O arcanjo e os biberões

Dia de São Miguel Arcanjo, dia de estreia da série "Diálogos em antiguidades e ritos", parte integrante da grafia De nosso diário de bordo, edição de primavera 2019! Por Gi Nascimento.

O arcanjo e os biberões

Dia de São Miguel Arcanjo, dia de estreia da série “Diálogos em antiguidades e ritos”, parte integrante da grafia De nosso diário de bordo, Edição de Primavera 2019
Por Gi Nascimento.
Arcanjo Miguel (Estátua sobre Castelo de Santo Ângelo, Roma)

O início de uma suplementação à amamentação materna a partir de leite de animais ruminantes pode ter se dado há pelo menos sete mil anos atrás, assim aponta um recém artigo da Revista Nature que trouxe a público os resultados de uma pesquisa feita sobre os indícios de ácidos lácteos em “mamadeiras” ou “biberões” de cerâmica datados do período Neolítico, utensílios domésticos feitos, provavelmente, para amamentar crianças após o desmame materno, inserindo, desse modo, outros nutrientes e fontes de alimentos à ingestão diária da criança durante o desenvolvimento de seus primeiros anos de vida.

  •     Acesse a notícia, clique AQUI!

Se bem observada a notícia, estamos falando de uma prática alimentar que nos últimos sete mil anos foi tão determinante para a continuidade da espécie humana quanto o foi o cultivo de grãos de cereais às primeiras civilizações da Antiguidade. O cultivo do trigo foi, por exemplo, lastro a um rápido desenvolvimento humano em termos de acesso às fontes calóricas de alimentos que possibilitaram a construção das civilizações, tanto quanto possibilitaram os parâmetros dos fundamentos das nações que delas se desenvolveram. Em torno desses eventos que se deram em aproximadamente 5500 anos antes de Cristo, houve um cenário propício à domesticação de animais e de plantas como forma de domínio sobre o meio ambiente com algum entendimento da necessidade de uma suplementação alimentar, como fato observado para a criança já na pré-história com a ingestão de leite de animais ruminantes ou mesmo com a inclusão de grãos de trigo aos hábitos alimentares que trouxeram às civilizações um período de grande abundância relacionado à reserva alimentar de alto valor energético que o cereal representava à alimentação humana.

Uma vez que grandes grupos humanos poderiam, com a reserva alimentar, ocupar uma maior territorialidade, a proximidade e a troca de conhecimentos pela diversidade de hábitos entre os vários indivíduos das culturas locais produziram o que se poderia chamar de “efervescência” cultural capaz de compreender-se em hierarquias de poder sobre a gestão dos recursos alimentares conservados em silos como ouro ou moeda de troca, ou a tributo para manutenção dos meios com que conservavam suas sociedades organizadas.

É nesse aspecto que podemos pensar o desenvolvimento da cultura semita como berço da civilização cristã e de um ideário que traz, pelas escrituras sagradas, a referência de um Arcanjo, um dos quais de nome Miguel, como o citado no Codex Sinaiticus (Bíblia do Sinai) do século IV da era cristã.

A palavra “Arcanjo” tem origem no grego em que “arch” deriva de “arché” que se refere a “começo, ponto de partida, princípio”, como também à “suprema substância subjacente” ou ao “princípio supremo indemonstrável”. “Anjo” vem igualmente do grego “angelos” e significa “mensageiro”.

Na tradição hebraica, Miguel significa “aquele que é similar a Deus” (Mikael: mi -“quem”, ka -“como”, El -“deus”), nome interpretado de forma retórica em “Quem como Deus?” (em latim: Quis ut Deus?) e que implica que ninguém é como Deus. E, assim, Arcanjo Miguel é reinterpretado como um símbolo de humildade perante Deus, sendo protetor das crianças de seu povo, favorecedor da cura e da liderança divina contra as hostes malignas.

"Arcanjo", num fragmento da Epístola de Judas (Tadeu) no Codex Sinaiticus, século IV d. C.

Arcanjo Miguel, sobretudo, representa um líder diante dos mensageiros que são os anjos nas descrições sagradas que acompanham os principais fatos narrativos às crenças judaicas, cristãs e islâmicas. E o aprendizado cultural que lhe refere, diz respeito à estratificação de poder em hierarquias divinas com algum comando sobre uma cooperação evidente em razão do prestígio em torno das decisões que estão em crenças religiosas que fundamentaram o sucesso de seu mito.

Se observarmos com maior profundidade, perceberemos que, na atualidade, a civilização ainda se abastece do trigo e do leite animal como reserva energética que fomenta toda indústria destinada à alimentação. É com uma ideia de complementação alimentar à criança, uma prática pré-histórica humana que possibilitou maior chance de êxito na sobrevivência da prole frente à fome, que o ser humano talvez tenha se abastecido de grãos e se relacionado com uma maior diversidade de representações ligadas às crenças de como suas sociedades se organizavam em razão da dependência do que consumiam como alimentos.

Os biberões cerâmicos pré-históricos, dessa forma, podem ter causado um impacto de maior magnitude do que geralmente se esperaria compreender sobre uma simples solução alimentar disposta pelo objeto incorporado à prática dos cuidados necessários aos primeiros anos de vida de uma criança, e, com isso, influenciado o imaginário a preservar sob um mito de poder a representação tanto da infância da criança quanto à base de suas civilizações que foi o trigo como reserva calórica frente ao futuro do que se poderia chamar de um “único povo” constituído.

De nosso diário de bordo, 29 de setembro de 2019.

Dia de São Miguel Arcanjo

Oração à São Miguel Arcanjo

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate.
Sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio.
Que Deus manifeste o seu poder sobre ele. Eis a nossa humilde súplica.
E vós, Príncipe da Milícia Celeste, com o poder que Deus vos conferiu,
precipitai no inferno Satanás e os outros espíritos malignos,
que andam pelo mundo tentando as almas. Amém.

Castelo de Santo Angelo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *