Laboratório de livros
De nosso diário de bordo.
Pelas leis interplanetárias de navegação temporal, há um período anterior ao desembarque de carga, ou da tripulação, em que se exige uma inspeção por parte das autoridades locais em relação a qualquer embarcação que atraque num porto, obtendo-se trânsito livre a toda a tripulação após o desembarque.
Costumo dizer que, nessas horas, o tempo sensível se torna “escasso” em razão de outras prioridades a que damos maior importância no nosso dia a dia de embarcados. Mas a verdade é que a nau precisa ser atracada em um cais em algum tempo-momento enquanto estrutura pela qual se navega pelo tecido tempo-espaço conhecido, mesmo ultrapassando leis e fronteiras temporais de que se jamais teve conhecimento escrito.
Como estudioso, espero esses momentos burocráticos se darem no hangar de carga enquanto me dedico a estar sob a claraboia da cabine de navegação com os meus livros que, por gosto pessoal, nutro quanto a um bom hábito de leitura desde muito cedo, na infância.
Aliás, consulto um exemplar na tradição da linha de Rudolf Steiner, filósofo, educador, artista, esoterista e fundador da antroposofia. Ao retirar o exemplar da estante como quem domina a leitura da edição pelo tato, observo cada aspecto materializado do livro que se encontra sob camadas de interpretação do que são signos, ou se preferir, sinais como reproduções de natureza estética intuitiva se pensarmos que, o que se representa por meio de cada cor e cada traço, é a vontade de ver algo por ser representado e, assim, interpretado num modo além, que se expressa em algo “impresso”, penso.
Isso de ser algo “impresso”, para mim, exerce um fascínio.
“O Despertar da Vida Anímica da Criança” é um ensaio de poucos parágrafos que, uma vez lido, compreende-se que a vida plasma um primeiro estágio do desenvolvimento humano biológico de maneira quase que instantânea: do nascimento à primeira infância numa expansão de uma célula primária a um corpo organizado numa infância de vida que me leva a dizer que não há quem possa não ter a vivido sem ter passado por ela a se chegar a vida adulta.
Trata-se de um ensaio de uma coletânea de “A natureza Anímica da Criança” numa edição nacional amarelada de 1983, e é bastante descritiva quando procura fomentar a compreensão da infância como extensão natural à criação divina do corpo concebido, sobretudo, em essência, para um mundo da materialidade das experiências a serem vividas, produzindo um estado de entendimento que podemos chamar de místico e que cobre o conhecer do ser humano em sua existência e na criação diante do que é Infinito, uma vez contraposto à finitude humana.
Por isso, penso, sirvo-me de mapas específicos aos labirintos das narrativas como as que me recordo de meu espaço-tempo: uma cabine em hexágono tal qual fosse ordenada sua forma por espelhamento à A Biblioteca de Babel, do escritor argentino Jorge Luiz Borges; conto no qual se descreve, no que posso ler, o que existe de particular em uma estante como uma esfera de um ponto de vista descrito ao Universo sem que se passe a novos sentidos do que são somente pensamentos. Dai as variadas interpretações do espaço físico e do espaço vivido, pelo corpo como é percebido e, enfim, depois, teorizado, sobretudo, por meio de uma subjetividade da qual nos servimos para compreender o que são expressões simbólicas num mundo de contraditórios acontecimentos.
Por exemplo, A Britannica, enciclopédia, inicialmente foi publicada entre 1768 e 1771, em Edimburgo, no Reino Unido, alcançando vinte volumes publicados com a sua terceira edição em 1801. Edimburgo, aliás, que não se dá longe de Glasgow, cidade onde desembarcaremos, viria a ser pioneira na informática de gerenciamentos no século XX, pela Universidade de Edimburgo.
“O grande salão de Eidin” deixei anotado em nosso diário de bordo.
“Burgo: o elemento burgo é muito comum entre os nomes das cidades escocesas e em todas as línguas germânicas, e denomina a uma classe de cidade caracterizada por crescer ao redor de uma estrutura central fortificada, como um forte ou castelo“
“Sim, há um castelo”, pensei.
E de maneira a ficar mais curiosa para um estudioso perceber que ser Edimburgo “a Atenas do Norte” pelo fato de a cidade ter sido um dos principais centros intelectuais no Iluminismo e Revolução Industrial. Além disso, as duas cidades são topograficamente parecidas e na cidade encontra-se o Monumento Nacional sob Calton Hill que lembra a acrópole de Atenas.
Pergunto-me da motivação de estar representado o clássico de um período grego que se constituiu fórmula de conhecimento nas Terras Baixas da Escócia de tal modo a inspirar um século de transformações atribuídas à engenharia, de um modo geral, mas sobretudo, a mecânica de motores, de que se serviu a Grã-Bretanha a formar um Império, nascida desde 1 de maio de 1707, então Reino Unido pela união política do Reino da Inglaterra e o Reino da Escócia, resultado do Tratado da União, assinado um ano antes, 1706, em 22 de julho, mas um dia e em mês que cai exatamente ontem no século XXI, mas que é, também, hoje a quem redige o caderno.
De nosso diário de bordo, dia 15.
Edição Especial de Inverno 2021
Ficções Especulativas
De nosso diário de bordo
Período de 09/07/2021 a 31/07/2021
Tripulantes de nossa nau
De nosso diário de bordo 2021
Nossa Nau – um diário virtual de nossa navegação histórica, um blog sobre nossa jornada que se registra por meio do espaço conceito de institutoshoin.com.br
Por que “Instituto Shoin – Espaço Conceito”?
Uma instituição são pessoas que compartilham uma visão de mundo ou um propósito comum. Com o intuito de servir de abrigo às iniciativas pessoais de transformação dos meios de vida a um bem-estar, nasce o “espaço conceito” do “Instituto Shoin” como site a blogs pessoais e ficcionais para uma narrativa iniciada no final da primeira década do atual século XXI, em fins do ano de 2009, sendo que o termo “Shoin” tem tradição de origem nipônica, a significar um espaço específico dentro das habitações japonesas que são destinadas a receber visitas e a ser um ambiente de diálogo, de estudo e de meditação.


