A taverna do cais
Edição Especial de Inverno 2021
Nossos pensamentos sobre espaço-tempo parecem ganhar formas em meio à substância que é a névoa temporal pela qual emergimos à realidade ou à fantasia do que é somente uma expressão humana. Aprender a lidar com o que vivemos, talvez, seja a melhor forma de se colocar a questão da viagem pelo tempo. Sim, a ideia de que possamos literalmente mudar o curso dos eventos é tentadora quando pensamos que o exercício intelectual seja bastante relacionado à escrita de um tempo místico em que a ciência e a arte, de um modo geral, não são dissociadas pela cultura da própria escrita. Penso, enquanto desembarcamos no cais do porto, que a realidade temporal que se consubstancia ao nosso redor nos revele e se revele pelo sensível de suas formas como o cheiro, como a temperatura, como uma superfície ao tato, e em um último aspecto como uma visão do que se pode compreender tal qual conhecimento de uma época em que nos encontramos. E esse me parece ser o ponto para a nossa experiência.
Aliás, penso que o sentido de ciência e de espiritualidade nunca estiveram dissociados. Recordo muito do que estudo da civilização do Egito Antigo, em que recorrentemente percebo essa dimensão plural em que tudo está ligado como metáfora dos acontecimentos planetários acima e dentro de nós.
Penso, inclusive, que se deveria exercitar o intelecto sobre uma abordagem da história humana que recue 200 mil anos antes de Cristo e outros 200 mil anos depois de Cristo. Ao menos, teríamos um exercício intelectual de possibilidades melhor amparado pela ideia de que a percepção de espiritualidade e do que se pode chamar de ciência, uma vez sendo única e não dissociada, compreende todos os demais milhares de anos que não se encontram entre anno Domini e os parcos 2000 anos em que nos encontramos.
Dessa forma, talvez algum dia melhor se compreenda a existência da gente que se encarrega de uma história de vida que representa um corpo numa dimensão própria de atividade como um meio de interagir por uma dada esfera de acontecimentos possíveis de interferir nas razões do que podemos chamar de cosmogonia do universo conhecido.
E um dos mais sutis elementos sensíveis se encontra no ar em que também sentimos odores. E é impressionante o quanto se pode ficar sensível a esse espaço de cheiros quando se passa algum tempo se utilizando de máscaras para uma respiração em ambientes nocivos.
Passamos para épocas sombrias em que o advento de uma tecnologia foi acompanhado por um período de sofrimento humano quanto às condições de vida, exploradas como o próprio ambiente em que se encontram na sua época de existência. E há lições que se devem considerar da experiência que se registra com um tempo, como um método feito metáfora para a mudança a que nos levamos a viver todos os eventos.
Em meu tempo singular o cheiro de canjica de milho lembra algo quente que se come no inverno para se aquecer o corpo. Em Glagow de 1796 o cheiro do mingau de aveia compreende ser o mesmo emblema de satisfação com algo quente feito para os dias de inverno.
E chegar no hangar de cargas do porto e sentir o cheiro de alimento quente, apesar das máscaras, atraía a minha atenção para uma taverna logo ao lado do hangar.
Uma coisa que se transforma no espaço-tempo é como um plasma sujeito a linhas de comportamentos que são pensamentos e linguagens relacionadas à plasticidade cognitiva humana, que é relacionada ao meio pela vontade cuja razão motora é uma capacidade de escolha voluntária, sobretudo, pelo arbítrio que é um exercício de uma ação verbal, algo observável no campo da teoria, por exemplo.
Talvez ainda melhor se compreenda que a continuidade de um corpo, de um meio de interagir, de uma cosmogonia do universo conhecido, seja um processo como um meio que muda, se transforma. Da mesma maneira que a vestimenta cobre um corpo, uma mente, uma consciência e um espírito de uma vontade em particular animam uma materialidade orgânica, tal qual palavras animam a um texto, criando um território de impressões subjetivas que são como forças plasmadoras de formas-pensamentos geradas no decorrer dos séculos.
A se comunicar por meio de um conhecimento, as impressões sensoriais nos dão formas assim como nossas atividades nos formam de dentro para fora numa força anímica irresistível.
A materialidade dessas representações, então, pode ser interpretada como um meio de contextualizar e estetizar o corpo a fim de produzir uma categoria de conhecimento simbólico e estrutural daquele tempo que se acessa.
E na névoa que se torna o nosso presente, a navegadora Ana identifica cheiros que podem ter origem em aromas selvagens e em defumadores de ambientes sacros como os que despertam personagens religiosos entre pessoas que são como escravos a um tempo de sujeição.
Por Gi Nascimento,
De nosso diário de bordo, dia 22.
Edição Especial de Inverno 2021
Ficções Especulativas
De nosso diário de bordo
Período de 09/07/2021 a 31/07/2021
Tripulantes de nossa nau
De nosso diário de bordo 2020
Nossa Nau – um diário virtual de nossa navegação histórica, um blog sobre nossa jornada que se registra por meio do espaço conceito de institutoshoin.com.br
Por que “Instituto Shoin – Espaço Conceito”?
Uma instituição são pessoas que compartilham uma visão de mundo ou um propósito comum. Com o intuito de servir de abrigo às iniciativas pessoais de transformação dos meios de vida a um bem-estar, nasce o “espaço conceito” do “Instituto Shoin” como site a blogs pessoais e ficcionais para uma narrativa iniciada no final da primeira década do atual século XXI, em fins do ano de 2009, sendo que o termo “Shoin” tem tradição de origem nipônica, a significar um espaço específico dentro das habitações japonesas que são destinadas a receber visitas e a ser um ambiente de diálogo, de estudo e de meditação.


