Dicionário da cabine
Edição Especial de Inverno 2021
É interessante como uma história experimental sem enredo certo além de um tópico e de uma vivência pode se tornar atemporal como o foi o primeiro e único romance do esloveno Milorad Pávitch, e seu “O Dicionário Kazar”, de que faço uso no estudo de fragmentos temporais. Esse texto é de 1984 e está em nossa cabine para consulta na sua edição de 1989, do Brasil, “Feminina” de que se trata a ideia de um romance-enciclopédia.
Sim, existem diversas categorias de livros ficcionais com estruturas narrativas particulares e até, surpreendentemente, soube de uma categoria de romance iniciático em que o Asno de Apuleio é citação certa. Mas isso é outra linha de que falarei em tempo propício, porque tudo tem seu devido tempo e, por isso, sabemos qual é a anomalia temporal quando essa ocorre.
Em “Nota sobre Adão Kadmon”, por exemplo, sabemos de “O Dicionário Kazar” que “O limite se situa entre o verbo e o substantivo! Quer dizer que o tetragrama – (…), não é de maneira alguma um substantivo, mas um verbo. É preciso não se esquecer que Abraão levou em conta os verbos dos quais Deus se serviu para criar o mundo, e não os substantivos. A língua que utilizamos compõe-se, portanto, de duas forças desiguais, de origens diferentes. Pois o verbo, o logos, a lei, a regra, garantia da boa conduta e de um comportamento correto e útil, precedeu ao próprio ato de criação do mundo, ou seja, a tudo que é suscetível de agir e de estabelecer relações.” (Grifo meu, Editora Marco Zero, SP: 1989; p. 199).
Esse, acima, é um texto de influência rabínica em sua ideia de conversão dos kazares eslavos à fé do livro sagrado de Torá. Mas o que é curioso no destacado acima se relaciona à crença egípcia, sendo anterior, portanto, à fé judaica na premissa de ser principiológica na representação de deuses como Ptah, referência ao deus que concebe a criação a partir de uma substância chamada Kau, sendo a matéria um princípio além e acima da polaridade da relação criativa, em que o princípio da substancialidade, no Antigo Egito, foi uma íntima conexão entre o Quatro (4) do mundo material ao simbolismo do Três (3) da criação.
Sobretudo, o “Dicionário Kazar” em nossa cabine “reúne os cadernos dos caçadores de sonhos, feito com biografias de vários homens e mulheres” em um “retrato-mosaico” chamado “Adão Kadmon” por Milorad Pávitch. E se usa aqui tal qual a lenda sobre Yabir Ibn Akchani que:
Em certa manhã, em 1699, em Constantinopla, jogou uma folha de louro numa tina de água e mergulhou nela a cabeça para lavar a sua trança. Permaneceu assim alguns instantes. Quando tornou a levantar a cabeça para respirar, ao seu redor nada mais restava de Constantinopla, nem do reino em cujo coração fazia toalete. Encontrava-se agora no Kingston, um luxuoso hotel de Istambul em 1982, depois de Iça: tinha uma mulher, um filho e um passaporte belga, falava francês, e diante dele, no fundo da pia de marca F. Primavesi & Son, Corrella, Cardiff nadava ainda uma folha de louro (idem, p. 119)
De nosso diário de bordo, dia 11.
Edição Especial de Inverno 2021
Ficções Especulativas
De nosso diário de bordo
Período de 09/07/2021 a 31/07/2021
Tripulantes de nossa nau
De nosso diário de bordo 2021
Nossa Nau – um diário virtual de nossa navegação histórica, um blog sobre nossa jornada que se registra por meio do espaço conceito de institutoshoin.com.br
Por que “Instituto Shoin – Espaço Conceito”?
Uma instituição são pessoas que compartilham uma visão de mundo ou um propósito comum. Com o intuito de servir de abrigo às iniciativas pessoais de transformação dos meios de vida a um bem-estar, nasce o “espaço conceito” do “Instituto Shoin” como site a blogs pessoais e ficcionais para uma narrativa iniciada no final da primeira década do atual século XXI, em fins do ano de 2009, sendo que o termo “Shoin” tem tradição de origem nipônica, a significar um espaço específico dentro das habitações japonesas que são destinadas a receber visitas e a ser um ambiente de diálogo, de estudo e de meditação.


