Diálogo de Arjuna

"Diálogo de Arjuna" é título da terceira postagem da série "Diálogo em antiguidades e ritos" em que o sentido de existência do arqueiro frente à Grande Batalha de Kurukshetra nos leva a um profundo questionamento de nosso sentido de existência. Parte integrante da grafia "De nosso diário de bordo", Edição de Primavera 2019. Escrito por Gi Nascimento.

Diálogo de Arjuna

 Terceira postagem da série “Diálogo em antiguidades e ritos” e parte integrante da grafia De nosso diário de bordo, Edição de Primavera 2019.

Escrito por Gi Nascimento.

Na literatura secular indiana do Mahabharata está a passagem de uma parte chamada “Bhagavad Gita” (do sânscrito transliterado “canção do bem-aventurado”), onde Arjuna é o arqueiro em uma biga e está à frente da Grande Batalha Kurukshetra (que significa campo dos Kuru, no atual estado de Haryana, no norte da Índia Matreia), auxiliado por Krishna, que por sua vez lhe dirige ao combate ao conduzir os cavalos, quando, por breves instantes, Arjuna demonstra relutância em lutar contra seus próprios familiares, instantes em que Krishna o guia a toda uma instrução quanto ao sentido de existência da vida, pois fora essa a dúvida fundamental que havia dominado Arjuna a ir combate e que o impedia de seguir ao confronto em que ambas partes da sua família iriam se entregar.

É uma passagem marcante a quem tenha alguma vez entrado em contato com esse tipo de leitura sacra, porque é um momento determinante à vida, no caso, de Arjuna e de sua passagem pelo sentido de sua existência como o é para qualquer um que trace as três perguntas fundamentais a toda existência de consciência estando, sim, em diálogo, (do grego antigo: διάλογος diálogos) quando “o sentido” significa efetivamente “passagem, movimento”, e assim, diz respeito a uma troca de conhecimentos que passa às gerações por pessoas que alcançam uma boa vontade e compreensão recíproca.

Não muito distante desse conhecimento sobre o que reflete a ação humana sobre sua própria existência de fatos, (que é a passagem em que Arjuna, na fração de segundos, desvenda a sua existência e seu papel humano antes de se entregar à batalha final), está também uma parábola de Platão em Fredo (seções 246a – 254e), e que diz respeito a uma visão da alma humana que se alcança por meio de uma explicação dada por um diálogo.

Um condutor de uma biga guia dois cavalos, “um cavalo é branco e tem um grande pescoço, bem criado, bem educado e corre sem chibatadas; o outro é preto, pescoço curto, mal alimentado e problemático”.

Descreve-se, em Fredo, um roteiro que as almas fazem enquanto seguem os deuses no caminho da iluminação, onde demonstra Platão que “são poucas almas que são plenamente iluminadas e são capazes de ver o mundo das formas em toda a sua glória. Algumas almas têm dificuldade em controlar o cavalo negro, mesmo com a ajuda do cavalo branco. Eles podem mergulhar no mundo das formas, mas em outros momentos a iluminação está escondida delas. Se vencida pelo cavalo negro ou esquecimento, a alma perde suas asas e é puxada para a terra. Se isso acontecer, a alma é encarnada em um dos nove tipos de pessoas, de acordo com a quantidade de verdade que ela viu”.

Assim, na parábola, a trajetória de um condutor de biga representa o intelecto, a razão ou a parte da alma que deve guiar o espírito à verdade; o cavalo branco representa o impulso racional ou moral ou a parte positiva da paixão; o cavalo preto representa as paixões irracionais da alma, o apetite ou a natureza concupiscente. O condutor dirige a biga/alma tentando impedir que os cavalos sigam direções opostas, ou que sigam rumo à luminosidade.

 

No lendário diálogo entre Arjuna e Krishna,  Sri Krishna é o mestre e seu discípulo é Arjuna. Nesse único diálogo a identidade entre “o indivíduo” e o “Todo” é apresentada através das palavras de Krishna à maturidade do príncipe e arqueiro Arjuna, que perdeu o seu trono e reino usurpados por seus parentes. Desanimado, Arjuna se recusa a lutar pela reconquista instantes anteriores à batalha, quando, então, Krishna o faz perceber da impecabilidade de todo guerreiro diante do processo da morte em que todos ali se encontravam para que se cumprisse seu papel na batalha da vida.

Na parábola da biga de Platão, a pergunta de quem conduz a ação está centrada nas qualidades dos cavalos que puxam o carro. O cavalo preto e o cavalo branco se referem a princípios mais e menos elevados, embora tenham suas qualidades próprias positivadas pela mesma direção à elevação, sendo o resultado da ascensão apenas uma questão de tempo.

Ambas passagens são de natureza sacra e litúrgica para os desenvolvimentos das narrativas distintas em tempos díspares. No entanto, tratam de elementos próprios ao diálogo: emissor-receptor-mensagem, da mesma maneira que há na trindade divina uma distinção hierárquica de conhecimento que se pronuncia por autoridade.

De nosso diário de bordo, 06 de outubro de 2019

Gi Nascimento

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