciada no final da primeira década do atual século XXI, em fins do ano de 2009, sendo que o termo “Shoin” tem tradição de origem nipônica, a significar um espaço específico dentro das habitações japonesas que são destinadas a receber visitas e a ser um ambiente de diálogo, de estudo e de meditação.


