Amanhecer na ilha de Larses

Estamos para partir da ilha em que ancoramos e onde conhecemos Larses. Esse porto é peculiar pela história desse homem que um dia apostou com um pirata sua própria língua por um ovo de ouro. Uma história que pode ser lenda dessa região em que estivemos percorrendo à pé nos últimos dias, passando por terras descampadas nas quais se descortinam “ninfas celestiais” para uma porta a novos mundos. Quem sabe? Dizem alguns que se pode perder a língua nesse mundo mágico de palavras e de sons. As mulheres que conhecemos nessa vivência de comunidade, usam muitos tecidos como vestes sacerdotais. É da natureza de seus corpos uma elasticidade de formas e de moldes como se barro. A realidade de estarmos aqui nessa ilha se torna inesgotável com a maneira que vivenciamos nossas experiências, em qualquer lugar que estejamos.

 

Sany e eu descansando num trecho da caminhada.

Hoje comemoramos uma data especial de nossa história, como um livro aberto a existência de um sopro de vida da gente nos anima, nos transforma. É assim que a experiência de estarmos em curso nos leva a nossa nau.

Nasce o dia.

Hoje louvamos à alvorada como portal astral de nossa jornada nesse mundo em que estamos de passagem, como estaremos em todos os demais pelos quais ainda viremos a passar.

De nosso diário de bordo, 18 de novembro de 2018

Gi Nascimento.

Destinos comuns

Uma vez que amanhece um novo dia, estamos a par da linha do horizonte para uma caminhada de algumas horas, em direção a uma comunidade de mulheres que se organizaram na construção de suas moradias, e se tornaram, com isso, uma realidade própria, e ainda que seja ficção toda essa nossa história, penso que a experiência da caminhada, de olhos postos no processo do caminho, fitando de quando em quando mais a frente, o que há no horizonte, é algo que nos saúda com algum conhecimento interior.

Minha energia nesse andar se torna sagrada, forma e pensamento moldam as realidades com que conversamos, antes que possam existir na realidade de ser um mundo, e talvez por isso tenhamos decidido ir à comunidade,  distante de onde aportamos nossa nau, pela aventura de estarmos juntos, cientes de nossas individualidades que constroem nossas escolhas.

Sany segue à frente, estando um passo além, embora olhe para trás com frequência, atenta a quem vem depois dela. Tem uma expressão concisa na linha dos olhos, procura saber o que ocorre numa perspectiva integral de seu conhecimento. E parece perceber que há impedimentos no caminho.

Foto por Úrsula Madariaga de Pexels

Um universo é próprio de formas de se conhecer seus meios de manifestação, vejo diante de nós, acerca de uns cem metros, as mulheres de que falavam na vila dessa ilha em que aportamos. Há um azul que prevalece sobre tudo o que visualizamos aqui nesse lugar, e elas parecem estar absortas à seriedade que esse manto azul sobre elas se manifesta em particular.

A imagem desse quadro fantástico nos impede de prosseguir pela trilha desse descampado em que nos encontramos em caminhada. Paramos.

O sol cresce sobre nós nessa primeira hora da manhã em que deixamos a praia para adentrarmos a ilha, depois da vila. Está agradável com um sopro de vento, de quando em quando, vindo do mar. A realidade transborda pelas vidas que seguem seus cursos com independência de sentidos e com clareza de motivações, porque é de repente que, depois das mulheres reunidas sob aquele manto azul fantasmagórico, se abre um pano de fundo no lugar do horizonte antes descampado. Um realismo fantástico nos absorve com êxtase da cena transmutada, mas era o que buscávamos, e agora estamos a par desse portal.

Foto por Miguel Á. Padriñán de Pexels

Um mundo pode se repetir sob suas formas, embora se saiba que dificilmente, na prática, um único instante se repita idêntico a algum que já passou. Sim, nos recebem em seus espaços habitados, mulheres que se tornam livres de alguma forma imperiosa sobre seus próprios ambientes sagrados.

Estamos felizes com a recepção que elas nos trazem aos olhos: é pacífica, vem do declive que nos espera para chegarmos à comunidade delas.

Depois do descampado em que a trilha nos leva a passar, estamos a integrar a realidade dessas mulheres, quando ocorre-me um pensamento do que teria, realmente, sido preciso fazer para chegarmos até elas, e, na verdade, se percebe o quão íntimo é delas essa natureza de habitarem muitos mundos.

A resposta me parece vir sem esforço daquela entre elas que me vê pelos meus olhos. Digo a mim mesmo que não há impedimentos possíveis à vivência interna, também num desconhecido de si, quando desaparecem tempo e espaço.

Somos convidados por gestos etéreos a nos aventurarmos a um passo além em que nos encontramos parados, e seguimos com elas ao centro do que nos parece um espaço comum à comunidade. Lá nos encontramos em círculo.

É uma prática antiga a dispor encontros numa mesma linha de igualdade entre os pares que fazem daquela ancestralidade um culto de formas. Está tão integrada à Terra que parece fazer dela uma íntima unidade ancestral. Podemos ver diante de nós o passado daquelas mulheres como espelhos do tempo que nos governam pelos espaços em que nos encontramos. O místico endereço de seus olhos nos levam a uma conversa de mentes brilhantes, todavia, cientes dos limites da integridade de si e do outro. Os raios cósmicos que por aqui ganham corpos no ar são pessoas espectrais que se manifestam por meio desse ambiente de domingo. Há uma leveza em tudo que existe.

De nosso diário de bordo, 11 de novembro de 2018

Gi Nascimento

Uma arte de vila

Ainda que em terra firme, nos sentimos mareados enquanto acampamos à praia como se o mundo nos fosse mais fluído à terra do que sobre o mar. Isso é comum de acontecer conosco quando pensamos que há pouco tempo aportamos nessa ilha. De ontem, como no Mar alto, ficamos um pouco à deriva nesse tempo e espaço que nos recepcionou em silêncio.

Aliás, quando hoje cedo acordamos, reunindo-nos em torno das brasas da fogueira de ontem à noite, reanimamos o fogo com lenha e folhas de papel De nosso diário de bordo, consumindo-se histórias já descritas, porque elas perecem no passado de nossa memória.

Mas, como acima já dito, estamos mareados em terra firme, o que nos deixa com uma alteração perceptiva, afinal, qual era o sentido de Larses aparecer em nosso acampamento à hora do café como quem ali estivesse para compartilhar desse desjejum matinal?

Estávamos em silêncio. O tempo cinza tem um clima de distância, mas nós estávamos cientes de nossos espaços e de nossos diálogos internos, o que, no entanto, não causava diferença quanto à razão alheia que parecia ter Larses conosco ali, sentado próximo à fogueira que já brotava em chamas do chão.

Ana Balesca ofereceu um pão a Larses. Como ele não esboçou reação, pensou que fosse pouco o que ela oferecia a ele, oferecendo um segundo pão. Larses deu um riso de canto, de aparente cinismo, e se levantou de onde estava sentado, levando os dois pães com ele  e seguindo em direção a uma estrada, que é por onde se chega à vila que encontramos ontem depois de aqui atracarmos.  

Uma vez que tenhamos estranhado a atitude da pessoa de Larses, ficamos sem entender sua aparição tão cedo no amanhecer de hoje, mas prosseguimos com nossa programação definida após a partida dele de nosso acampamento à praia.

Tomamos café, preparamos mochilas e seguimos a pé cerca de uma hora depois que Larses havia nos deixado, quando aproveitamos a visão da paisagem para sentirmos o silêncio que nos animava a estar junto uns dos outros, cada qual em sua própria vontade e sobre seu próprio caminho de escolhas, seguindo numa mesma direção. 

Ao que parei para fotografar o cenário, me dei conta que estávamos realmente à passagem a uma realidade bem particular que ocorre no meio do oceano, onde se pensa que se vive isolado de tudo que há para além desses limites de terra.

Mas não.

Passamos à vila de viela estreitas, paredes brancas, flores em vasos e às janelas. Nos encantamos. E aqui, nela, observamos com surpresa os caminhos que nos trazem a revelações inusitadas, como Ana Balesca e eu logo o percebemos.

Caminhávamos ainda em razão de comprar mantimentos para levar a nau quando, sobre o portão que havia ao fim de uma viela estreita, avistamos um letreiro grafado de entalhes sobre pedaço de tábua em formato de prancha, onde se lia “Mercearia Marroquina”, o que muito nos chamou nossa atenção pelo aspecto azul da cena que nos levava a ela.

Onde a realidade em nada se altera pouco sentido tem por sua existência em nossa memória. Ao nos aproximarmos do portão, ouvíamos um cacarejar de galinha do lado de dentro do portão como se para procurar canto a fim de pôr seus ovos do dia.

Abrimos o portão e para nossa surpresa quem estava bem à porta do estabelecimento era Larses, impassível à espera dos ovos que a galinha deveria pôr dentre ali a instantes. 

Cumprimentamos Larses com um gesto de mãos, esperando que ele reagisse, nos dirigindo sua atenção, o que não aconteceu. Pedi licença para que passássemos para dentro da Mercearia Marroquina, não esboçando ele reação a esse respeito. Era como se não existíamos ali.

Nos desviamos da pessoa dele e passamos pelo vão da porta aberta da Mercearia encontrando um espaço amplo, muito bem organizado com diversos produtos da região, e em especial, uma gamela esculpida à mão, tendo dentro harmoniosamente organizados uma infinidade de tipos de pães assados. Foi quando ouvimos então o cacarejar da galinha lá fora, e depois, entrando pelo vão da porta em seguida, Larses, com seu provável ovo no bolso.

A variedade e a quantidade de pães na gamela esculpida talvez pela mesma pessoa que havia esculpido o letreiro à frente da Mercearia, tinha chamado a atenção de Ana Balesca para os detalhes dos formatos e do quanto bem feito pareciam aqueles pães. Os pães que tinha lhe oferecido estavam nessa mesma gamela, e ela viu com modéstia sua própria contribuição para aquela farta mesa diante de nós. Eram pães de arroz.

Bem maior foi a retribuição de Larses a nosso respeito. Nos recebia na Mercearia como se já nos conhecêssemos, mas de outros momentos. Por óbvia questão de impedimento, não fazia esforço para se comunicar pelo som gutural que provavelmente sua voz teria se articulasse, com a língua, as palavras, mas não. O silêncio era presença permanente na vida dele, o que de novo me levava a perguntar: o que teria ele apostado com o pirata a perder a língua e a voz em razão disso?

Voltamos com uma cesta de pães e outros mantimentos que nos são necessários à jornada. Dentro em breve voltamos a partir para o mar.

De nosso diário de bordo, 08 de novembro de 2018

Gi Nascimento

Mar alto

Uma arte enaltecida que quase sempre pode não se saber muito dela, ao menos conscientemente, é a da narrativa. Não importa o quão breve pode ser essa escrita que conta uma história, há uma constante demonstração de que existe o que contar, não por quem escreve uma, mas para quem lê, ou ouve, e interpreta o que se conta.

Paramos para tratar dos víveres a bordo. Há uma pequena e pacata vila numa Ilha em meio ao oceano. Quem nos recebe, se coloca como navegante de terras firmes, porque é com surpresa que nos avista, deixando de lado, por um instante, os seus afazeres diários. 

Esse personagem se chama Larses, tem aproximadamente um metro e sessenta de altura, e se aproxima da gente, tendo no seu encalço uma galinha que segue o balde de restos de cozinha que Larses viria a distribuir no quintal, se não tivéssemos o interrompido ao desembarcarmos de nossa nau.

Ele nos cumprimenta com um forte aperto de mãos, olha nos olhos, parecendo nos conhecer, ou querer recordar de nós de algum tempo que nem mesmo nós tínhamos ideia de que poderia existir. Daí nos explicamos, falando de que somos navegantes a borda de nossa nau, e de que estamos precisando de víveres para a continuidade da viagem, ou um pouso em que pudéssemos parar para nos reabastecermos. Ele sorriu de canto, fez pouco caso de nossas necessidades, e apontou para um local além do quintal de sua casa, modesta e bem preservado como as demais da vila dessa Ilha.

Soubemos, mais tarde, que ele se chama Larses, e tinha perdido a língua numa aposta com um capitão de um navio pirata, quando, nas mesmas condições, a embarcação do pirata atracou na praia.

O que teria apostado para perder a língua não chegamos a saber, tomando o cuidado para nos preservar diante das circunstâncias um pouco estranhas desse novo ambiente em que nos encontramos.

O fato é que nos encontramos bem, apesar de não termos sanado a questão dos víveres para a continuidade da viagem, e estamos na expectativa de outra embarcação chegar, ao que parece, para repor os mantimentos dos habitantes locais, porque água potável, ao menos, a ilha tem.

E no aguardar dessa embarcação atracar, nos colocamos à praia, acampados.

Cai a noite, acendemos uma fogueira, nos sentamos em volta dela e contamos histórias com as quais nos divertimos, conversamos e cantamos ao som de violão, flauta, batuque e sinos.

Somos estranhos à praia, somos os que passam a noite em terra firme para sairmos um pouco da rotina de bordo. O último mês, apesar dos pesares, nos levou a algum ponto do oceano que serve de experiência para uma próxima etapa.

De nosso diário de bordo, 07 de novembro de 2018

Gi Nascimento  

 

Maré mansa

Navegação a bordo da nau

Quando chega a se alcançar um ritmo de se avançar léguas mar a dentro sem muito esforço da tripulação, é comum se ter a ideia de um período de maré mansa auxiliando quem navega com foco em soluções futuras. 

“A visão antecede a experiência”, detalho em nosso diário de bordo enquanto o vento sopra de maneira constante as velas da nau. Posso, como da última vez, observar no mar, e a uma grande distância, o que ainda está no horizonte de nossas intenções, compreendendo que soluções são resultados de desenlaces, de desfechos, e de mudanças.

Vejo, então, que essas mudanças existem por nossa necessidade e acredito que tenhamos uma considerável consciência dessas mudanças, principalmente quando objetivamos inovar!

Dentro de uma certa linha do tempo, as soluções nos alcançam como se constantes a cada nova etapa de nossa superação. Por isso, aparentemente cruzamos o oceano sem muito esforço quando, na verdade, muitos traçados foram feitos sobre o mapa para alcançar a rota mais tranquila para o desenvolvimento de nossas atividades diárias de convivência a bordo.

a tripulação

Hoje estamos a sete navegantes nesta nossa nau. Em nossa convivência de dia a dia, somos cinco seres humanos e duas felinas, ambas recentes na nossa tripulação, e que fazem nosso cotidiano bem mais simpático pelo charme de crescerem “zen” em nossa embarcação.

Sany já dirige sua escrita pelo mundo virtual, as meninas também estão produzindo conhecimentos a partir do mundo delas, escrevendo estórias muito interessantes enquanto seguimos mar a dentro.

Aliás, ontem estivemos contanto algumas das estórias que nos ocorrem quando nos reunimos em torno de uma mesa. Era início da noite e fizemos uma decoração rápida em razão do improviso, e foi divertido!

De nosso diário de bordo, 01 de novembro de 2018

Gi Nascimento

Mastro Mestre

Deslizando a lona da vela sobre o mastro mestre da nau se apreende que há uma voz interior, e anterior a tudo, que nos assiste em nosso curso de viagem. Ana Balesca, por exemplo, prepara o pão da manhã à maneira de minha mãe em tempos de Escola Musso: pão de arroz integral, nossa tradição desde então.

Mas é o alimento, uma vez preparado, que se serve à mesa, embora nela os frutos possam ser abundantes, existe todo um preparo de semeia até a colheita dos frutos.

Penso que trabalhamos como seres vivos o que somos para a ideia do que nos desenvolvemos como seres humanos nos quais nos tornamos, me parece ter uma implicação lógica nesse sentido, não?

Contudo, a verdade, no que posso perceber, é a que diz respeito a um mundo de ignorância, e de maldades implícitas em caminhos falsos, desprovidos de uma verdadeira consciência quanto à realidade de seu próprio mundo interior.

 

Hoje amanhece um belo domingo. Navegamos em sentido de cumprir com o programado para essa etapa da viagem. Retiro-me do convés e sigo entre as cordas até o alto do mastro, no cesto da gávea, onde me dou conta que é ali o lugar em que devo ficar, por isso ouço o mar como se na concha de praia, e posso perceber o vento fresco da madrugada tremular as velas numa ignição de temperamento. Os antigos chamam de “cavalo do mar” aquelas embarcações das quais se pode ouvir o “tropel” dos mastros. Creio estar em uma delas.

É daqui, também, que avisto o que mais posso alcançar com a luneta. Gosto de perceber por aquele olho mágico o que se aproxima, algo que está tão ao longe no horizonte a ponto de acontecer, ou não, em nosso trajeto.

Nossa casa, portanto, flutua como a Terra pelo cosmos da criação. Abaixo da linha do mar em que navegamos há um cosmo de vida tão particular e de maneira abundante que é impossível não se perceber a vida intrauterina humana ali relacionada, apenas mudando-se o ambiente.

Essas passagens ocorrem por meio de ideias que nos servem às mudanças de sentidos, dentro dos quais nos comunicamos, aí sim de maneira íntima.

É preciso certa coragem de se ver.

E se reconhecer em escolhas que invocam certas responsabilidades quanto a um mundo que é parte de nós. Daí surge o verdadeiro desenvolvimento humano.

Enfim, percebe-se que a passagem é apenas um ponto, tanto daquilo que se escreve quanto daquilo que se vive a cada momento, sendo esse o tema maravilhoso em que Ana Balesca está trabalhando, de ponto a ponto.

Eu, comigo, levo o temperamento dessa nova embarcação em conta, porque não é fácil lidar com circunstâncias de mundo que estão alheias as nossas vontades mais determinantes, e, por isso, os cuidados quanto aos compromissos permanecem sérios e necessários, em razão das condições do mar inclusive.

De fato e na realidade nos propomos a apostar em projetos de futuro que nos sejam alternativas de meios de vida e, nesse ponto em particular, nos vejo em condições de participar ativamente em projetos de futuro ao Terceiro Milênio. Mas a realidade que é tangente ao dia a dia parece dizer o contrário quanto a essas realidades possíveis. Aliás, penso mesmo que há uma necessidade de se pensar o desenvolvimento humano nesse sentido, já que é notável a necessidade de desenvolvimento de valores humanos relacionados a esse princípio para a própria humanidade.

Temos consciência a esse respeito? Sim, não?

Estar a procura de um refúgio quando se está em calmarias não é a mesma situação de quem procura refúgio em meio a tempestade. E como ambas são transitórias na imensidão do oceano, ficamos a par desta realidade que nos é tangível.

Sejamos sensatos, no  mínimo, quando estamos a olhar o horizonte em busca de condições de porto seguro. Sabe-se que é nossa viagem que se narra, e não necessariamente o destino, mas como é bom saber que, etapa a etapa, compreendemos nossas realizações, a fins mesmo de registro?

Levo a sério meus devaneios porque são dos quais que tenho comigo um grau de exigência a olhar a sério. Nosso mastro mestre, além da abundância à mesa da vida, são os conhecimentos dos meios que nos levaram a ela.

Manhã de domingo, Gi Nascimento 

De nosso diário de bordo, 21 de outubro de 2018   

A mulher do barro

Se do nada partimos, construindo visões de futuro, o quanto dirá aquele que vê possível!

 

De nosso diário de bordo, 12 de outubro de 2018

Gi Nascimento

Estou há poucas semanas em uma nova rota de navegação, aprendendo com esse nosso espaço de diálogo o que dá certo, e desenvolvendo uma história pessoal e humana sobre isso.

Nada avistamos no mar que se descreve acima das ondas para onde quer que lançamos nossa atenção, porque um oceano azul se estende de lado a lado, e parece tanto promissor quanto um pouco assustador.

Lanço, portanto, anotações em “De nosso diário de bordo” na expectativa de ocupar a mente com um contorno de alguma direção consistente, na ponta do lápis.

A realidade nossa, é de muitas realidades possíveis quando tratamos de seres humanos em desenvolvimento de consciência de sua humanidade. O que se diria da palavra que escrevemos sobre uma folha em branco, ou sobre o que testemunhamos em razão do que acreditamos ver, percebendo outras formas de se interpretar a nossa própria realidade, um tanto mutante por dentro do que somos.

Hoje o dia amanheceu agradável no mar, embora continuem nuvens cinzentas agora à nordeste de onde nos localizamos. Aproveito o momento para estudar um tema que me interessa desenvolver: a realidade do barro.

Em artesfatos.com, faço meus estudos sobre temas das áreas de conhecimento em cultura e pesquisa, em especial as de antropologia e as de história, passando pela análise dos povos e de suas formações através do desenvolvimento das tecnologias. 

Muito do que me proponho nesse nova iniciativa tem a ver com um elemento relacionado à terra, que é o barro, e como esse material umedecido se tornou o contorno tanto da metáfora humana de evolução divina quanto da divisa da realidade consciente entre criatura e criação.

  Mas não sabemos quem, quando e em que momento da história da humanidade o ser humano foi capaz de dar forma à matéria, fazendo brotar da terra uma realidade completamente própria de utensílios, de materiais de uso pessoal que estavam ligados muitas vezes ao processo do comer, do se alimentar, como os vasilhames em que se conservavam alimentos por mais tempo, ou que guardavam a água para a bebida, ou que serviam de panelas cerâmicas para cozer o alimento.

De qualquer forma foi um salto.

A importância disso para a história do desenvolvimento humano parece estar no fato de se compreender um meio de transformar a realidade dos fatos até então consubstanciados na provável coleta e caça do alimento dia após dia, sem abrigo das adversidades dos meios.

Depois, algo se transforma, mas não exatamente no que corresponde à matéria do barro transformado, algo mais essencial.

A interpretação é parte inerente em todo momento de transformação humana, porque há sempre “um antes e um depois”.

Enfim, continuo com meus estudos e os nossos estão seguindo em paz, que é algo pelo que todo ano renovamos as nossas intenções.

De nosso diário de bordo, 12 de outubro de 2018

Gi Nascimento

Contornos de nossas jornadas

Estamos há 14 dias dentro de uma nova perspectiva marítima. Quando começamos a navegar pela primeira vez, por volta de dez anos atrás, o que buscávamos sempre fora um lugar a partir do qual nós pudéssemos realmente fazer planos para o nosso futuro, de tal forma que o que visualizássemos para o amanhã, assim ocorresse para o sucesso de nossa jornada.

Mas estamos como se dá primeira vez que navegássemos no mar. Cada dia corresponde um aprendizado novo com algum grau de entendimento em que conseguimos a resolver nossos desafios e demais impedimentos de natureza funcional quanto à embarcação que somos.

Hoje, bem mais do que já tenha ocorrido antes, estamos cientes que o sucesso começa com a compreensão de si, de sua verdadeira fonte de entendimento do que o traz por meio de uma satisfação de viver com um sentido e de um propósito que proporcionam,  juntos, os espaços de convivências em torno deles.

Somos nossas histórias de vidas em razão disso.

De nosso diário de bordo, 07 de outubro de 2018

Gi Nascimento

 

Navegar é preciso

Em que realidade vivemos?

Já faz alguns anos que construímos essa embarcação virtual e agora toda experiência obtida por meio dela pode nos trazer um novo meio de vida. Recapitulando nossas últimas postagens, lembro de relatar o desembarque que tivemos que fazer à costa, depois de um período intenso de chuvas. Desde que de lá partimos, um sentimento comum é algo que nos une a uma nova perspectiva de vida, na qual parece existir uma alternativa mais forte, e isso acontece de maneira independente da embarcação em que nos encontramos, porque esse é um sentimento que nos transporta para perto daqueles que nos trazem um bem-estar à memória.

Então, em que realidade nos encontramos?

Meu ponto de partida

Esse sentimento de embarcar rumo a um destino desconhecido por mim é algo que parece ser inato a qualquer um que tenha diante de si algum horizonte como lugar possível a seu próprio respeito.

Falo por minha experiência: quando se inicia a consciência de que existe um mundo para além da existência do perceptivo como um algo contínuo e evidente de si (porque não há dúvida), e que parece ocorrer na primeira infância de qualquer ser humano, uma espécie de luz guia nos mostra o caminho à nossa própria consciência de mundo, daí toda experiência que se trata de aprendizado consigo.

Por várias vezes recordo em minha história pessoal essa natureza de fatos que eu seguia sem muito compreender que esses existissem, ou não, para o mundo “dos homens”. E me parece natural que as ideias a respeito desse estado primeiro de consciência seja comum a todos nós.

Depois, antes que eu soubesse onde ficavam os limites entre o “mundo dos homens” e a realidade em que eu me alimentava como um processo de escolhas para estar nele, existia esse espaço sutil em que se observa um inocente interagir despretensioso de todos os atos, não cabendo uma segunda visão a respeito do seu aprendizado interior que a tudo observa sem nada julgar ou sem antes passar pelo crivo da experiência pela própria necessidade dessa experiência sem prejulgamentos.

Vimos assim, que há uma estrutura guia que suporta a imagem deste sujeito no mundo. E curiosamente essa “matriz” revela também os suportes que dão manutenção ao estar sujeito ao mundo.

Muitas e muitas vezes ouvi que eu não entendia de “como realmente tudo funciona” na vida das sociedades em que crescemos como cidadãos. Sinceramente, existe essa “outra” realidade de que falam numa terceira pessoa como se essa subsistisse a toda realidade humana, sendo fundamentalmente as entranhas dela.

E aí? Pergunto-me eu, e se fossem essas as entranhas dessa realidade objetiva de interesses perpétuos entrincheirando espaços que se julga normalmente adequado à ideia de sobrevivência quando se pode notar, também, a tênue linha que separa a questão de sobrevivência em relação a da escravidão quanto aos fatos.

 

A ideia sobre "peter pan"

Pois se torna necessário refletir sobre o ponto de partida acima como uma resposta relutante em se admitir fatos concretos, e que são abstrações de natureza ocidentais e compulsórias quanto à cultura em que se manifesta a sociedade.

Pode-se chamar de “senso comum”, embora tenha, nesse sentido, um crivo pejorativo de um estado de crenças “naturais” a respeito de uma forma dada pela organização da vida em sociedade. Mas não.

O “senso comum” aqui é sim um objeto de espelhamento da realidade psíquica em que acreditamos viver por coabitarmos o mesmo espaço geográfico, embora não ocorra de mesma forma quando se trata de espaço subjetivo.

Essa é real diferença na perspectiva de quem cresce como “Peter Pan” em sua “Terra do Nunca”, por que?

A ideia da conquista de um realidade subjetiva de aventuras e de odisseias como as narradas em livros é tópico do sonhador, daquele que se encanta com a perspectiva de futuro possível, ainda que imaginário, mas vivenciado pela realidade subjetiva de sua interpretação sobre sua ação quanto ao mundo. É quando dizem: “Síndrome de Peter Pan!”

 

um mundo novo possível

Quando se toma uma trilha com que se envereda pela mata alta, a sensação de quem se sente absorvido pela caminhada é também a de um “estar consigo” todo “conectado” à realidade da mata, por uma questão instintiva que faz do ser humano quem é durante um processo de jornada. 

Por exemplo, enquanto digito aqui no computador, o som que me ocorre à memória é a de quem digita em um teclado de uma velha máquina de escrever, no meu caso, a que provavelmente usei para redigir meus primeiros escritos “literários” em minha segunda infância, quando entrei em contato com o mundo literário, sendo esse apenas um outro mundo possível.

E essa é, aqui, minha principal questão para a reflexão sobre a qual me dedico: por inúmeras vezes ocorre na vida da gente esse momento de transformação da realidade através da interpretação que fazemos dela, quando se espera uma mudança também das circunstâncias de vida em que nos encontramos, e a isso nós podemos de chamar de “capacitação” humana.

Os “mundos possíveis” são, portanto, exercícios de futuros alternativos em um campo de atuação profundamente dinâmico em que formamos nossas relações subjetivas de interpretação de mundo. 

Em nosso relato, as narrativas ficcionais de “As Ilhas Virtuais“, por exemplo, são registros de passagens por eventos com os quais aprendemos.

Elas fornecem alternativas de visão a respeito de momentos pelos quais passamos de maneira muitas vezes comum e não sabemos. É, então, que procuramos sanar as nossas dificuldades pelo que se compartilha de comum, a título de crescermos como comunidade mais ampla, daí alguns futurologistas tratarem do conceito de “Arquipélago”.

 

A distopia do sem lugar

Em realidade de um mundo subjetivo tão determinista e raso pela inflexão da existência de suas partes, esse estará condenado mais a servir de prisão e à escravidão de seus sujeitos, do que à liberdade de reflexões desses mesmos sujeitos quanto a novos mundos possíveis, nos quais estão as soluções reais para desafios que são novas margens de limites às ações sobre o mundo.

Hoje, 05 de outubro de 2018, é uma manhã leve de Primavera com nuvens contra o horizonte. A natureza da vida tem seu ritmo e isso deve ser levado em conta quando pensamos que nuvens são passageiras, e que tormentas no oceano são comuns pela própria natureza da jornada em alto-mar.

Seguimos em frente, esperançosos.

Gi Nascimento

De nosso diário de bordo, 05 de outubro de 2018