Na pequena varanda que antecedia a porta da casa, Lorena parou — estava entre dois pontos distintos: o primeiro, que era Ivan parado de pé sobre a areia da praia, e o segundo, que era a porta fechada de sua casa. Ao olhar a Ivan com seus olhos claros, Lorena via também, ao longe, para além dele, o mar calmo e imerso em brumas. Da direção contrária, junto à porta de entrada de sua casa, porém, lhe vinha um ar de dúvida, um jeito de pensar com maior seriedade, existindo uma menor contemplação nesse gesto, a tal ponto de fazer com que Ivan avaliasse mentalmente: “Talvez tenha mudado de ideia”, percebendo ele, por alto, uma reminiscência da parte dela, uma hesitação.
Mas ela lhe sorriu de modo enigmático e, com leve gesto de sua mão esquerda, o convidou a passar à varanda. Depois, abriu a porta, passando a uma antessala na qual ela, mais uma vez,repetiu o gesto de convidar Ivan a entrar, embora tudo se desse em silêncio.
Da capa que cobria Lorena a água da chuva escorria, molhando o piso de madeira do hall de entrada da casa.
Esse escorrer líquido das gotas que chegavam ao piso escuro parecia ter um significado próprio, revelado propositadamente, porque Lorena sorria como quem demonstrasse, através de seus lábios suspensos no nada, mais alguma coisa que lhes poderia acontecer, embora não por muito tempo, quando então fechou ela a porta atrás de Ivan assim que ele passou ao interior da casa.
Ele agora estava do lado de dentro da casa, de onde talvez não pudesse mais sair, ao menos não do mesmo jeito que havia ali entrado.
Lorena acercou-se do cabide atrás da porta e se despiu da capa. Deixou-se nua, porque era assim que estava antes de haver algo que a cobrisse, apenas calçando um par de botas de cano longo que logo tratou de tirar dos pés, também nus. E a nudez completa dela silenciava Ivan em seu olhar inquieto que, agora, entre ambos, existia: a troca de olhares acentuada por um indício qualquer dos motivos que levavam ambos a estarem ali, frente a frente. No entanto, e naturalmente, Lorena desviou sua atenção à sala para a qual o estreito corredor do hall de entrada se abria, avisando a quem lá estava:
— Helena, temos visita...
Disse num tom familiar, escapando da forma com que quase sempre Ivan se via tratado por ela: cercada Lorena das entrelinhas, de um tom ameno, ou distante da realidade em que ambos se encontravam. Mas disse ela dentro de uma habitualidade de convívio, como se, de súbito, fizesse ela parte de um dos mais ordinários eventos de um cotidiano, aquele que se fazia existir entre ela e a outra pessoa na sala presente. A repentina mudança daquele comportamento não tirava de Ivan o prazer que sentia de sua companhia, isso ocorria pela natureza que Lorena alimentava de fatos que Ivan cada vez mais se via personagem, instigando-se a um quase contínuo desejo pela presença dela.
Sedução. Se houvesse uma palavra para melhor definir o comportamento dela, de Lorena para ele, seria essa: sedução. Uma sedução inevitável de quem se sente atraído por forças incompreensíveis despertas de seu interior. Uma sedução que se fazia presente ao que Lorena caminhava tranquila até se chegar à sala como quem estivesse imersa em uma densa realidade preenchida pelo ondular da fumaça de incenso que, também tranquilo, queimava em um suporte colocado a um canto de uma pequena estante onde se encontravam alguns livros. Era uma sedução que se fazia dúbia ao que Lorena parava, de repente, à visita que era Ivan naquele ambiente, como quem fosse chamada apenas pelo olhar devorador com que seu corpo era então tomado pela visão dele. Há um sorriso nos lábios de Ivan, um riso malicioso e covarde: ele não dava um passo à frente, estando como se paralisado, inerte. Ele a desejava mas também a temia. Sabia que o relevo daquele corpo nu de Lorena não se resumia a um terreno firme como se dócil a um explorador, mas ao contrário, eram essas curvas de um “talvez” que poderia ou não se materializar como um “sim” enquanto a negativa daí só surgisse como pomo de uma discórdia, entre ambos, infundada, mas provocante. Ela era o mar em seu ir e vir. No entanto, havia alguém a mais ali. Logo, e quem sabe, o desfile de Lorena não tivesse por destino Ivan, mas talvez à Helena. Quem poderia ser? Ivan não lembrava de ouvir de Lorena alguém com aquele nome, mas agora era um nome que Lorena havia puxado de dentro de si de forma tão íntima, tão plástica quanto calma.
E de onde estava no corredor, Ivan não avistava quem Lorena havia chamado pelo nome. Procurou, sem sucesso, com os olhos essa terceira presença, sem contudo sair do lugar. Deu com os objetos e os móveis da casa como se esses fossem um preâmbulo para o que lhe viria. Enquanto se distraía de modo pouco convincente, viu de relance que sua anfitriã seguia a um quarto do outro lado da sala, lugar em que entrou e desapareceu. Ivan, observando uma pequena estatueta feita em marfim que se encontrava naquela estante de livros não muito longe dele, pensou, enquanto se aproximava dela, que talvez o ponto alto da sedução feminina fosse o prazer dessa fantasia antecipando o prazer da carne. E foi além, pois aquele objeto que representava uma mulher nua, de avantajada barriga e de grandes seios, o levava a crer numa figura de fertilidade feminina mais onírica do que física. A estatueta era uma reprodução da “Vénus de Willendorf” cuja peça original de cerca de 20000 anos atrás, foi encontrada na Áustria, em 1908, pelo arqueólogo Josef Szombathy. Seria a representação de antigos povos do período do Paleolítico da deusa venerada em razão da fertilidade que gerava às terras, aos animais, e às mulheres, mães de um matriarcado milenar. Lorena tinha uma representação de uma deusa em sua casa que, não por acaso, estava ali à entrada daquele seu mundo particular sem o qual a palavra “vida” parecia não ter muito significado. Eram ídolos de pedras e palavras de marfim.