Entre cidades visíveis e invisíveis, seguimos juntos
Das amizades que permaneciam para Gi, as amizades de longa data ficavam a bater à porta da memória como se fios ligassem sua personalidade a quem ele tinha por pessoa amiga, sendo algo dirigido a um destino que ele descreveria de modo parceiro, tal qual uma história com uma identidade própria, ainda que transformada pelo tempo percorrido daquela relação.
Na rodoviária de Despedida, Ana havia permanecido como um gesto suspenso: um gesto que espera realizar algo que ficou paralisado no ar enquanto, por outro lado, Gi tinha o movimento de embarcar no ônibus como um corpo já em trânsito, embora sua alma ainda olhasse para trás, sabendo, essa, que toda aquela despedida não acabava no aceno a quem ficava, e não feito, mas se prolongava na consciência de que a presença ainda existia, se existindo junto.
Quando o motorista manobrou o ônibus para o início daquela viagem, também despertou o tempo que veio a se dobrar. O vidro da porta de embarque e desembarque do ônibus refletia o rosto de Gi por um instante e, nesse reflexo, a cidade de onde ele partia cedia lugar a outra: mais antiga, mais verde, e mais fria.
Embarcava ele, quando mais jovem, em um ônibus fretado a uma excursão, desses que não prometiam apenas destino, mas uma convivência com pessoas que, daquela vez, eram-lhe recém conhecidas. E, enquanto Gi se aproximava de sua poltrona indicada no bilhete que levava à mão, uma lembrança daquele passado, em que também embarcava em um ônibus, o acompanhou até que ele alcançasse o assento indicado, reconhecendo ele, em ambos momentos, o mesmo instante em que ele se percebia ao lado de uma nova pessoa. A diferença, no entanto, existia, porque ao contrário da partida da Cidade de Despedida, o ônibus de sua juventude tinha destino e retorno, como esclarecido pela pessoa que lhe veio a fazer o convite à excursão, alguém que orbitava um círculo amplo de amizades, e que era capaz de reunir, somar, convencer um público jovem e diversificado a viajar para uma festa típica. No caso dela, era-lhe preciso fechar um número mínimo de interessados à excursão, era o que se dizia alguns dias antes da partida, como se a festa de todos dependesse não apenas da tradição da serra em receber turistas, mas de uma decisão coletiva que envolvia partir. E partiram.
Depois de se despedir de Ana, então, Gi passou pelo corredor do ônibus como quem refazia um rito até a poltrona indicada no bilhete à mão. Cada passo em direção ao assento era também um passo para dentro da lembrança daquele momento antigo: o de se sentar novamente ao lado de alguém; uma pessoa que, com uma serenidade inesperada, não lhe fazia objeção quanto à companhia que ele representava ao ocupar uma poltrona ao lado, como se amizades nascessem assim: não no destino, mas de um trajeto de ida e de volta; não de permanências, mas na coragem inicial de aceitar alguém que se compreenderia em uma mesma viagem, estando ao lado.
E de alguma forma, no passado, a gentileza da pessoa, que já estava sentada em uma poltrona, a do corredor, era uma demonstração, ao Gi do futuro, de que a juventude tinha mérito ao viver a vida com certa liberdade e algum respeito às diferenças que as pessoas viviam ao se compreenderem simplesmente. Ao jovem que já ocupava uma poltrona, Gi se apresentou, ocupando a poltrona ao lado, junto à janela, para, em seguida, o cumprimentar com um aperto de mão informal de quem soma forças, algo que levou Rafiq a se apresentar de maneira, também, amistosa.
Embarcados no ônibus de excursão, a maioria dos jovens passageiros já fazia parte de algum grupo de amigos que havia se organizado à viagem. Talvez cinco ou seis pessoas não fizessem parte daqueles grupos de turistas de festas anuais típicas, para muitos dos quais não se tratava de uma primeira viagem, e dentre as pessoas sozinhas e convidadas de última hora, estavam Rafiq e Gi, fato que, então, os colocava numa condição comum quanto as demais pessoas da excursão, por mais que diferenças econômicas e culturais lhes distinguissem os comportamentos no geral.
Mas embarcado no ônibus de linha a uma outra viagem, muitos anos depois, o desconhecido que se sentava, então à janela, poderia ser Rafiq envelhecido, embora não o fosse. Os mesmos aspectos de quem tinha tranquilidade em lidar com as diferenças existiam entre eles, porém a distância entre os eventos implicava em se conhecer pessoas com uma polidez de um cuidado mínimo. Rafiq fora polido em lidar com alguém que viajava de excursão pela primeira vez, ao menos daquela forma. Para Gi, tanto Rafiq, no passado, quanto o homem no ônibus, pareciam observar a natureza humana, tendo eles em comum essa cautela implícita e relacionada aos destinos que se encontravam por aparente acaso. Talvez, por isso, Gi recordaria deles ao que o mundo, que ele entendia se perceber, se misturava às palavras, não de maneira que precisassem ser lidas em uma página escrita, mas na ideia de uma presença futura de uma amizade que nascia ali sem qualquer pretensão além do próprio momento de amizade que viviam.
— Você também veio pela curiosidade de conhecer a festa em si? — perguntou Rafiq, com um sorriso que parecia já ensaiado para quebrar silêncios feitos de estrada.
Gi ajeitou a mochila entre os pés, como se desse a ela a função de âncora, e respondeu depois de um breve olhar pela janela, onde a cidade começava a se desfazer em postes e luzes espaçadas.
— Acho que vim pelo que acontece antes da festa — disse. — O caminho, as conversas, essa sensação de que por alguns dias a gente pode ser outra versão de si mesmo… Isso me interessa. E você?
Rafiq riu baixo, um riso jovem, sem peso, desses que não precisam se explicar, imberbe.
— Eu vim porque disseram que lá o frio obriga as pessoas a ficarem mais próximas — disse ele como se em tom de piada. — E porque, sinceramente, eu precisava de uma história nova para contar quando voltasse. Em casa, tudo anda muito igual.
O ônibus ganhou velocidade, e o som do motor passou a servir de fundo contínuo para aquela conversa, ainda tateante. Gi percebeu que havia algo reconfortante na maneira como Rafiq falava, como se cada frase fosse um convite simples, sem expectativa de resposta perfeita.
— Dizem que a festa dura a noite inteira — continuou Rafiq. — Música típica misturada com coisas que ninguém admite gostar… bebida quente para enganar o frio, fogueiras improvisadas entre as barracas e estantes de shows… Mas o que me disseram mesmo é que é divertido.
— Eu não tinha, ainda, viajado assim, com um grupo tão grande. Sempre fui o amigo de alguém, de poucas pessoas, e dessa vez, decidi viajar por mim mesmo — comentou Gi.
Houve um silêncio breve, dos não constrangedores, apenas dos que organizam pensamentos. Do lado de fora, a estrada se estreitava, e o ar parecia mudar de densidade, como se anunciasse a serra que os esperava.
— O que você espera encontrar lá? — perguntou Gi, quebrando o intervalo entre um tempo e outro, encontrando o estranho sentado na poltrona ao lado e junto à janela.
— Eu espero lembrar como é ir embora de um lugar e chegar a outro sem qualquer garantia. Quando a gente é jovem, isso vem quase automático. Depois, nada fica facilitado para se partir, o que exige mais coragem do que costume.
Gi assentiu como quem reconhecia algo que ainda não tinha vivido, tanto quanto no tempo de Rafiq havia pressentido o que viria a viver ao lado de Ana à despedida na rodoviária.
O ônibus de excursão avançava pelo dia, levando consigo aquelas expectativas ainda frágeis, mas já compartilhadas. E Gi soube, durante a viagem, que independentemente da festa de que fizessem parte, da música ou do retorno prometido, aquela conversa tranquila, de experiências da idade, já se tornava um evento ímpar por conta daquilo que, anos depois, Gi chamaria de juventude: juventude não como ideia de idade, mas como ideia de uma coragem de sentar ao lado de um desconhecido e acreditar que dali poderia nascer uma história.
Conversaram por quase todo o trajeto, como se o ônibus do presente e do passado tivessem sido desenhados para aquele encontro específico, avançando entre campões verdes e curvas frias onde o ar parecia morder o rosto.
Ambos chegaram à cidade invisível — aquela que só existia plenamente para quem a alcançava acompanhado. Depois, a vida de cada um seguiu um caminho diferente. Ainda assim, aquela amizade permaneceu, mesmo atravessando anos já distantes, sustentada por uma espécie de fidelidade silenciosa que o tempo não apaga, só rarefaz.
Gi Nascimento e Ana Balesca
De nosso diário de bordo, 03 de janeiro de 2026
Cidades Invisíveis – De nosso diário de bordo
Sinopse
Gi Nascimento viaja em um ônibus que percorre cidades que só existem quando percebidas com atenção e presença. Cada parada não é um destino no mapa, mas uma cidade invisível — feita de memórias, silêncios, expectativas e encontros que resistem a descrições convencionais. No fundo desse percurso, Gi reencontra Ana, cuja presença é menos uma personagem fixa e mais uma escuta atenta da experiência humana, aquilo que transforma paisagens em lugares vividos.
Na segunda parte de sua jornada, caminhando por uma comunidade à beira da água, Gi e Ana testemunham rituais cotidianos — orações silenciosas feitas de gestos, paciência e pequenos encontros no cais, na mesa do restaurante e na procissão de navegadores. Ali, descobrem que a verdadeira “cidade natalina definitiva” não é um lugar físico, mas um estado de espírito compartilhado: uma construção de presença, relação e criação, onde o amor, a espera e a atenção tornam-se caminhos de sentido.
Em sua última semana de divulgação, Gi estará em uma viagem pelas cidades invisíveis, encontrando, no caminho, personagens que se dispõem a compartilhar com ele a amizade sincera dos anos passados, do momento presente ao futuro,
Acompanhe a Série Cidades Invisíveis – De nosso diário de bordo
1) O ônibus à cidade natalina definitiva
Gi embarca num ônibus singular que atravessa “cidades invisíveis” — lugares não mapeáveis, apenas percebidos por quem os habita com atenção e silêncio. Ele encontra fragmentos de humanidade nos passageiros e descobre que a viagem é menos sobre destino do que sobre consciência. Em uma dessas cidades, reencontra Ana, que lhe ensina que algumas cidades não devem ser escritas, apenas percebidas
O ônibus à cidade natalina definitiva
2) As cidades e as orações
Já juntos numa pequena cidade litorânea, Gi e Ana experimentam o cotidiano como uma oração sem palavras — os gestos simples, o silêncio e a atenção que transformam passos em preces visíveis. É aí que Ana revela que está grávida, dando dimensão de criação, continuidade e movimento ao sentido de suas jornadas.
As cidades e as orações
3) A cidade aprende a caminhar
A cidade em que estão não se revela de uma vez, mas em ritmos e nuances que exigem calma. Gi percebe que não se trata apenas de chegar, mas de nascer em cada lugar, aprendendo a caminhar junto à cidade — sentindo a presença humana, o tempo acumulado e as maneiras como comunidades se sustentam em atenção mútua.
A cidade aprende a caminhar
4) A cidade desperta
Nesta cidade antiga, as contradições da vida — convivência, dor, ignorância e conexão — emergem na forma de conflitos silenciosos. Gi e Ana percebem que amar um lugar (e ao outro) é aceitar o que há de imperfeito e reconhecer que plenitude não é harmonia, mas convivência sustentada.
A cidade desperta
5) A rodoviária de Despedida
Ao se despedirem da cidade litorânea, Gi e Ana vivem o último momento juntos na rodoviária — espaço que não representa destinos, mas modos de despedida. Eles compreendem que algumas partidas não rompem, apenas transformam a presença em memória e atenção continuada que não precisa ser visível.
A rodoviária de Despedida