A Cidade Dividida

A Cidade Dividida

Finalmente a um ponto da estrada Cristian conseguia distinguir o que lhe parecia ser um posto de gasolina. Talvez estivesse a uns duzentos ou trezentos metros à sua frente. Fosse qual fosse a distância em que se encontrava, o provável posto de gasolina tinha apenas como forma a silhueta escura de um telhado reto, abaixo do qual a penumbra que havia em torno se materializava como escuridão completa. Caminhando naquela direção, Cristian antevia na escuridão do lugar um sinal de que, caso fosse de fato um posto de gasolina, não estivesse funcionando. Acelerou os passos, já sentindo-se encomodado com a roupa molhada ao corpo.

Quando alcançou o que lhe parecia um posto de gasolina, descobriu com alguma surpresa de que se tratava na verdade de uma carcaça de prédio em construção. Só estavam de pé as vigas e a laje de um primeiro pavimento, não havendo ainda paredes. A frustração que lhe veio só não foi maior porque não muito distante dali percebeu se encontrar um outro ponto abrigado — e esse lhe parecia ser alguma pequena lanchonete de beira de estrada. A distância, embora não fosse muita, levaria uns dez minutos a ser pecorrida. Já tiritando de frio, Cristian esfregou as mãos uma contra a outra e voltou a caminhar à beira da estrada.

Bateu à porta ao que alcançou a soleira diante dela. Havia uma única janela através da qual observou que alguém, dentro da lanchonete, dormia num dos bancos que cercavam uma das mesas. Era um homem magro e alto que, ao se levantar do banco, o fitou pelos vidros da janela como se procurasse saber de antemão quem batia à porta. Esse homem de aspecto sonolento e relaxado não chegou a se admirar com a presença do estranho que era Cristian, mas algo em seu rosto expressou um certo estranhamento, seguido de uma súbita expressão de mau humor. Ao que esse homem abriu a porta, deteu-se diante de Cristian tal qual um muro.

— O que quer? — perguntou ele a Cristian.

De súbito, com a pergunta do sujeito que se vestia com roupas amarrotadas, Cristian hesitou: não sabia se pedia informações em relação ao lugar que se encontrava ou se entrava e bebia alguma coisa quente. Acabou decidindo pela segunda opção:

— Vocês servem cafë?

O sujeito, com um gesto de quem fazia um favor a um estranho, chamou-o para dentro da lanchonete. Ao entrar, Cristian se colocou próximo ao bacão, atrás do qual o sujeito movimentava-se.

— Só o café? — perguntou o sujeito enquanto, num fogão, colocava a chaleira com café afim de requentá-lo.

— Só, obrigado — disse Cristian que detestava café requentado.

A bebida foi servida morna. Cristian tomou um gole e sentiu a amargura de um café velho lhe comento o estômago então vazio. O sujeito, que o observava, colocou no canto dos olhos uma expressão quase reprovadora. Cristian deixou de lado a bebida para perguntar:

— Como faço pra chegar à praia?

— Praia? — retrucou o sujeito. — Que praia?

Cristian, subitamente confuso pois esperava uma resposta exata, não compreendeu a dúvida do sujeito — dúvida que acreditou ser falsa, pois o sujeito, por qualquer razão, não lhe parecia estar falando sério, mas sim num tom de pilhéria. Contudo, Cristian não retrucou, mudando a sua pergunta:

— Você pode me dizer em que lugar estamos?

— Às margens da rodovia 767 — respondeu o sujeito sem titubear.

— 767? — disse Cristian em tom duvidoso. — Nunca ouvi falar.

Em resposta ao comentário de Cristian, o sujeito sorriu convencido de qualquer coisa que lhe aparecia até então como mera suspeita. Depois disse:

— Você está muito longe de casa, meu amigo.

— Como você pode saber disso? — perguntou Cristian um pouco perturbado.

— Você não é o primeiro a aparecer aqui desse jeito... E quer um conselho? Não tente voltar pelo caminho que trouxe você até aqui.

— Por que?

O sujeito não lhe respondeu, apenas disse:

— É melhor você ir, senão ainda vai ficar ainda mais longe do lugar para o qual você quer voltar.

Cristian não o entendeu. Contudo, como o sujeito lhe falara de modo pausado e seguro, tal quem soubesse claramente sobre o que estava dizendo, Cristian obedeceu: afastou-se do balcão e seguiu à porta. Porém, antes de abrí-la, ainda fitou por uma última vez o sujeito, querendo assim ter certeza de que não era vítima de nenhuma pilhéria. O sujeito estava com ambas as mãos apoiadas sobre o balcão e nessa posição aguardava que Cristian deixasse a lanchonete. Cristian abriu a porta e voltou à estrada.

*           *          *

 

Tornou-se óbvio que Ivan não estava preso na sala ou em qualquer espaço definido por limites. Enquanto brincava com o baralho, empilhando as cartas para assim ter um castelo delas, sua distração reinvindicava um espaço próprio, que nem Laura, nem Jardes, podiam fazer parte. Isso ficou claro ao que Laura tentou puxar conversa com ele: Ivan a ignorou por completo, e em completo silêncio colocou uma das duas últimas cartas sobre seu castelo. Daí se seguiu um longo suspiro da parte dele que colocou abaixo todas as cartas.

— Já chega — foi o que Ivan disse ao ver seu castelo desmanchado.

Jardes estava mais calmo por conta da conversa que tivera momentos antes com a Laura. Estando de pé e perto da porta de vidro, resumia-se a observar Ivan com o canto dos olhos.

— Sei que você está me observando — disse Ivan num tom alheio. — Me dê um cigarro e ficamos quites.

Jardes obedeceu. Tirou do bolso um dos últimos cigarros e entregou-o a Ivan que, neste instante, se recostava contra o encosto da cadeira.

— Obrigado — agradeceu ele para, em seguida, comentar com um ar esgotado que precisavam tão cedo quanto fosse possível se separar, e explicou-se: — Não é simplesmente o caso de sairmos daqui, porque temo que seja ainda difícil essa saída para nós três; o que é preciso, é não nos encontrarmos mais dentro desta sala, e para isso nós precisamos nos separar.

— De que jeito? — perguntou Laura e como resposta teve um bater de ombros que lhe indicava um desconhecimento completo da parte de Ivan, a quem, depois, voltou a falar: — Então não faz sentido o que você está propondo; ainda estamos aqui, não? A porta da sacada é nossa única saída e ela dá pra sacada que, por sinal, fica muito distante do chão da rua. Sinceramente, Ivan, como vamos nos separar, então?

Ivan cruzou os dedos das mãos atrás da cabeça e se deu a pensar. Jardes, que apenas queria sair dali, tinha todas as suas expectativas no que Ivan preparava-se para dizer. De modo repentino, Ivan mudou de assunto:

— Por que não jogamos?

Ivan se referia às cartas, colocando agora as mãos em torno delas e as recolhendo da mesa. Jardes balançou a cabeça sem entender direito aquela proposta.

— Três cartas para cada um de nós — dizia Ivan ao embaralhar as cartas — e quem levar uma seqüência na mão, vence.

— Nunca ouvia falar desse jogo — comentou Laura sem ânimo.

— Jogamos ou não? — retrucou Ivan de modo compenetrado.

Embora indisposta, Laura aceitou enquanto Jardes, de pé e junto a mesa, bateu de ombros, pouco se importando se jogava ou não.

Ivan distribuiu as cartas. Foram três para cada um dos jogadores.

— E então? Alguém que trocar alguma carta? — perguntou Ivan.

— Pode? — retrucou Jardes que tinha nas mãos um par de sete e um valete de copas.

— Vamos, por favor — disse Ivan, apontando o baralho sobre a mesa.

Seguiu-se uma troca de cartas, depois outra. Laura foi a única a ficar com as mesmas que recebera no início do jogo.

— Cartas sobre a mesa — disse Ivan, apressando-se a expor as suas. — Dois, três e quatro de ouro — disse, apresentando as que tinha.

Jardes abandonou suas cartas sobre a mesa, pois continuava sem seqüência apesar de ter trocado de mão. Ivan afirmou:

— Nada. — E se dirigiu à Laura, perguntando-a: — O que você tem?

Laura sorriu e apresentou seu jogo. Ivan comentou:

— Dama, rei e ás... Nada mal, hein?

Ivan demonstrou-se encomodado com o resultado da partida, recolhendo as cartas com irritação. Quando principiava a distribuir novamente as cartas, notou alguém do lado de fora da sala e junto a porta de vidro.

— Você se deu bem, Laura — disse Ivan ao apontar com o queixo a pessoa que se detinha do lado de fora da sala.

A sacada havia dado lugar a um curto corredor, para além deste, como Laura pode observar, apresentava-se uma densa neblina que invadia parte da estreita passagem que levava até ela. Laura se virou então para o sujeito que parecia esperá-la do lado de fora.

— Quem é ele? — perguntou ela a Ivan sem se voltar na direção deste.

Ivan lhe respondeu num indiferente:

— Não faço idéia.

O sujeito nesse instante recuava da porta como se pretendesse partir. Laura, quase que de imediato, levantou-se da cadeira, se pondo de pé e ao lado de Jardes. Certamente não sabia o que fazer, mas algo dentro dela agitava-se com urgência. O sujeito, de costas à porta, hesitava. Usava uma jaqueta de couro e tinha os cabelos curtos, como também a calça e os sapatos, encharcados de água.

Ivan, visivelmente determinado a incentivá-la a partir, disse-lhe:

— É hora de se separar de nós dois, Laura.

Jardes se inquietou. Era a chance que ele tinha de escapar dali e no entanto parecia-lhe que seria impedido pelo Ivan, ou até pelo estranho, caso tentasse fugir. Ao que Laura se dispôs a girar a maçaneta da porta de vidro, Jardes segurou sua mão como se assim tomasse o lugar dela naquela situação.

— Largue-me Jardes! — exclamou Laura surpresa com a atitude dele.

Em seguida, com a mão livre, Jardes tentou girar a maçaneta, porém não conseguiu.

— Não adianta — avisou-lhe Ivan. — E se continuar com isso, tanto Laura quanto você ficarão aqui por mais tempo do que imaginam...

— Por que? — retrucou Jardes de maneira violenta, e forçando a porta, gritava: — Abre sua porta desgraçada! Abre merda! Vamos!

O sujeito, do lado de fora, se afastava. Laura, percebendo que sua chance escapava-lhe entre os dedos, deu um empurrão contra Jardes de modo a afastá-lo da porta. Logo, em seguida, num gesto rápido, Laura girou a maçaneta e passou para o lado de fora da sala. Foi num piscar de olhos: estava no corredor, agora muito mais longo do que a primeira vez que o havia visto, e Jardes, junto a porta de vidro, parecia estar muito distante de Laura, quase no extremo de um profundo túnel. Jardes, lá, debatia-se desesperadamente contra a porta de vidro e, aos poucos, ia sumindo atrás dela, como se ambos diminuissem de tamanho até não serem mais vistos. Do lado contrário, o sujeito caminhava pelo corredor e até a neblina na qual, segundos depois, ele desapareceu. Laura, então, procurou alcançá-lo, afundando-se no bloco branco ao deixar o corredor e dentro dele, chamando o sujeito com todas as forças.

Ivan

 

Não foi surpreendente a Ivan notar o choro convulsivo de Jardes que se deixava a um canto da sala e em completo desconsolo. De certo modo, Ivan já esperava algo do gênero. Debaixo daquela barriga digna de Buda, debaixo daquele rosto redondo, advinhava-se a fraqueza de um homem moralmente abatido — fraqueza que agora se deflagrava naquela cena que, em tudo, era estúpida. Ivan não nutria qualquer antipatia pelo Jardes, bem como não tinha por ele qualquer traço de boa vontade. Se fosse para escolher, teria escolhido a companhia de Laura — muitas vezes mais agradável e mais perspicaz que Jardes. Porém não houve escolha, continuando Ivan a sofrer as conseqüências de um jogo que já lhe parecia tão cansativo quanto repetitivo. E não era à toa.

Talvez fizesse algumas semanas ou talvez fizesse poucas horas desde que se separara de um outro pequeno grupo de pessoas. Havia, naquela mesma sala, uma segunda porta que ficava no lado oposto a porta de vidro. Foi por ela que tanto Helena e ele, quanto três outras pessoas, saíram a uma sequência de corredores paralelos. Cada qual tomou seu rumo e até então não tinham ainda se reencontrado. Por azar ou sorte (Ivan ainda não sabia dizer a respeito), ele havia retornado à mesma sala, depois de percorrer uma dezena de corredores e ter acabado no beco.

Agora, com Jardes choramingando a um canto da sala, Ivan apenas queria sossego, pois que se danasse aquele labirinto de corredores, que se danasse o jogo. Não pensava de outro modo: se pudesse voltar no tempo, teria se negado ao jogo de Lorena e Helena; aliás, ambas deveriam estar muito melhor que ele — disso Ivan não duvidava.

— Vamos homem, pare de choramingar! — pediu Ivan da cadeira que ocupava. Jardes, por sua vez, mostrou-se alheio, embora secasse o rosto com as mãos espalmadas e tentasse, desse modo, se recompôr. Ivan o incentivou: — Não é o fim do mundo, Jardes. Não demora muito você já estará fora desta sala.

Jardes inspirou profundamente e se acalmou. Não tinha coragem de encarar Ivan e por isso mantinha-se cabisbaixo. Tentou dizer alguma coisa que não quis sair da boca; ficou algo murmurado, indecifrável, entre os lábios.

— Não perca as esperanças — disse Ivan sem, contudo, demonstrar qualquer sinal de simpatia para com Jardes.

— E agora? — disse Jardes, deixando escapar uma expressão aturdida, confusa.

Em resposta, Ivan lhe sorriu com certo cinismo, dizendo-lhe em seguida:

— É isso, camarada: esperar.

— Esperar? Pelo o quê? — retrucou Jardes com os olhos ainda vermelhos e lacrimosos.

— Seja o que for, meu colega, não há razão pra se preocupar.

— Tenho certeza que não — disse Jardes não convencido de suas próprias palavras.

Ivan levantou-se da cadeira e de súbito tinha novamente uma postura séria e decidida. A porta, por onde pela primeira vez Ivan e Helena saíram, voltou a ocupar seu lugar na parede oposta à porta de vidro. Percebendo-a, Ivan disse a Jardes:

— Vamos homem, parece que suas preces foram atendidas.

Jardes, a princípio, não o entendeu, mas, ao que notou também a porta de madeira diante da qual Ivan então parava, levantou-se de pronto.

— Espere! — pediu Jardes ao ver que Ivan preparava-se para abrir a porta. Com o pedido, Ivan hesitou. Jardes estava ansioso, embora não o suficiente para se jogar numa outra situação que, talvez, fosse pior do que aquela em que já se encontrava. Ao se aproximar de Ivan, Jardes perguntou: — Aonde esta porta vai dar?

— Ainda não sei — respondeu Ivan para em seguida, quase num tom impaciente, retrucar: — Quer ficar aqui?

—  Não — disse Jardes categórico.

A porta foi aberta com um movimento decidido da mão esquerda de Ivan. O que ela até então escondia  não surpreendeu nem Jardes e nem Ivan que entre si trocaram olhares. Era uma espécie de hall, embora não desse em lugar algum especificamente. Tinha uma clarabóia ao teto e em cada parede, pois se fechava como um cubo, havia uma porta.

— E agora? — perguntou Jardes.

Ivan novamente o fitou, precisamente no instante que respondia:

— Não faço idéia, porque nunca estive aqui antes.

Em seguida, passando ao hall, Ivan comentou mais pra si do que para Jardes:

— As meninas decidiram mudar o palco... Pelo menos não vai ser um círculo vicioso.

— Do que você está falando? — perguntou Jardes pondo-se também do lado de fora da sala.

— Nada não.

Achavam-se ambos no centro do hall e bem debaixo da clarabóia. Jardes, que fora o último a sair da sala, havia deixado a porta aberta. Era curiosamente essa passagem que lhe trazia certo conforto: se pior ficasse, voltava. No ar sentia-se um cheiro diferente, um tipo de perfume adocicado que, se não falhasse a memória, Ivan suspeitava ser de Helena. Pensando nela, foi até a primeira das três portas que se encontravam fechadas e tentou abrí-la. Sem sucesso, foi a segunda e depois a terceira.

— Não estou entendo — disse Ivan ao perceber que não conseguiria abrir nenhuma das três portas. — Pelo menos uma deveria se abrir. Não faz sentido.

— O que há de errado? — perguntou Jardes um pouco tenso.

— Elas estão chaveadas, não dá pra abrí-las.

— Vamos voltar então.

— De jeito nenhum. Isso não faz parte do jogo, amigo. É melhor se acostumar, porque se toda vez que você avançar um passo, quiser voltar dois, você está realmente fudido.

— Está bem, está bem! — disse Jardes nervoso. — Mas e então? Vamos ficar nesse cubículo?

— É isso que não faz sentido; uma das portas deveria estar destrancada!

— Deixa eu tentar — disse Jardes, passando de uma a outra porta e percebendo que todas as três continuavam trancadas. — Droga! — exclamou ele diante da última.

Jardes estava tão compenetrado no que fazia que não percebeu Ivan quando este o deixava sozinho no hall, reentrando ele na sala e fechando a porta atrás de si. Ao que se deu conta, Jardes exclamou consternado:

— Filho da puta! — e correu para a porta. Ao alcançar a maçaneta, Jardes girou-a sem dificuldades e, ansioso, empurrou a porta para que esta se abrisse de pronto.

Quem o esperava atrás dela não era Ivan, mas uma mulher que ocupava uma cadeira de rodas. Ela estava vestida com uma longa camisa; suas pernas nuas não eram as de uma mulher paraplégica — logo notou Jardes, agora mais atento e surpreso com o que lhe acontecia. A mulher, virando a cadeira na direção de Jardes, disse:

— Não era você que eu esperava ver. Onde está Ivan?

— Ele, ele, ele — gaguejava confuso Jardes para enfim afirmar: — ele entrou aqui!

— Ah! Entendi — disse a mulher.

Recolocando a cadeira de rodas voltada à escrivaninha, a mulher retomou seus afazeres. Escrevia qualquer coisa num bloco de notas. A sala em que ela se encontrava era escura; um par de cortinas tampava a porta de vidro e desse modo impedia que a luz do dia por elas passasse.

— Por favor, — dizia a mulher de modo alheio — quando sair, feche a porta.

Jardes recuou, voltando a ocupar o hall. Depois, completamente confuso, fechou a porta como a mulher lhe pedira e em seguida, por qualquer suspeita que lhe parecia cara, a abriu novamente. Estava diante da sala onde tudo havia começado, porém Ivan não se encontrava nela.

— Tudo bem — disse Jardes para si mesmo. — Pelo menos é um lugar que eu já conheço — e entrou.

*             *            *

 

Não havia sido de propósito que Ivan reentrara na sala e nem fora intenção sua deixar Jardes sozinho no hall. Aparentemente, Ivan se sentiu atraído para dentro daquele espaço que já conhecia; foi como se seu corpo, obedecendo qualquer chamado, caminhasse de maneira involuntária à sala. Aliás, somente ao passar pela porta e fechá-la atrás de si que Ivan teve a consciência do que lhe acontecia, e essa consciência súbita o fez repentinamente se sentir como uma marionete nas mãos de alguém que até aquele instante o controlava. Logo, sua perspectiva em relação ao jogo entrou por outros caminhos, e de fato lhe ocorreu que já não dispunha da liberdade da escolha. Ao que tentou desfazer o que então parecia concluso, Ivan reabriu a porta, dando com hall vazio.

Não lhe cabia a responsabilidade pelo que viesse a acontecer a Jardes, embora um mau estar lhe afirmasse o contrário. Apenas cada qual tomou, de modo involuntário ou não, seu rumo e isso era o quanto bastava para Ivan ter a consciência mais leve em relação ao caso. De qualquer forma, suspeitava de que voltaria a encontrar Jardes, pois imaginava que com o tempo seus caminhos inevitavelmente iriam se cruzar.

O hall parecia ser o mesmo que o da primeira vez, tendo a clarabóia ao teto, como também as outras três portas riscadas cada qual em uma das paredes brancas. No entanto, havia um vaso de flores ao lado de uma delas; senão lhe fallhasse a memória, esse pequeno vaso ali antes não se encontrava.

Não havia avançado ainda ao hall, estando parado a um passo a dentro da sala. O que descortinava com cautela não era de fato algo que previamente conhecesse; se fossem os corredores paralelos, saberia certamente o que deveria fazer, mas no caso das portas que agora se apresentavam, qual deveria ser seu próximo passo? Com esta dúvida, Ivan avançou ao hall, aproximando-se lentamente do vaso. A flor que nele se encontrava era uma onze-horas.

Ivan agachou-se para tocar com a ponta dos dedos as pétalas fechadas da flor. No entanto, ao que sua mão foi ao encontro de seu objetivo, a porta ao lado do vaso foi aberta. Automaticamente, Ivan fitou a porta da sala que ele recém havia deixado, conferindo se a mesma continuava aberta ou se, por qualquer razão, fora fechada. Tranqüilizou-se. Nada, no que dizia respeito à sala, havia mudado.

Um homem que facilmente Ivan reconheceu surgiu ao lado de Ivan — era Jorge, uma das pessoas que com ele havia passado pela primeira vez na sala. Diante deste rosto conhecido, Ivan não pode deixar de sorrir com familiaridade.

— Ora querido! — exclamou Jorge. — Finalmente!

Jorge estava transformado: vestia uma mini-saia justa e uma camiseta curta; seus sapatos eram de salto fino sobre os quais seus pés mal se equilibravam. No rosto, Jorge tinha os lábios pintados e as bochechas abarrotadas de pó-de-arroz.

— Veio para a festinha? —interrogou Jorge com bom humor ao mesmo tempo que ajeitava a peruca ruiva sobre a cabeça.

— É carnaval? — retrucou Ivan então se ponto de pé.

— Ah! meu lindo! Que nada, é melhor! Por que não entra? Meu maridinho já está ansioso com a demora dos convidados.

Ivan entrou. Quem Jorge chamava de “maridinho” era na verdade Ágatha que, vestida tal qual um homem, fumava um cigarro junto a mesa da sala (que era em tudo idêntica à sala que Ivan havia deixado), e bebia cerveja num copo americano. Ela, ou “ele”, levantou-se da cadeira assim que notou Ivan passar pela porta, indo ao encontro dele.

— E aí cara? Como é que você está? — disse Ágatha, estendendo a mão livre para um aperto de mãos. — É um prazer rever você, não é princesa?

— Oh! Sim, um super-prazer! — exclamou Jorge de maneira afetada.

— Por que não se senta? — sugeriu Ágatha.

Ivan se sentia à vontade. Sentou-se numa das duas cadeiras enquanto Ágatha ocupou a outra.

— Quer uma cerveja? — perguntou ela num tom amistoso.

— Pode ser — disse Ivan, reparando que Jorge procurava se sentar no colo de Ágatha.

— Pare com isso, mulher! — disse Ágatha. — E vá lá pegar uma cerveja para o Ivan aqui!

— Ui! Querido! Como você está tenso! — sensurou-lhe Jorge, mas já então a caminho de uma pequena caixa de isopor que se encontrava junto a porta de vidro.

A cerveja foi servida num copo de vidro de requeijão. Jorge, que depois de servir, voltou a procurar colo de Ágatha, meneou a cabeça ao notar que Ivan bebia com voracidade o líguido do copo.

— Vocês, homens! São tão grosseiros! — sensurou-lhe falsamente Jorge.

— Desculpem-me. Fazia algum tempo que eu não via uma “geladinha”.

Nesse instante, a porta que serviu de entrada para Ivan àquela sala, e que então se encontrava aberta, deixou antever a presença de alguém no hall. Era Helena, Ivan foi o primeiro a reconhecê-la.

Ela vinha nua sobre uma cadeira de rodas que seus braços manejavam habilmente. Ao que passou pela porta, Jorge exclamou não tão surpreso quanto se poderia supôr em seu tom de voz:

— Ah! querida! Você veio!

— E por que não viria, amiga? — disse Helena ao se aproximar da mesa.

A resposta de Helena não chegou a ser hostil, mas tinha qualquer sinal de impaciência e ríspidez. Percebendo a indisposição de Helena ao bom humor, Jorge disse num tom um pouco apagado:

— Bem que você poderia ser mais cordial comigo, não?

Helena sorriu de canto, como se já esperasse pelo tom magoado das palavras de Jorge. Depois, de modo alheio, contou que estava esperando uma visita em seu apartamento, e que esta visita não havia chegado. Desse modo, estava um pouco aborrecida. Pedia, então, que Jorge a desculpasse pelo mau humor, ao que ele respondeu:

— Tudo bem, querida. Todos nós temos nosso dia de infelicidade.

Ágatha veio a perguntar se Helena queria beber alguma coisa. Helena agradeceu a oferta, mas recusou. Ivan, que até então apenas observava, disse:

— Faz muito tempo que eu não vejo você assim, Helena.

— Assim como? — retrucou ela. — Sem beber?

— Não, nua.

Jorge se animou, exclamando:

— Ulálá? “Love’s in the air”.

Ágatha debruçou-se sobre a mesa aos risos. Sem perdera altivez, Helena disse:

— Não vai perguntar porque estou numa cadeira de rodas?

Ivan, bebendo um pequeno gole de cerveja, respondeu:

— Não é preciso. Você fica muito bem nela.

— Uuuuh! — exclamou Jorge.

— A única coisa que gostaria de saber de você é para onde você está me levando.

Helena, ao ouvir o comentário de Ivan, reservou-se em um silêncio. A obsorvia o olhar de Ivan que, sem pudor, estava mirado para o peito nu dela. Helena sorriu:

— “Já não nos conhecemos?” — citou ela.

E como num flashe veio à memória de Ivan toda uma seqüência de falas que foram ditas havia muito tempo. O olhar de um macaco faminto se repetia.

— Me desculpe — pediu ele. — Como eu disse, faz algum tempo que eu não via você assim.

— Tudo bem — aceitou ela de modo cordial. — Vamos ao que interessa. Jorge, por que não me ajuda a ir pra sacada, já não deve demorar muito a festa.

— Claro! — disse Jorge, seguindo a porta de vidro e a abrindo para que, desse modo, pudesse empurrar a cadeira de rodas à sacada.

Ágatha e Ivan os seguiram. Do lado de fora da sala, na sacada, os quatro se apertaram para ver o que se daria na rua muito abaixo deles. Helena, curvada contra a mureta, apoiava os braços sobre o peitoral. Nessa posição, com o queixo fincado nos antebraços cruzados, tinha ela um aspecto infantil, de menina. Seus olhos percorriam a rua, procurando num número cada vez maior de pessoas que lá se agitavam, qualquer coisa que a distraísse. Ivan, de pé ao seu lado, sentia-se um pouco surpreso, pois nào imaginava que ali houvessem tantas pessoas.

Era uma festa, uma espécie de carnaval. A rua, cada vez mais preenchida por pessoas, se desacrilizava, se desfazia como um lugar pelo qual as pessoas apenas passavam. Podia-se avistar diante de casas de espetáculos, apresentações de toda ordem: cuspidores de fogo, mímicos, farsantes, equilibristas, homens que se diziam os mais fortes do mundo; e ferviam, naquela turba de gente que então dançava em meio a tantos espetáculos, arlequins, damas da noite, senhores com máscaras, assaltantes, viciados, e bobos da corte. Era um tropel de cores e de sons que cada vez mais se intensificavam, até que tudo virou um constante rugido festivo e uma pálida fumaça esbranquiçada.

Do alto, então, tudo se perdeu e nesse instante, Helena disse a Ivan:

— Finalmente chegamos, Ivan. Está na hora de conhecermos a Cidade Dividida.

Fronteiras da Cidade Dividida

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