Entre cidades visíveis e invisíveis, seguimos juntos
Gi deixou o bar em que havia encontrado seu amigo músico, sentindo-se entusiasmado pela vida noturna das cidades musicais. Nelas existia um ritmo dançante que o levava a acreditar numa atmosfera urbana dinâmica, onde a narração criada por celebridades e por fãs anônimos presentes em meio a uma multidão, cruzava a vida do público que, diante de bares e casas noturnas espalhados por quarteirões, se deixava se envolver pelos gestos, ainda que fotografados, pelos passos no mesmo lugar, ainda que filmados, pelo gingado do corpo em uma festa aberta à interação de pessoas com tão distintos estilos musicais, instrumentos a soarem nas ruas em que Gi caminhava sozinho. Era uma noite de muitas luzes, de um sorrir com simpatia, ainda que fosse uma noite feita de sorrisos ébrios e de olhos brilhantes. Para Gi, era essa uma vivência mediada pelo contato sem compromisso à escolha de um ícone para uma interação. Mas, também para ele, era uma noite onde a busca por um motivo pra estar feliz se tornava, sim, um atestado da falta de algo que o levasse a caminhar sem aparente pressa na calçada, enquanto os bares se mostravam cheios e animados, embora nada lá o levasse à interação, porque nada lá teria alguma continuidade, nada teria um amanhã e, sem que ele estivesse consciente, algo lhe dizia de maneira honesta que ele não permaneceria ali.
Foi por isso que Gi, no íntimo, não se surpreendeu quando a cidade com todas as suas luzes, sons e movimentos dentro da noite, simplesmente se apagou. Ele pensou: o que essas cidades escondem deliberadamente?
Quando as luzes cessaram nos postes, nos prédios, nas casas e nas praças, Gi percebeu algo que antes o barulho escondia: a cidade não havia desaparecido, apenas retirara os convites.
Sem vitrines, sem música, sem rostos iluminados pelo desejo de serem vistos, os corpos tornaram-se contornos opacos. As pessoas ainda estavam ali, mas não se ofereciam à realidade. As pessoas caminhavam como quem protege um resto de si.
Foi em meio à escuridão e aos celulares ligados como fracas lanternas a indicar rastros de passagens para outros espaços, que Gi chegou a uma esquina onde um poste de luz apagado sustentava duas placas. A primeira, apesar do escuro, Gi conseguiu ler: “Permaneça aqui, nada exige de você um gesto imediato.” Mas a segunda placa, a que estava voltada para o lado oposto da rua, Gi não conseguia distinguir qualquer palavra. Aproximou-se, mudou o ângulo, esperou que os olhos se ajustassem. Nada. Sem aparelho celular com bateria carregada para que ele iluminasse a placa, a situação exigia um maior esforço. A placa poderia indicar para onde ele deveria seguir ou mesmo podia conter um pedido por ajuda, ou apenas tratasse a respeito de uma localização em que ele deveria se encontrar, porque Gi tentava entender o que se passava, até que um esbarrão o levou a considerar que ele se encontrava mais imerso na escuridão da noite do que conseguia supôr ao tentar enxergar a placa.
Pela experiência, Gi sabia que um ônibus estaria parado em um ponto não muito distante de onde se encontrava, um ônibus que partiria em breve. No entanto, não conseguia compreender qual direção seria a correta naquele sentido. Ao mesmo tempo, ele compreendeu que alguém havia esbarrado nele pelo pedido de desculpa que ele veio a ouvir de um ponto próximo a uma presença sem consistência de quem lhe dizia lamentar o esbarrão com uma voz masculina. Essa pessoa não tinha um aparelho celular nas mãos para guiá-la, mas, com certeza, se guiava no escuro lançando algo à sua frente e tateando, com o objeto, no ambiente, os impedimentos e obstáculos que poderia encontrar em seu caminho.
— Uma informação, pedia ele, estando próximo ao Gi que, por instinto, recuou um passo para trás de onde estava.
A cidade fora apagada sem aviso, sem gritos ou correria. Só havia uma sensação de que as ruas perdiam seus nomes em postes não iluminados. Gi reparava que ambos, às cegas, se orientavam pelo som, por uma escuta de uma necessidade prática importante, a de uma confiança mútua para um próximo movimento, o que era uma condição prévia para que permanecessem ouvindo um ao outro. Ele lhe perguntou:
— Estou em um ponto de ônibus?
— Ônibus? retrucou-lhe Gi para compreender melhor o que se passava.
— Sim, costuma passar um em algum lugar por aqui… Mas eu não tenho certeza.
Gi observou que o homem se aproximava dele, curvando-se um pouco para frente de si mesmo, tentando ouvir no escuro uma resposta que Gi não sabia se tinha, por mais que olhasse em torno.
— Desculpe, não estou te ouvindo, você está aí?
A resposta foi um pouco insegura da parte de Gi:
— Eu não posso dizer que um ônibus passe aqui, está muito escuro, pode ser em outra rua…
— Escuro? Não imaginei que estivesse escuro, mas, se você não se importar, podemos caminhar a algum lugar onde um ônibus talvez apareça — disse o homem.
Gi o ouviu com um pensamento solto a respeito de onde estavam, toda placa que buscava o deixava em um ponto cego. Percebeu que o homem se inquietava com o silêncio dele ao ouvir a sola de sapato que o homem calçava bater contra a calçada da mesma maneira que a ponta de um provável bastão riscava o chão.
Não lhe parecia ter uma escolha a respeito da companhia, não a buscava daquela forma e nem havia algo que lhe afirmasse que encontrariam algum destino com isso, talvez fosse uma causalidade, um evento circunstancial abrigado no toque do sujeito ao que esse lhe indicava que ele tomasse seu antebraço no escuro depois de se aproximar dele. O homem se orientava ao que encontrava uma resistência em seu caminhar — o corpo de Gi.
Os vagalumes de lanternas de celulares distantes não se aproximavam deles. Com isso, ambos andaram alguns passos pela calçada, tendo o toque do bastão como referência junto ao meio fio.
Não havia uma condução autoritária — existia um ajuste contínuo entre os dois. O homem lhe avisava: “aqui tem um degrau”; e Gi precisava antecipar a ideia de que um obstáculo poderia privá-lo do equilíbrio em que ambos se adiantavam às escuras. O homem, em silêncio, demonstrava escutar atentamente o ritmo de seus passos, observando se sua companhia acelerava ou resistia à ideia de um passo à frente, porque, afinal, não ver não lhe dizia de uma ausência de um mundo, mas de um excesso de incerteza. A cidade apagada não pedia visão. Ela pedia presença partilhada nessa incerteza onde não havia hierarquia — só coordenação precária.
Gi sentia dificuldade de se orientar e o homem percebia o excesso de expectativa nesse sentido. Algo o incomodava, talvez o som do bastão quicando contra o chão do calçamento, talvez a conclusão de que as cidades invisíveis não entregavam o que prometiam.
Eles avançaram devagar, como se a calçada tivesse perdido a obrigação de conduzir. O homem não apressava o passo; testava o chão antes de cada movimento, deixando que o som do bastão voltasse a ele como uma confirmação provisória. Gi percebeu que, sempre que hesitava, o outro também suspendia o gesto, como se aguardasse um acordo silencioso que não precisava ser formulado.
— Costuma ter um desnível mais à frente — disse o homem, não como aviso definitivo, mas como quem compartilha uma lembrança imperfeita.
Gi sentiu o peso dessa forma de orientar: não havia comando, apenas a indicação de que algo poderia mudar sob os pés. Ajustou o corpo, sentiu o degrau baixo, quase inexistente, e seguiu. O homem pareceu captar o movimento pelo deslocamento do ar, pela alteração mínima no ritmo da respiração de Gi, e então retomou o passo, sem agradecer, sem confirmar — como se aquilo já estivesse incluído na caminhada.
O escuro, aos poucos, deixou de ser apenas ausência de luz e passou a ter textura. Gi começou a distinguir espaços pelo eco dos passos, pela abertura ou fechamento do som. Em determinado ponto, percebeu que a rua se alargava. O homem também percebeu, pois reduziu a frequência do toque do bastão, como quem tenta escutar algo mais distante.
— Aqui… — murmurou ele — costuma ser mais aberto.
Não disse “chegamos”. Não disse “é aqui”. Apenas deixou a frase suspensa, oferecendo-a como hipótese.
Foi então que Gi notou uma massa imóvel à frente. Um volume escuro contra um fundo ainda mais escuro. Não havia luz alguma, mas o ar parecia diferente, mais parado. O cheiro de óleo e poeira denunciava algo que não se movia.
— Acho que… — Gi começou, sem completar.
O homem estendeu levemente o bastão, tocando o metal com um som oco, inconfundível. Não sorriu. Apenas assentiu com a cabeça, como quem confirma algo que já não precisava ser dito.
O ônibus aguardava com os faróis desligados. Não havia motorista visível, nem vozes chamando, nem sinais de pressa. Apenas a presença silenciosa de algo que poderia partir — ou não.
O homem soltou o antebraço de Gi sem cerimônia.
— Daqui em diante, não sei — disse, simples. — Costuma ser assim.
Gi permaneceu onde estava. Não por decisão clara, nem por cálculo. Ficou porque, naquele ponto da cidade apagada, ninguém lhe pedia movimento algum.
O ônibus estava lá, parado, com as portas abertas, como se esperasse por alguém que já não vinha.
Gi pensou em subir, em ir, mas percebeu que partir, daquela vez, não o levaria para fora — apenas o afastaria do que começava a pesar. Ficou, não em razão de sentir alguma coragem, nem por uma escolha clara. Ficou porque a cidade, no escuro, parecia pedir que alguém permanecesse ali tempo suficiente para que algumas coisas não fossem vistas da mesma maneira, já não sendo mais possível para ele partir sem saber a razão, assim como não lhe era mais possível confundir convivência com vínculo.
Gi Nascimento e Ana Balesca
De nosso diário de bordo, 07 de janeiro de 2026.
Cidades Invisíveis – De nosso diário de bordo
Sinopse
Gi Nascimento viaja em um ônibus que percorre cidades que só existem quando percebidas com atenção e presença. Cada parada não é um destino no mapa, mas uma cidade invisível — feita de memórias, silêncios, expectativas e encontros que resistem a descrições convencionais. No fundo desse percurso, Gi reencontra Ana, cuja presença é menos uma personagem fixa e mais uma escuta atenta da experiência humana, aquilo que transforma paisagens em lugares vividos.
Na segunda parte de sua jornada, caminhando por uma comunidade à beira da água, Gi e Ana testemunham rituais cotidianos — orações silenciosas feitas de gestos, paciência e pequenos encontros no cais, na mesa do restaurante e na procissão de navegadores. Ali, descobrem que a verdadeira “cidade natalina definitiva” não é um lugar físico, mas um estado de espírito compartilhado: uma construção de presença, relação e criação, onde o amor, a espera e a atenção tornam-se caminhos de sentido.
Em sua última semana de divulgação, Gi estará em uma viagem pelas cidades invisíveis, encontrando, no caminho, personagens que se dispõem a compartilhar com ele a amizade sincera dos anos passados, do momento presente ao futuro,
Acompanhe a Série Cidades Invisíveis – De nosso diário de bordo
1) O ônibus à cidade natalina definitiva
Gi embarca num ônibus singular que atravessa “cidades invisíveis” — lugares não mapeáveis, apenas percebidos por quem os habita com atenção e silêncio. Ele encontra fragmentos de humanidade nos passageiros e descobre que a viagem é menos sobre destino do que sobre consciência. Em uma dessas cidades, reencontra Ana, que lhe ensina que algumas cidades não devem ser escritas, apenas percebidas
O ônibus à cidade natalina definitiva
2) As cidades e as orações
Já juntos numa pequena cidade litorânea, Gi e Ana experimentam o cotidiano como uma oração sem palavras — os gestos simples, o silêncio e a atenção que transformam passos em preces visíveis. É aí que Ana revela que está grávida, dando dimensão de criação, continuidade e movimento ao sentido de suas jornadas.
As cidades e as orações
3) A cidade aprende a caminhar
A cidade em que estão não se revela de uma vez, mas em ritmos e nuances que exigem calma. Gi percebe que não se trata apenas de chegar, mas de nascer em cada lugar, aprendendo a caminhar junto à cidade — sentindo a presença humana, o tempo acumulado e as maneiras como comunidades se sustentam em atenção mútua.
A cidade aprende a caminhar
4) A cidade desperta
Nesta cidade antiga, as contradições da vida — convivência, dor, ignorância e conexão — emergem na forma de conflitos silenciosos. Gi e Ana percebem que amar um lugar (e ao outro) é aceitar o que há de imperfeito e reconhecer que plenitude não é harmonia, mas convivência sustentada.
A cidade desperta
5) A rodoviária de Despedida
Ao se despedirem da cidade litorânea, Gi e Ana vivem o último momento juntos na rodoviária — espaço que não representa destinos, mas modos de despedida. Eles compreendem que algumas partidas não rompem, apenas transformam a presença em memória e atenção continuada que não precisa ser visível.
A rodoviária de Despedida