Fronteiras da Cidade Dividida
Nossa língua pode ser vista como uma cidade antiga: um labirinto de pequenas ruas e praças, de casas velhas e novas, e de casas com extensões construídas em vários períodos; e tudo isso circundado por uma profusão de áreas modernas, com ruas regulares e retas e casas uniformes.
Wittgenstein Investigações Filosóficas
O rosto da maturidade: uma face languida ao despertar para um quarto vazio, de corpo nu à vida, como se sempre houvesse a necessidade de amparo, quando muitas vezes um colo, mais do que o sexo, mais do que palavras, apenas o colo silencioso bastaria para lhe cobrir de segurança, pois mesmo a maturidade precisava de amparo.
No parapeito da janela, apenas sombras passageiras de uma sensação estúpida de não ser compreendida. Era mulher, de fato, e o que menos lhe importava naquele momento seria saber quem transpirava sob sua pele, ou se a mesma se sentia maltratada por um arrepio, ou se naquele curto descobrir de seu sexo havia o peso de certo pudor, de certo receio. Nada lhe vinha a memória, lenta e temerosa, a não ser cenas tão breves de um passado distante, e que a fez estar ali, que facilmente passariam por resquícios dos sonhos noturnos.
O cheiro da madrugada ainda percorria as paredes cercadas de tábuas e tábuas de mandamentos que, lentamente, a sugavam da cama e a chamavam à rotina, pois, embora a evitasse, ela estava lá a sua espera.
De pé, Helena pousou sobre os ombros uma manta qualquer recolhida do guarda-roupa, reparando ela mais nos fios soltos do tecido que a cobria do que como ficava ele em seu corpo. E, embora se visse no espelho da porta entreaberta do quarto como uma mulher bonita, sentiu-se desencorajada a pensar de tal modo, recolhendo imagens do seu reflexo sem ao menos se dar conta de quem nele estava refletido. Outra mulher, dentro dela, dentro e tão fisicamente distante, aleatória, confundia-se com os brancos nevoeiros que admirava, pois nos nevoeiros se via tão bem: um plágio perfeito do intocável, do todo completo e surpreendentemente ausente. Ouvia, então, de não muito longe, os toques da velha em sua máquina de escrever. Abaixou a cabeça, desarmada, pois começava a considerar que em nada a senhora Lorena Maya influíra entre ela e Ivan, porém era ela, sim, era ela quem tinha sobre si o efeito devastador de se autoanular. A culpa, para quem a expiação convém a outro, bastou-se na referência de sua nudez: antes o âmago a alimentando, lhe arrebatando as camadas, uma a uma, tantas máscaras, que, finalmente, não havia mais o que arrancar; estava nua para o mundo; estava acuada pela própria imagem e dela sentiu repulsa. Esquivou-se do espelho, voltando com um andar omisso à cama, onde sentou-se, tendo as mãos juntas contra os lábios. Fitava o vazio aparente da luz do dia atravessando a janela e se colocando, como palco de todos os personagens que viveu, no chão, no raso piso atapetada do quarto, que não brilhava, que sequer se coloria, porém era tão branco quanto as brumas onde o princípio podia ser visto claramente... E só então fechou os olhos.
O Espetáculo do Traço de Mafe