“Os dias frios, por aquela época, resistiam em longas nuvens cinzas que nasciam do mar e ficavam ancoradas à terra. Eram névoas que tomavam uma planície, um charco, um pântano como um bloco branco maciço e infindável. Não se via na estrada nada mais do que o asfalto negro sobre o qual o ônibus rodava. De dentro do veículo e pelas janelas embaçadas, a paisagem em torno desaparecia, ficando somente impressões vagas à par dos olhos. E o ônibus ruminava sem pressa enquanto a estrada como uma serpente tranqüila seguia sem retas. Ao único passageiro, parecia chover como se jamais houvesse existido um dia de sol: a silhueta de um árvore bem ao centro de um campo alagado (não se podia dizer, — se adivinhava) enquanto o tempo naquela região transcorria entre lufadas de brisas que trazia o cheiro do mar à planície (ora encontrando um morro, ora outro), e os vidros do ônibus alvejados com pequenas e persistentes gotas frias. Só o silêncio parecia ser real: o silêncio do cobrador em seu assento, um homem encolhido e pensativo, nem reparando no sujeito de sobretudo preto sentado à janela, limpando ele o vidro embaçado com a mão esquerda, mostrando-se ansioso por saber o quanto ainda faltava para chegar ao seu destino, algo além do silêncio do motorista de barriga avantajada em razão dos anos de ofício, (um quase piloto automático sob os cabelos grisalhos).

 

O silêncio permanecia como marca inerente às pessoas e à paisagem. Não havia como se desvencilhar dele quando Ivan desembarcou do ônibus: a chuva fina persistia e era ela o que apagava as fachadas de casas simples como uma borracha branca passada sobre as portas e janelas fechadas à medida que ele, Ivan, caminhava sobre o pavimento de pedras de que era feito a rua, desmaterializada por se fundir à névoa.

 

O sentimento de haver uma ausência generalizada de pessoas naquele lugar se repetia estranhamente, não se percebendo sinais de que alguém, em algum tempo, houvesse passado por ali. Era uma ausência pacífica, não humana. Uma ausência que Ivan parecia macular pelo sua caminhada em direção à praia que ele mesmo não conseguia enxergar, submersa que estava nas névoas que tomavam o fim da rua em que começava a enseada. Aquele seu ato humano, trivial, bípede e celerado, despertava um rangido característico de sapatos molhados sob a sola dos pés sem que outro som se ouvisse no ambiente além daquele que denunciava a presença de Ivan, cada vez menos imerso num sonho e mais diante de uma ilusão.

 

Era do bolso de seu sobretudo que Ivan tirava um cigarro para acender numa curta tragada com a chama de um isqueiro. Tinha parado nesse momento a procurar abrigo onde pudesse pensar no próximo passo quando, com as mãos curvadas a proteger a chama acesa do isqueiro, ouviu, além do cochichar da brisa fria entre seus dedos, também algumas palavras soltas: palavras infiéis do que o induziam a acreditar na aparição súbita de Lorena (ela, nascendo daquela branca parede a frente dele). Mas foi um engano.

 

Prestando uma atenção maior em sua ideia de buscar abrigo à chuva fina e intermitente, descobriu a origem das palavras que se ouvia em meio à névoa ao que avançou um pouco mais na direção do mar.

 

O fim da rua esperava-o com um declive curto que terminava na areia da praia. Antes que afundasse no barulho das ondas do mar quebrando à praia, Ivan encontrou, à esquerda de si, alguns homens.

 

Velhos pescadores conversavam sob um toldo fixado diante da entrada de um boteco. Ivan parou não muito distante deles. Eram pescadores que se aqueciam bebendo cachaça em copos virados à garganta num gesto único e num só gole de aguardente. Depois, mediam com um longo debruçar de seus olhos algo que somente eles podiam ver para além das névoas sobre o mar. E nesse meio tempo, de um deles ocorreu um olhar rápido à presença de Ivan não muito distante dali. Mas a Ivan, esse olhar não tinha aparência de conservar um intenção qualquer a seu respeito, talvez aquele homem nem realmente o visse presente, embora ele pudesse desconfiar disso.

 

Algo estranho vinha da direção da praia. Mais uma vez, o olhar do pescador se voltou a Ivan como se de um hábito antigo, desprovido de sentidos ou de quaisquer outras intenções senão a de tomar o estranho como quem fosse feito de outra realidade, talvez distraído que estava o pescador com os seus próprios pensamentos, quando seu olhar se somou a tantos outros olhares que, naquele instante seguinte, se concentraram contra a neblina sobre o oceano.

 

Existia uma expectativa ali, Ivan podia sentir. Alguma que ultrapassava a sua ansiedade de encontrar Lorena, de quem não sabia bem o endereço, mas com quem havia marcado naquele lugar, embora não com aquelas condições em que ele se encontrava.

 

Sob o toldo da fachada do boteco, partia um longo olhar dedicado dos pescadores ao mar ao mesmo tempo que eles dissipavam palavras soltas e vertiginosamente contrapostas ao barulho da rebentação das ondas na praia.

 

Era uma discussão sem calor que os cercava de um fato comum aos velhos tempos de pescaria: histórias de antigas embarcações que haviam se perdido em tardes como àquela, sem condições visibilidade e de navegação por causa da forte neblina que, consigo, trazia sinais à terra de embarcações perdidas à orla da praia. Eram indicações de um retorno temerário de vidas perdidas que voltavam a se preocupar com os vivos. Era uma plural  preocupação entre os velhos pescadores: durante um tempo essa preocupação estava esquiva no abaixar a cabeça e no se refletir solitariamente dentro de um outro momento. Era também uma piada que se fazia entre os vivos como se desprovida de sentido e de uma realidade própria que cabia naquele momento. Mas, de modo geral e por mais tempo, só haviam reticências permeadas de pensamentos que se dirigiam ao mar.

 

A figura truculenta de um homem surgiu à porta do boteco. Sua barba por fazer havia dias lhe dava um aspecto sombrio mais próximo de um comandante de um navio do que a de um velho pescador aposentado. E foi a partir dele que, de súbito, Ivan pressentiu que se tornava uma testemunha invisível de um tempo marcado por um arrastar profundamente orgânico, algo que o paralisava, conservando apenas os movimentos de sua respiração lenta em quase adormecimento.

 

O homem deu uns poucos passos, acertando com cautela suas botas de borracha rente ao piso. Ivan podia o ver quase a um passo de si. Ambos sob a proteção do toldo de lona azul que mais parecia preto de sujo e velho, trocaram um olhar de cautela. Para Ivan era um gigante que se detinha junto a um sino e que de súbito o fez compreender que se tratava de um desafio aquele de compreender o que as nuvens traziam ao se estenderem sobre o mar daquela forma, existindo uma tensão quase aguda no olhar recíproco entre suas pálpebras tensas. Era aquele o dono do bar que tomava na mão o barbante que pendia de um sino como quem tinha alcançado uma lâmina de uma navalha afiada: sua mão arcou-se devagar e fechou-se sutilmente em torno do barbante. Depois, em um gesto preciso que antecedeu em segundos o som do repique do sino sobre mar, o homem puxou o barbante uma única vez, do que foi uma longa sequência de sons em eco que se propagava, tendo-se uma única certeza, a de que oceano se abriria às águas sob aquelas névoas turvas que a tudo sucumbia, desaparecendo a própria terra sem que ficassem vestígios de tal civilização.

 

O que todos esperavam vinha do mar. Havia silêncio. Era agora somente uma brisa úmida fustigando os cabelos grisalhos daqueles homens que, paralisados como Ivan, absorviam o cansado quebrar das ondas à praia. Um golpear fraco a trote de um imenso cavalo de água na areia chegava ao fim se arrastando como espuma à beira do mar, quando, então, veio uma resposta incomum a todos pelo que era o som do sino como chamado da terra: ouviu-se um eco sobre as águas do mar, um som humano, gutural, mas pacífico em se prolongar em um “ôôôóóóô” como se encantado, um som vertendo-se das nuvens como se as nuvens o acolhesse de uma longa viagem.

 

Alguém, nesse momento, disse a Ivan:

        — Bem na hora…

 

Por um curto instante, Ivan se distraiu. Ao seu lado, uma pessoa havia se colocado sem que ele a percebesse chegar. Estava coberta por uma capa amarela, de capuz grande o suficiente à frente do rosto para cobrí-lo com sombras. Ivan levou o cigarro aceso aos lábios, tragou a fumaça uma última vez antes de o apagar sob a sola de seu sapato e se propor a acompanhar quem recém tinha chegado. Era Lorena. Com esse último sopro de fumaça, lembrou das águas em que, nesse instante, surgia uma pequena embarcação como se suspirada à realidade, trazendo à orla da praia o barulho monótono de seu motor de popa.

        — É bonito não... — disse Lorena. No seu tom de voz, — tão admirável quando queria ser pacífico, — podia-se, sem querer, tropeçar numa imagem inocente daquela mulher que escondia seu rosto sob a sombra do capuz, descobrindo-o ela apenas o suficiente para demonstrar seu sorriso enigmático de quem tinha a atenção de Ivan preso aos lábios grossos e largos em uma expressão pronta a inquietar-se.

        — É bonito, — repetiu ela diante do silêncio em que Ivan se encontrava, absorto que ele estava naqueles poucos segundos em que tudo havia acontecido. Com maior ênfase, ela pontuou: — tenha um pouco de cuidado com a beleza que é cruel quando mostra sua outra face.

        Lorena expôs a própria face e Ivan a encarou nos olhos, perguntando-se, em seus pensamentos, o que lhe viria daquela mulher a quem, então, arqueava a sobrancelha esquerda em sinal de interrogação, como se esperasse a sugestão que logo se pode ouvir de Lorena:

        — Podemos ir?

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