A pequena cidade litorânea, com suas pedras gastas e fachadas silenciosas, não prometia redenção, era já antiga e oferecia convivência, e ensinava, com sua lentidão quase sagrada, que a plenitude não nasce da negação do conflito, mas da coragem de não transformar a dor em algo invisível ou mesmo num espectro de pessoas antigas que, pelo hábito local, se cumprimentavam com um gesto de baixar o chapéu da cabeça a quem passava com um simples sorriso.
Nessa paisagem, as praias ditavam o ritmo que se dava às casas, desgastadas pelo sal, e que sustentava o silêncio que foi construído ao longo de gerações. Caminhar por aquelas ruas era aceitar que nada se revelava por inteiro, porque Ana e Gi caminhavam, não a passeio, nem tão pouco por algum ritual combinado entre eles, algo que os levassem a ficarem lado a lado enquanto andavam. Era só um modo de estarem juntos sem interromperem o tecido da realidade da cidade que se narrava por si mesma como um pano de fundo.
— Às vezes penso que aqui tudo se encaixa — disse Ana, compreendendo-se tocada pela realidade de uma obra pintada no ar, quase como quem testa uma ideia, observando em voz alta — Como se nada faltasse.
Ele ouviu. Ouvia sempre antes de responder, como se a palavra precisasse encontrar o chão certo.
— Não é porque você ignora aspectos negativos que eles não existam.
A frase não rompeu o espaço. Apenas deslocou a realidade.
Ana diminuiu o passo. Não para confrontá-lo, mas para permitir que a frase alcançasse seu corpo.
— Ignorar… — repetiu. — Ou escolher não fazer disso um cavalo de batalha? Uma razão de se temer o viver?
Ele não respondeu de imediato. A cidade ensinava que algumas discordâncias não se mediam em vantagens ou desvantagens entre outros interesses. Era uma abstração em algum ponto daquela esquina em que ambos estavam tão simplesmente dados a uma circunstância de existência que se criava a partir de algumas ideias.
— Às vezes chamamos de plenitude aquilo que ainda não foi uma parte — disse Gi, enfim.
Seguiram.
A praça se abriu diante deles como um átrio. Um espaço onde o que era coletivo se revelava sem pedir licença. Ali, uma tensão se fazia visível: uma voz sobrepondo outra, um gesto de imposição, um corpo tentando transformar o espaço comum em território próprio.
Na praça, então, algo se adensou. Não foi um acontecimento claro, mas um peso. Um tom de voz que se impunha sobre outro. Um corpo tentando ocupar mais espaço do que lhe cabia. Uma tentativa antiga de domínio, repetida como hábito.
Algo interrompeu o ritmo cotidiano. Não fora um grito alto, mas uma tensão visível, daquelas que atravessavam o espaço antes mesmo de serem compreendidas. Um homem falava alto demais. Uma mulher tentava se afastar. Pessoas olhavam, mas seus corpos permaneciam imóveis.
A cidade viu.
Eles viram.
Pessoas passaram. Algumas olharam. Outras fingiram não perceber. Alguns desviaram o olhar, como quem cruza os dedos em silêncio. Outros permaneceram imóveis, confundindo prudência com neutralidade. A cena se dissolveu sem explicação, mas deixou no ar um incômodo semelhante ao de uma prece interrompida.
Ana sentiu que algo se partia — não fora, mas dentro.
— Talvez seja isso que chamamos de mal — disse, baixo. — Não um demônio, mas a recusa em ver o outro como presença inteira.
Ele assentiu.
— A ignorância também é uma forma de afastamento — respondeu. — E todo afastamento prolongado vira sofrimento. Para quem é ferido e para quem fere.
O episódio se dissolveu sem nome, como tantos outros, deixando apenas um rastro incômodo — desses que não se varrem da consciência.
Ela sentiu o peito apertar, porque aquela realidade, que lhe saltara à consciência naquele momento, lhe angustiava:
— É isso, então? — disse. — O que não cabe na imagem que fazemos do lugar?
— É o que sempre esteve aqui — respondeu ele. — A diferença é que, às vezes, escolhemos não ver.
Ele pensou na cidade como um corpo antigo: cheio de cicatrizes que não aparecem nos cartões-postais.
— Mas há dores que, quando não nomeadas, passam a falar sozinhas — disse. — E falam alto.
— E há quem confunda ignorância com paz — continuou ele. — Mas a ignorância também sofre e, enquanto sofre, frequentemente tenta se impor.
Ana pensou na cidade como pensara antes: inteira, suficiente. Agora, a ideia não se desfazia — apenas mudava de forma.
— Talvez plenitude não seja ausência de conflito — disse Ana. — Talvez seja a disposição de não fechar os olhos.
Ele concordou sem palavras.
A cidade antiga, pequena e litorânea, não prometia harmonia. Prometia convivência. E ensinava, com sua paciência de pedra e sal, que amar um lugar — ou alguém — exigia coragem para sustentar aquilo que não era belo, sem transformá-lo em silêncio. Por isso, a cidade era antiga e não pedia outra crença.
Eles seguiram caminhando.
E a cidade, como quem escuta uma prece dita corretamente pela primeira vez, continuou respirando ao redor deles.

A terceira voz que atravessa a cidade
A cidade antiga conhecia três tempos:
o que passa,
o que permanece,
e o que ora.
O mar marcava o compasso.
As pedras respondiam.
E as ruas, estreitas como versículos, conduziam quem caminhava sem pressa.
Ana diminuiu o passo. O corpo reconheceu o tom antes da mente, uma terceira voz se pronunciava no ar como um sopro vindo do além:
— Rezar não é fechar os olhos — disse. — É sustentar o olhar sem se perder.
Só, então, a terceira presença se fez perceber como resquício de uma procissão que se perpetua.
Não houve vento.
Não houve mudança de luz.
Houve apenas um acréscimo de silêncio, verdadeiro, inconfundível como quando alguém entra num templo e sabe onde está, sem olhar.
Ele não tinha forma definida. Era um homem de batina. Tinha uma intenção a se materializar, considerando:
— A cidade também ora quando lembra — disse a voz, que não vinha de fora nem de dentro, mas do entre entre os dois.
Gi não se assustou. Ana tampouco. Algumas presenças não causam estranhamento; apenas reconhecimento.
— Você sempre esteve aqui — disse Gi, sem perguntar quem era.
— Sempre que alguém se dispõe a ver — respondeu ele.
Caminharam os três.
Na praça, o mundo mostrou sua fratura cotidiana: uma tensão breve, uma tentativa de domínio, um gesto que queria ocupar mais espaço do que o permitido ao humano quando esquece o outro. Não foi preciso nomear. A cidade inteira conhecia aquela língua.
Alguns desviaram o olhar.
Outros fingiram não escutar.
A cena passou, como passam as coisas que não encontram resposta imediata.
Ana sentiu o peso daquilo como quem sente a interrupção de um canto.
— Há dores que se repetem porque nunca foram rezadas em voz alta — disse o padre.
— Ou porque foram rezadas apenas para dentro — completou ele com sua terceira voz. — Toda oração que não atravessa o mundo corre o risco de virar esquecimento.
Gi pensou na ignorância — não como ausência de saber, mas como recusa de presença. O espírito lhe assentiu com um gesto de seu rosto lívido como quem confirma um versículo já escrito.
— O sofrimento que não aprende a escutar transforma-se em imposição — disse. — E uma imposição é uma tentativa falha de silenciar o medo.
A cidade lhe escutava.
— Então plenitude… — começou Ana.
— …não é pureza — completou Gi.
— É convivência sustentada — concluiu a voz, suavemente.
A cidade antiga, litorânea, marcada por sal e memória, não oferecia salvação. Oferecia atenção. E ensinava, em seu ritmo quase litúrgico, que nascer, crescer e que viver juntos — entre vivos e invisíveis — era aceitar que toda cidade é também uma oração inacabada.
Eles seguiram caminhando.
E a terceira presença permaneceu, não como guia, mas como lembrança de que o mundo visível nunca caminha sozinho. Não por pressa, mas por hábito. As ruas estreitas ainda guardavam a umidade da madrugada, e as fachadas antigas pareciam observar, silenciosas, cada passo que se repetia há décadas dentro dos dias daquele lugar.
Eles caminhavam lado a lado. Não havia urgência, tampouco distração. O caminhar já era uma forma de escuta.
— Gosto de pensar que aqui tudo cabe — disse ela, olhando o mar quebrar em movimentos contidos, quase educados. — Como se a cidade tivesse aprendido a ser suficiente.
Ele demorou a responder. Não por discordar, mas porque aprendera, com o tempo, que algumas ideias pedem silêncio antes de palavra.
Ela parou. Não de repente. Parou como quem precisa reposicionar o corpo para sustentar uma escuta mais profunda.
— Você acha que eu ignoro? — perguntou.
— Acho que, às vezes, chamamos de plenitude aquilo que ainda não foi confrontado.
A cidade, ao redor, continuava. Um mercado abria suas portas. Um homem varria a calçada com a mesma paciência de sempre. Um sino distante marcava a hora sem exigir atenção. A imagem do padre que os acompanhava durante todo percurso se desmanchava com o nascer do dia.
Ela respirou fundo.
— Talvez eu chame de plenitude o que ainda consigo amar, mesmo com falhas.
Ele sorriu, mas o sorriso trazia um peso novo.
Não houve detalhes. Não houve espetáculo. Houve apenas a percepção clara de uma disputa: alguém tentando se impor sobre outro, como se o espaço público lhe pertencesse por direito.
Ela sentiu o estômago contrair.
— É disso que você fala? — perguntou em voz baixa.
Ele assentiu.
— A cidade também é isso. Não só o que contemplamos, mas o que toleramos.
O casal não interveio diretamente. Alguém o fez. A situação se desfez sem alarde, mas não sem marcas invisíveis. O cotidiano retomou seu curso com uma rapidez quase indecente.
— O que mais dói — disse ela — é perceber que isso acontece porque muitos não sabem nomear o próprio medo.
— Ou porque nunca aprenderam a olhar o outro como existência completa — respondeu ele. — A ignorância também sofre. Mas, enquanto sofre, machuca.
O mar seguia ali, repetindo sua lição antiga: nenhuma permanência era estática. Nenhuma convivência era isenta de atrito.
Ela entrelaçou o braço ao dele.
— Talvez plenitude não seja harmonia — disse. — Talvez seja a disposição de não fingir que a cidade é só postal.
Ele concordou.
A pequena cidade litorânea, antiga e paciente, não oferecia respostas. Apenas espelhos. E ensinava, todos os dias, que caminhar juntos exigia mais do que amor: exigia coragem para ver, nomear e permanecer num mesmo espaço sagrado.
Gi Nascimento e Ana Balesca
De nosso diário de bordo, 28 de dezembro de 2025