Cais sideral

Cais sideral

Edição Especial de Inverno 2021

Glasgow, ano de 1796 d. C. Uma cidade escocesa que se tornou um dos principais pólos de comércio transatlântico entre Reino Unido e a América do Norte, e que, com a Revolução Industrial, também se tornou referência de engenharia à construção naval com estaleiros onde foram feitas as mais extraordinárias embarcações a vapor.

Foram os imensos dragões do mar que, já na Era Vitoriana, trouxeram o título de “Segunda cidade do Império Britânico” a Glasgow. A “Glas cau”, que na antiga língua cúmbrica significava “vale verde”, era a “Glasgow” de Lanark, herói do romance escrito por Alasdair Gray, história em que o sempre cinza das terras escocesas é o descampado e solitário em que todos apenas passam pela névoa que lá é uma presença quase constante, seja no mar à costa da cidade portuária de Greenock, seja nas Terras Altas cuja cor, no inverno, é sempre a de um pálido esperar por época menos sombria.

Máquinas a vapor foram necessárias no início da Revolução Industrial para, por exemplo, bombear a água das minas de carvão, recurso utilizado na industria de metalurgia naval para a fundição do ferro. Pela telemagem, Sany observou, então, pela janela, que tínhamos um tempo para a nossa chegada na zona portuária de que nossa nau, originalmente partiu, fabricada em 1808, sendo que o ponto com o qual nós tínhamos, na verdade, algum compromisso, se encontrava no observatório da Universidade de Glasgow, uma das mais antigas do continente Europeu.

O cheiro de enxofre e alcatrão dominava o cais em que aportamos nossa nau. As empresas temporais de navegação sideral desfilavam seus slogans de boas vindas pelos impressos da cidade. Os homens que chegavam no porto eram membros corriqueiros dos pubs escoceses. Glasgow fervilhava de ratos em meio a sua penumbra de ares pesados onde o castigo sempre rondava um destino incerto de quem se arriscava em meio à névoa.

Lançamos ancora no horário local, passavam das vinte e três horas.

Janela temporal? – perguntei diante do painel do controle de conferência da embarcação, tomando nota dos detalhes técnicos relacionados ao porto.

Quatro dias – Sany relatou a partir da resposta do centro do controle, dando as datas relacionadas:

Ponto de retorno em 23.07.2021, 23:36, calendário moderno, domingo, lua cheia, data do encontro para embarque em 22 de maio de 1796, domingo. Clima local está entre nebuloso e chuvoso, com claridade do Sol nascendo às 05:04 e se encerrando às 21:24. Temperatura média de 11 graus.


Densidade astral? Qualidade do ar? – prossegui em perguntar.

Da cabine de onde se dava ignição no motor, K nos situava da situação mecânica e, ao mesmo tempo, girava as manivelas das bombas das caldeiras, alternando as saídas de vapores das chaminés para resfriar os motores.

Difícil dizer – afirmou ele ao terminar de redistribuir a pressão dos motores. Mas parece baixa, complementou ele ao se limpar de parte da fuligem da queima do carvão com que trabalhava na nau, arrumando, no seu rosto, os óculos de aviador que protegia os seus olhos do negrume do pó e do calor das chamas.

Sem sinal de tenebrosos, sinalizou no mapa de navegação Bella que, nesse instante, estudava as imediações do porto para, só então, depois e finalmente atracarmos a nau às cordas do cais para o desembarque.

De nosso diário de bordo, dia 13.

Edição Especial de Inverno 2021

Ficções Especulativas

De nosso diário de bordo

Período de 09/07/2021 a 31/07/2021

Tripulantes de nossa nau
Gi Nascimento

Escritor De nosso diário de bordo e pseudônimo de Egídio Mariano.

artesfatos.comEgidio MarianoEgidio Mariano
Ana Balesca

Artesã e Tecelã

Ana Balesca Atelier

De nosso diário de bordo 2021

Nossa Nau – um diário virtual de nossa navegação histórica, um blog sobre nossa jornada que se registra por meio do espaço conceito de institutoshoin.com.br

 

Por que “Instituto Shoin – Espaço Conceito”?

Uma instituição são pessoas que compartilham uma visão de mundo ou um propósito comum. Com o intuito de servir de abrigo às iniciativas pessoais de transformação dos meios de vida a um bem-estar, nasce o “espaço conceito” do “Instituto Shoin” como site a blogs pessoais e ficcionais para uma narrativa iniciada no final da primeira década do atual século XXI, em fins do ano de 2009, sendo que o termo “Shoin” tem tradição de origem nipônica, a significar um espaço específico dentro das habitações japonesas que são destinadas a receber visitas e a ser um ambiente de diálogo, de estudo e de meditação.