Na outra margem de Estlan
Com curiosidade um sujeito entrou na lanchonete. Não usava as roupas da última moda da parte nova da cidade. O que tinha ao corpo era uma jaqueta de couro que aberta ao peito, deixava surgir uma camisa de botões. Além disso, usava uma calça de algodão e calçava sapatos pretos. Contrastava. Helena o tinha num canto dos olhos.
Enquanto fumava seu cigarro, sentada em um banco de fibra de carbono azul que contornava a mesa de alumínio, Helena tentava se distrair com a tela de cristal líguido que estava ao centro da mesa, rente ao tampo metálico. Porém, a imagem do sujeito que havia entrado na lanchonete parecia ser mais intrigante que a imagem de um homemzinho dispersa pela tela de cristal líguido acima do nível da tampo da mesa. Essa pequena réplica de homem — homem estatueta — gesticulava muito com os braços e com as mãos. Sua voz artificial, dizia: “Venha para o REPROEX, e tenha a garantia de uma ótima reprogramação existencial com a qual, com certeza, você sempre desejou.” Depois, se seguiam algumas imagens que mostravam pessoas felizes com o produto da REPROEX. Essas diziam: “REPROEX mudou minha vida, agora tenho todos os meus desejos realizados pela reprogramação existencial REPROEX, uma ótima escolha!”
— “Reprogramação existêncial”, ufhg! — resmungou Helena pensativa.
O sujeito estava então junto a uma outra mesa que não distava muito daquela que Helena ocupava. Ela, ainda com o canto dos olhos e de modo sorrateiro, o mirava de vez em quando. De sua tela, surgiu a imagem da garçononete num macacão aparentemente de plástico negro. Apenas seu rosto extremamente branco e inexpressivo não estava sob o negro de sua roupa. Ela perguntou: “Mudar de canal?”
— Sim.
A garçonete voltou a perguntar: “Mudar de canal?”
— Sim, já disse — impacientou-se Helena soprando a fumaça de seu cigarro.
— Por favor — dizia a voz cibernética da garçonete — informe sua zona, seu código existencial, e o canal que deseja.
— 237/21222043. Canal 4020.
— Canal inexistente. Deseja criar tal entrada de canal?
— Não.
— Por favor, informe outro.
— Então escolha qualquer um!
— Por favor, informe outro canal — insistiu a garçonete.
Helena bufou irritada e depois disse com indiferença:
— 2303.
— Em contato. Deseja mais alguma coisa?
— Não.
— Contato realizado com sucesso: canal 2303, faixa 15, com a programação de código 237/21222043.
Seguiu-se um menu de alternativas. Helena selecionou a alternativa musical e logo a imagem de uma cantora lírica se apresentou sobre a mesa. A cantora lírica, vestida com o padrão grego-arcaico, quase não se movia, não gesticulava; era de uma imobilidade quase completa senão fossem as expressões de seu rosto moreno. Helena mal a ouvia. Estava por demais distraída com o sujeito que ocupava uma outra mesa.
Num certo momento Helena levantou-se. Tinha certeza de que aquele homem mal vestido para os padrões da cidade nova não podia ser um cidadão dela: ele embaraçava-se com o sistema de informações, não tinha familiaridade com os códigos e parecia pertubado com isso. Helena levantou-se. Caminhou de um modo cadenciado na direção do sujeito e parou bem próximo a ele. Como um sinal de boa vinda, recebeu ela do sujeito uma expressão desconcertada, até confusa. Ele apertava os lábios um contra o outro de modo a se deixar identificar por uma careta de leigo. Helena sentou-se à mesa dele. Ainda fumava seu cigarro, tendo-o entre os dedes finos e incolores. Apoiu-se ao encosto do banco e dessa forma acomodada, cruzou as pernas, não deixando de mirar em momento algum o sujeito a sua frente. O sujeito tinha no rosto um sorriso mal articulado. Era visível que havia no sorriso um constrangimento qualquer.
— Garçonete — disse Helena na direção do centro da mesa. O aparelho óptico se prontificou a desenvolver a imagem da garçonete acima do tampo da mesa. Quando essa imagem se cristalizou de maneira completa na garçonete, esta solicitou: “Informe zona e código existêncial”. Helena disse: — 237/21222043.
— Gerando entrada de pedidos, por favor aguarde — disse a garçonete imóvel e de cabeça baixa. Ao que voltou a se mover e erguer a cabeça, perguntou: — Cidadã Helena de Martre, qual o seu pedido?
— Um cinzeiro — disse Helena.
Ao centro da mesa, primeiro numa imagem fugidia, depois numa substância um tanto liqüifeita, foi se projetando um cinzeiro. Não muito depois, o cinzeiro estava como matéria rígida diante de Helena. Ela, por sua vez, o utilizou, batendo as cinzas de seu cigarro sobre ele. Nesse instante, ela perguntava ao sujeito:
— Você quer que eu peça alguma coisa pra você?
— Não sei... — titubeou o sujeito. — Estou com um pouco de fome, mas...
— Pode pedir o que desejar — informou Helena.
O sujeito hesitava, não convencido. Helena sugeriu:
— Quer um café? uma xícara de chá? uma cerveja?
— Um café seria bom — disse o sujeito indeciso.
— Garçonete — chamou Helena. — Uma xícara de café, por favor.
— Defina o tipo e qualidade, por favor.
— Argh! — resmungou Helena para, em seguida, comentar ao sujeito: — Aqui as coisas nunca são tão simples quanto dão a entender. Que tipo de café você quer?
— Não sei — disse o sujeito. — Não faço idéia do que se tem.
— Tudo o que você possa imaginar — disse Helena, soprando lentamente a fumaça de seu cigarro. Depois, dirigindo-se à garçonete, solicitou: — Por favor, menu.
Apareceu diante de ambos uma lista de opções de cafés, na qual não apenas constava tipo e qualidade de cafés de todo o mundo, como também constava os modos de preparo da bebida. Helena ia selecionando devagar e sempre depois de pedir confirmação ao sujeito que estava curiosamente de olhos fixos na imagem espectral ao centro da mesa.
— Café arábica?
Com um gesto, o sujeito confirmava.
— Mais tostado?
E se repetia o gesto do sujeito sem que de fato houvesse interesse nesse sentido.
— À moda francesa, irlandesa, egípcia, indiana ou simples?
— Dar pra misturar leite? — pediu ele quase humilde.
Helena sorriu e comentou:
— Está com saudade da média, não?
— Como? — retrucou o sujeito com súbita surpresa.
— Metade leite, metade café, a média — disse Helena com singulariedade.
— Sim, meio a meio, a média — confirmou o sujeito sentindo-se tão aliviado com o comentário de Helena quanto mais animado com a familiaridade que a frase de Helena lhe despertava em relação a origem de ambos: um mundo normal, definiu para si o sujeito.
Helena se prontificou a continuar selecionando as opções de modo a ter, como resultado final, a bebida que tanta ela quanto o sujeito já conheciam. Quando o café se materializou diante dela, Helena a empurrou com a mão livre na direção do sujeito.
— É seu — disse ela.
— E você? — interrogou ele ao puxar para si a xícara de café.
— Já bebi um quando estava na outra mesa — informou Helena.
Um pouco inseguro, o sujeito bebeu um primeiro gole de café ao suspender pela asa a xícara para os seus lábios. Em seguida, deixando de modo mais tranqüilo a xícara sobre o píres, perguntou:
— Você também é de fora?
— Sim — confirmou ela, apagando o cigarro no cinzeiro e se prontificando a tomar outro de sua bolsa. Ao ter um novo entre os dedos, o acendeu. Dizia: — Já faz algum tempo que cheguei aqui. Dois ou três meses, creio.
O sujeito a fitava com curiosidade. Helena prosseguiu:
— Poderia ter escolhido um outro lugar, uma outra cidade, mas... — E sorriu de modo sugestivo, quase que aborrecido, concluindo: — Não seria diferente.
O sujeito, meditativo, disse:
— Não sei se tive essa possibilidade de escolha; cheguei hoje, se bem que hoje não me parece ser o termo certo, porque nem sei se hoje é hoje.
— Entendo o que você quer dizer — disse Helena para em seguida, motivada por alguma curiosidade particular, perguntar: — Como você se chama?
— Cristian, Cristian Dorfe.
— Ah... — expressou Helena como se houvesse confirmado consigo algo muito particular. Depois, batendo as cinzas de seu cigarro no cinzeiro, apresentou-se: — Sou Helena de Martre — e lhe estendeu a mão desocupada.
Cristian recebeu aquela mão fina e doentia com um certo prazer, apertando-a de leve com a sua mão. Nesse instante, Helena o fitava nos olhos; tinha ela uma expressão aguda ao vislumbrar qualquer coisa na presença de Cristian.
— Você veio por causa de uma mulher, não foi? — disse ela ao que recolhia para si sua própria mão, deixando-a sobre sua perna cruzada.
— Sim — disse ele um pouco inquieto. — Como sabe?
— Lorena é nome dela, não? — ponderou Helena.
Cristian apoiou suas costas ao encosto do banco, sentindo-se de súbito atravessado por uma desconfiança. Helena, por sua vez, afirmou:
— Ela não está aqui — e virou o rosto na direção da rua e para além da vitrine da lanchonete. Depois de algum tempo no qual se fazia alheia à presença de Cristian, Helena lhe disse sem que se voltasse a ele: — Ela está do outro lado do rio. Era pra lá que eu iria se quissesse encontrar uma saída...
— Preciso encontrá-la porque...— principiou Cristian, mas Helena o deteve ao levar a ponta dos dedos de sua mão livre a boca dele, silenciando-a. Ela mirava-lhe nos olhos. Mordia o lábio inferior como se desejasse contar algo que não podia. Depois, ao recolher sua mão, se fez alheia, distraindo-se com a rua que avistava pela vitrine do bar. Enfim, bateu as cinzas do cigarro contra o cinzeiro e em seguida, sem muita motivação, disse:
— Não perca seu tempo com ela... Lorena não tem as respostas.
A afirmação era de uma mulher visivelmente abatida e solitária. Cristian, que havia percebido o tom com o qual Helena falara-lhe, se recompôs. Sabia que no íntimo Helena lhe pedia uma atenção especial, mesmo se fazendo indiferente à sua presença.
— Helena é o seu nome, não? — disse ele com uma inflexão no seu tom de voz, como se desejasse distrair Helena de algo que a consumia por dentro. Ao que ela respondeu a pergunta com um gesto vago, ele prosseguiu: — Lorena é uma pessoa que conheci num outro lugar. Não sei como vim parar aqui, mas sei que ela foi a responsável.
— Não precisa explicar — disse ela desatenta enquanto apagava seu cigarro no cinzeiro.
— Por que? — perguntou ele com estranhamento.
— Hum... Sua história, como a de Lorena ou a minha, se perde aqui. As histórias não são feitas para esse lado do rio. Você deve ir para o outro lado se procura nelas uma razão para estar aqui.
Helena esboçou um sorriso forçado no rosto, como se com ele determinasse um fim a conversa. Estava visivelmente desconfortável com alguma conclusão que agora não lhe dava consolo, mas ao contrário. Levantou-se, dizendo a Cristian de modo ameno:
— Boa sorte.
* * *
Estampava-se a doutrina oficial da cidade nova por todos os cantos, em todos os telões, e em todas expressões humanas. Ninguém que se soubesse consciente dela, a denunciava, pois para isso se faria necessário uma revolução estrutural da parte nova da cidade e de todos os que nela habitavam, o que era uma grande reinvenção dos espaços e das pessoas — algo então catastrófico. A doutrina, dispersa aos quatro cantos da cidade, se valia de individualidades atomizadas para se eternizar incólume por todos os tempos. Ao que se sabia, nenhum cidadão tinha uma história particular, pois todos, de modo geral, faziam parte de alguma programação existencial específica. Essa programação existêncial era determinada por função, capacidade motora e perceptiva, e “capacidade de abstração sócio-cultural”.
Helena, se desejasse, poderia escolher a reprogramação existencial de nível 7, o que a levaria a pensar o conjunto das funções sociais de modo a estabelecer entre elas uma relação de dependência — algo não muito árduo ou problemático. Se assim ela desejasse, estaria ela inclusa na zona 36, no centro financeiro, a partir da qual teria a responsabilidade de gerar códigos existencias mais complexos através da propaganda e da doutrina oficial. Poderia assim criar tanto hábitos quanto condicionar pensamentos de cidadães menos aptos a formulação programática de existência; poderia também e a partir disso, dar sentidos às existências funcionais, levando-as a crenças distintas e a argumentos diferenciados para o que significava “ser bom ou mau.” No entanto, Helena não desejava o poder que uma reprogramação existencial lhe conferiria, isso porque sua própria existência teria um sentido diverso daquele que ela, consciente, pensava em ter.
O caso era que Helena acreditava-se de passagem por aquele grande Leviatã sintético. Se estava, depois da separação, na zona 237, zona determinada aos funcionários de baixo escalão de uma multinacional, era porque entre pessoas autômatas, funcionais e descaracterizadas de personalidades, ela se sentia bem — como uma a mais no meio delas. Seu anonimato, desse modo, a tranqüilizava e a deixava mais livre para ir e vir, transitar entre as diferentes programações existências sem que com isso se encontrasse presa a elas, podendo “pensar” com mais liberdade.
Na tarde em que Helena havia conhecido Cristian Dorfe, uma tarde usual da parte nova da cidade, Helena se dava a pensamentos incomodos. Chegava a conclusão de que se tratava de um corpo estranho que transitava nas ruas e avenidas sem finalidade certa, algo extramente incomum numa cidade em que as pessoas conferiam seus relógios de pulso a todo momento para se certificarem de que suas existências estavam de acordo com a ordem da programação que lhes eram próprias. Ser um corpo estranho naquele corpo maior, talvez significasse um sentimento de ausência completa, de solidão erma e despida de voz. Com quem poderia Helena conversar a respeito disso? Ninguém. Sua programação existêncial era limidada. Tinha por meta cristalizar no cotidiano de Helena um tópico de significados sem quaisquer valores humanos: Helena trabalhava com números, com gráficos, com processos repetitivos de produção em massa. Era geranciadora de informações quase sempre inúteis, como as estetísticas de conformidade (quase sempre total), de segurança existêncial, etc. Ao que se despedira de Cristian e o deixara para trás, teve a certeza de que ele se perderia no meio dos números das avenidas e das ruas. Não teve, contudo, a idéia de ajudá-lo. Se ele desejava sair da parte nova da cidade, que saisse por conta própria.
Helena sabia que Cristian não entenderia a doutrina da parte nova da cidade, assim como não entenderia aquele deslizar de números aparemente incoerentes que a marcavam. Por outro lado, ela tinha o conhecimento de que Cristian representava um à parte, um corte na retilínia cadeia de programações existênciais, isso porque sua presença poderia deslocar alguma programação existêncial para uma posição menos cômoda. Nesse caso, o resultado era a auto-degeneração da programação existêncial contaminada e o suícidio em massa das pessoas que dela faziam parte de modo que o sistema como um todo se manteria firme. Ela, assim, não se preocupava. Conforme sua própria programação existêncial, Helena se encaminhava à zona 237, percorrendo a pé as avenidas 131 e 79, para então adentrar na rua 27.
Seu bloco residencial veio-lhe aos olhos quando passou a caminhar na rua 27. Era um bloco hermético, sem janelas ou portas que definessem algum traço de uma presença humana. Completamente estéril no que se refiria ao aspecto arquitetônico, o bloco erguia-se do chão como uma massa uniforme de cinza e concreto. Era uma caixa dentro da qual logo Helena entraria. Como ela, haviam outras inúmeras pessoas encaminhando-se para o mesmo bloco ou para outros ali perto. Se havia algo para além daquelas formas estanques e silênciosas, não se podia avistar.
Curiosamente ao que tocou no aparelho que sistematizava os espaços-dormitórios, Helena teve a impressão de ter ouvido o repicar de sinos, o que era algo impossível ali. Olhou em torno de si, com uma expectativa singular de rever uma igreja, a partir da qual o dobrar de sinos se dava. Não a encontrou. O som que imaginava ter ouvido, a remetia a um tempo diferente daquele em que Helena se encontrava: era o tempo em que caminhava por uma cidade estimulada por passos cadenciados, embora anônimos, estimulada por um frêmito de passagens, fugidias e extramente lúdicas. Era para essa paisagem que de súbito a memória de Helena se deslocou, pois em meio dela, ela lembrava-se do repicar dos sinos que dobravam ao final da tarde e no alto de uma torre de uma igreja que se encontrava junto a uma praça. Helena então recordava dos pombos sobrevoando o deslizar de passos anônimos das pessoas, como recordava a presença imprecisa de uma criança brincando de pular entre os degraus que levavam à porta da igreja. Essas imagens, por um gesto brusco dos pensamentos de Helena, foram de súbito apagadas de sua memória. Ao que ela se viu diante do corredor que terminava no seu dormitório, motivou-se a percorrê-lo sem que com isso diminuisse a sensação de que havia se esquecido de algo.
* * *
O cubo em que Helena entrava tinha em seu centro uma curiosa esfera luminosa. Essa esfera, em si, continha uma seqüência de imagens aparentemente apresentadas ao acaso. Foi a partir das imagens que Helena percebeu que não se encontrava só.
Helena havia percorrido o corredor que terminava em seu dormitório a passos lentos. Caminhara devagar, como se carregasse consigo a indiferença completa que aquele lugar lhe representava. Ao que passou ao espaço-cubo de seu dormitório, teve sua atenção voltada à esfera luminosa que quase sempre a recebia com imagens sem significado algum. Mas, daquela vez, era imagem de Lorena que a partir da esfera se fazia presente ao lado de Helena.
Lorena estava de pé, vestida com um macacão de couro negro. Seus cabelos caiam soltos em torno do seu rosto. Ao vislumbrá-la ao seu lado, Helena esboçou um acanhado sorriso de contetamento entre os lábios, dizendo:
— Ah, é você.
Em seguida, dirigindo-se à esfera, Helena pediu:
— Por favor, poltronas.
Uma voz cibernética retrucou:
— Qual o tipo desejado?
— Qualquer um... — disse Helena com cansaço.
— Informe o tipo desejado.
— Puta que o pariu! — exclamou Helena com raiva.
— Tipo inválido, deseja criar tal referência tipológica?
— Por favor, não! — disse Helena quase a suspender a mão para acertá-la contra a esfera luminosa. Se deteve, porém, e pediu: — Duas poltronas estilo Luis XV, estofadas no assento e no encosto.
— Processando informações correlatas... Definindo padrão, tipo, estilo e época. A programação é inválida. Por favor, entre com definições próprias a programação existêncial de sua categoria funcional.
— Poltrona 672, equivalente 251 — disse Helena sentindo-se vencida. — Duas, por favor.
— Processando...
Lorena, nesse instante, dizia à Helena:
— Você deveria ter escolhido a outra margem do rio.
— Por que? — retrucou Helena ao acender um cigarro.
— Saberia lidar melhor com a realidade de lá.
— Certamente que não, porque não lido bem com pessoas.
A voz cibernética concluia:
— Padrões aceitos. Deseja mais alguma coisa?
Helena bufou com ironia para depois comentar à Lorena:
— Se eu pedir qualquer coisa vai ser o inferno... — E dirigindo-se à esfera: — Não. Desligar o acesso ao sistema ao fim da última solicitação realizada, apenas isso.
Seguiu-se a materalização de duas poltronas de plástico e não muito mais tarde, a esfera luminosa se apagou. No interior do dormitório, restou uma claridade fugaz, quase que espectral.
Lorena e Helena ocuparam as poltronas que, lado a lado, foram materializadas ao centro do dormitório. Uma vez acomodadas, ambas as mulheres se detiveram num longo e estéril silêncio, esterilidade que se repetia nas paredes brancas do cubo.
— Esse lugar não é nem um pouco agradável — comentou Lorena por fim. — Por que você ainda fica aqui?
— Acho que porque ninguém me incomoda... Cada um fica num cubículo como esse, se distraindo com a esferevisiva e as imagens que ela nos dá.
— É triste — ponderou Lorena.
— Por que? Se tenho tudo o que eu preciso para viver?
Lorena resignou-se ao abaixar os olhos com uma expressão vazia. Até então, Helena jamais a havia visto daquele modo. Voltou atrás no que havia dito ao ponderar:
— Você tem razão, é triste e isso é a unica coisa humana que se tem por aqui, a tristeza que a vida evoca.
— Não... — disse Lorena ao erguer um pouco a cabeça. Fitava tranqüilamente os olhos de Helena quando prosseguiu: — A vida não evoca nem tristeza, nem alegria, nem qualquer coisa além dela mesma.
— Tenho certeza disso — satirizou Helena com uma risadinha febril e desencontrada no rosto. Depois, citou: — palavras de nosso “Guardador de Rebanhos”...
Calaram-se. Já não estavam tão íntimas embora estivessem próximas uma da outra. Já não compartilhavam as mesmas idéias: Helena contaminara-se com as programações existênciais, e nada se podia fazer por ela se assim ela não quissesse. Lorena levantou-se da poltrona e avisou:
— Tenho que ir...
Helena a encontrou com os olhos úmidos de lágrimas. Mordeu o lábio inferior, como se arrependida de algo. Tinha o cigarro entre os dedos quando, de súbito, arriscou-se a dizer que... Parou. Bateu as cinzas do cigarro com o dedo polegar e o tragou de leve. Uma angústia se precipitava contra seu rosto. Helena o balançava de um lado a outro como se procurasse por algo. Lorena havia partido e ela voltara a ficar só.