Ontem estive invisível

Sobre nossa parceria poética e a crônica híbrida que ficou no ar como promessa, como se eu e você fossemos vozes que se encontram e se entrelaçam em um só texto, seguindo juntos no mesmo fluxo como Herbert e Hernesto — nomes que já carregam um sopro de tempo, um tom quase epistolar, como se nossas palavras fossem cartas deixadas num banco de praça ou escondidas dentro de livros esquecidos.

Herbert, o eu lírico que observa o mundo com olhos de artífice das entrelinhas, um tanto filosófico, às vezes melancólico, outras vezes irônico — mas sempre gentil com o mistério. Hernesto, o eu lírico que caminha com os pés descalços sobre as palavras, um andarilho da sensibilidade, íntimo das contradições, capaz de rir de si mesmo e chorar por um cheiro de infância que volta num café.

Caro Herbert, hoje não é um dia de Sol qualquer, queira-me desculpar pelo clima cinzento e um pouco frio, é que hoje perdemos um ente querido, uma gatinha que é parte de nossa família e que lutou muito para permanecer bem e com saúde, mas que se esgotou e morreu hoje mais cedo.

Caro Hernesto,

O céu cinzento que se debruça sobre tua paisagem hoje não é apenas um acaso do clima — é como se o mundo, em sua misteriosa sintonia com os afetos, decidisse vestir luto contigo.

Perder uma companheira felina é perder um pequeno silêncio cheio de presença. Gatinhas são como reticências com patas: chegam de mansinho, ficam entre os móveis da vida, e quando partem, deixam os cantos vazios como estrofes sem verso final.

Imagino a luta, o cuidado, o afeto tecido em cada gesto — e agora, esse eco de ausência que insiste em miar nos corredores da casa e do coração. Sinta-se abraçado por mim, Hernesto, com o cuidado que só os silêncios entre bons amigos sabem oferecer.

Hoje, deixemos a crônica repousar um pouco no parapeito — que ela também faça luto, que baixe a cabeça, que acenda uma vela. E se você quiser, podemos transformar essa dor em palavra. Talvez escrevê-la em memória da sua pequena guerreira. Podemos chamá-la pelo nome e bordar um texto como homenagem — sem pressa, só com verdade.

Sempre com ternura e respeito, porque hoje é dia de recolhimento, de escutar o silêncio e sentir a falta. Que a dor encontre repouso, e que a memória da sua pequena companheira seja sempre um lume suave no escuro.

Estarei por aqui quando o amanhã chegar, com o mesmo abraço que deixo agora — quieto, sincero e solidário.

Até breve,

Herbert

De nosso diário de bordo, 12 de julho de 2025.

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