Registro 09 – Segundo diálogo entre Órif e Gi Nascimento

Registro 09 — Segundo diálogo entre Órif e Gi Nascimento

Desci do ônibus duas paradas antes do destino. Não por estratégia — houve um pequeno deslocamento interno, como se o trajeto precisasse de uma dobra.

A calçada estava irregular, com remendos de concreto que denunciavam tentativas sucessivas de correção. Havia uma banca de frutas logo adiante, no recuo da rua, com frutas e verduras que não se impunham pela variedade, mas pela insistência em permanecer disponíveis a quem tivesse o valor a pagar pelo alimento.

Parei sem motivo explícito.

Uma senhora escolhia bananas com certo cuidado, como quem não seleciona apenas frutas, mas dias possíveis. Ao lado, um rapaz conferia moedas na mão, repetindo a contagem em silêncio, como se esperasse que o número se ajustasse à necessidade. Não tinha ele pix ou conta bancária com crédito.

Órif já estava ali.

Não chegou, não se apresentou, apenas se fez percebido no modo como a cena deixou de ser dispersa. Encostado discretamente na lateral da banca, ele segurava algo pequeno entre os dedos. Não identifiquei de imediato. Talvez um papel dobrado, talvez uma pedra lisa.

Não olhava diretamente para ninguém, mas também não estava ausente.

A senhora hesitou diante de um cacho. Tocou, afastou, voltou a tocar. O rapaz, ao lado, interrompeu a contagem por um instante, não por ter resolvido o cálculo, mas por ter notado o gesto dela.

Houve ali um intervalo.

Órif mudou o peso do corpo de um pé ao outro. Um movimento mínimo, quase irrelevante, mas suficiente para sustentar aquele silêncio sem pressa. Como se impedisse que a cena se resolvesse rápido demais.

O rapaz, então, estendeu duas moedas a mais do que havia separado inicialmente. Não olhou para a senhora ao fazer isso. Apenas as colocou sobre a banca, junto às bananas que ela ainda não tinha decidido levar.

A senhora percebeu. Não agradeceu. Também não recusou.

Apenas concluiu a escolha.

O feirante, que até então observava com distância prática, organizou as frutas numa sacola e a entregou sem alterar o valor anunciado.

Nenhuma negociação foi formalizada.

Ainda assim, algo havia sido ajustado.

Olhei para Órif. O pequeno objeto agora estava guardado. Ou talvez nunca tenha estado à mostra de fato. Sua atenção permanecia na cena, mas já sem a mesma tensão de antes.

Como se o ponto necessário tivesse sido alcançado.

Seguimos caminho — não juntos exatamente, mas na mesma direção.

Depois de alguns passos, ele disse, sem me olhar:

— Às vezes, o que falta não é recurso, é autorização para que o gesto aconteça.

Não respondi.

A frase não pedia continuidade.

Mais adiante, uma buzina curta rompeu o fluxo contínuo da rua. Um carro reduziu antes da esquina, outro avançou sem pressa. Um terceiro aguardou meio segundo além do necessário — ou aquém, não saberia dizer.

Ajustes mínimos.

Percebi que carregava ainda o ritmo da banca: a hesitação da senhora, a pausa do rapaz, o quase-movimento de Órif. Algo daquele intervalo permanecia operando, agora diluído no tráfego.

Paramos diante da encruzilhada.

— Observa — pedi.

Não havia nada de extraordinário, exceto pelo fato de que tudo funcionava.

Órif comentou:

— Quando tudo funciona, algo está sendo obedecido.

Concordei:

— Sim. E o curioso é que ninguém ali parece estar pensando sobre isso. Os carros avançam, cedem a mão, contornam. Não tem acordo visível, mas existe acordo.

Órif, então, disse:

— Há sempre um acordo. Mesmo quando ele não é firmado, ele é operado.

— Tenho a impressão de que leis não estão escritas em placas. Há algo mais elementar… como se os corpos soubessem.

Órif sorriu, como se desse sequência a algo já em curso:

— Sim, e sabem, porque dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar, não?

— Exato. Mas isso, dito assim, parece física. Ali, naquela esquina, é outra coisa — é decisão em movimento.

Órif assumiu uma postura mais crítica, ainda que de muito bom humor:

— A física é uma das formas que a decisão assume quando não pode ser negociada.

— Isso explica o que precisa de cuidado, essa hesitação em certos momentos. Como se cada avanço fosse uma aposta de que o outro vai ceder, ao encontrar seu próprio caminho, seu movimento consciente.

— Ou de que o outro vai manter o curso da previsibilidade.

— E ainda assim, ninguém ali tem controle do todo — comentei.

Órif caminhava agora em um passo mais contido:

— Todo poder eficaz tende a desaparecer naquilo que organiza. Como a própria encruzilhada que você observou. O fluxo exige isso, porque toda liberdade é operativa na decisão.

— E quem organiza esses fluxos… exerce esse tipo de poder invisível, não?

— Sempre.

— Então a encruzilhada não é só um ponto de passagem. É um ponto de decisão contínua. Mesmo quando ninguém percebe que está decidindo.

Órif sorriu outra vez.

Gi Nascimento

De nosso diário de bordo, 02 de abril de 2026.

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