Em E começa e termina

Em "E" começa e termina

Do corredor, Ivan não avistava quem Lorena havia chamado pelo nome. Procurou sem êxito essa terceira presença, sem contudo sair do lugar. Deu com os objetos e os móveis da casa como se esses fossem um preambulo para o que lhe viria. Enquanto se distraia de modo pouco convincente, viu de relance que sua anfitriã seguia a um quarto do outro lado da sala, aonde entrou e desapareceu. Ivan, observando uma pequena estatueta de marfim que se encontrava numa estante de livros, pensou que talvez o ponto alto da sedução feminina  fosse o prazer da fantasia antecipando o prazer da carne. E foi além, pois aquele objeto que representava uma mulher nua, de grande barriga e de grossas pernas, o levava a crer numa fertilidade mais onírica do que física; era um plágio de uma estatueta mediterrânea, venerada por antigos povos por simplesmente representar o que esses povos mais desejavam: a fertilidade de suas terras, de seus animais, e de sua mulheres. Uma deusa. Não por acaso ela estava ali à entrada de um mundo sem o qual a palavra vida não teria significado, pois nenhuma planta e nenhum animal existiria sem ela. Ídolos de pedra, palavras de marfim. Na estante haviam outros, porém nem sequer um livro, fato que chamou a atenção de Ivan. O silêncio era uma constante apesar de haver na sala, num volume muito baixo, o som de uma música oriental; a melodiosa cítara era tocada incólume, não haviam dedos que a trançavam em notas, apenas o frio e ébrio aparelho de toca-discos com seu chiado inconfundível.

Junto ao teto da sala, a intensa fumaça de incenso meditava tenazmente um mundo à parte. Abaixo, entre o biombo de madeira e a porta do quarto, provavelmente estava a mulher que se chamava Helena — e provavelmente nua. Ivan advinhava a nudez dela pelas roupas que estavam ao chão e próximas à janela. Havia entre o biombo e a janela uma mesa de centro sobre um tapete de linhas e cores orientais. O biombo, aberto de modo a esconder parte da sala dos olhos de quem pela porta da frente da casa entrasse, deixava entrever nos vãos de seus desenhos uma fugaz silhueta de alguém que, atrás dele, se encontrava. Antevia-se um sofá, e sobre o braço deste, uma densa cabeleira de cor castanha. Ivan animou-se a caminhar à sala, mas não desejava acabar de vez com o suspense em que já se detinha, pois queria guardá-lo. A fantasia era uma expectativa de que algo acontecesse, mas algo que o arrancasse da rotina, que desvendasse seus olhos para um outro mundo. Esse era o ponto alto de sua fantasia e Ivan sabia disso. Um outro mundo, menos óbvio e pragmático, mais perfilado pelo acaso, pelo imprevisível, pelo onírico. Desse modo, Ivan foi à janela, sabendo que às suas costas estava a mulher a quem, por jogo, por desejo, evitava dirigir seu olhar. E ele a imaginava, e a imaginava nua, deitada de lado sobre o sofá, como uma odalisca de pele morena, de corpo bem delineado, índico. Diante dela, talvez estivesse o incenso ao chão e entre o sofá e a mesa. O dançar da fumaça do incenso talvez estivesse hipnotizando os olhos escuras da mulher; ou talvez a música deslizasse sobre o rosto dela uma expressão dolorazamente prazerosa. Ivan estava de costa à Helena, como também para aquele mundo de sutis perspectivas, mas intensas incursões. Ele fitava pelos vidros úmidos da janela o mar, e era-lhe o mesmo que fitar os olhos e a boca da imagem que ele fazia de Helena. Nada mais justo, pois perderia-se em ambos.

Mas sem se perder, Ivan virou-se devagar e Helena se materializou em um sorriso. E era um sorriso dotado por um mágico artifício feminino: saber, mas disfarçar que nada sabe. Helena estava deitada sobre o sofá como Ivan a havia imaginado, porém ela cobria-se com uma leve manta branca que se estendia dos seus calcanhares até seus ombros. De resto, era Helena um vago plágio da imagem que Ivan fantasiara.

Ela o encarava nos olhos. Tinha um ar de quem esperava dele qualquer coisa quando, sem pressa, sem qualquer sinal de vontade, lhe perguntou:

— Você tem um cigarro?

Era de um modo muito suave, sutil, que Helena usava as palavras. Não parecia precisar fazer uso delas para que, no íntimo, Ivan soubesse o que realmente ela desejava. Bastava ver seus olhos francamente abertos como duas garras. Ivan se aproximou, o que fez Helena se mover sobre o sofá; a manta que a cobria se despiu em ondas, despindo também um oceano profundo de uma pele solar. Ele não deixou de fitar os seios que com o movimento de Helena se fizeram nus: eram tão firmes quanto bem contornados. Os cabelos lisos de um castanho claro escorriam pelo pescoço branco e se ajeitavam em mechas sobre o ombro esquerdo nu ao que Helena veio a esticar o braço direito para alcançar o cigarro entre os dedos de Ivan. Ela tinha a mão e os dedos finos. Seus olhos encaravam os deles com uma sensualidade de quem desejava conhecê-lo até a alma. Ivan deu-se conta de que também ela, além de Lorena, o lançava a uma sensação de estar caminhando por gestos indecifráveis, principalmente ao que ela o fitava daquele modo tão particular, cheio de entrelinhas e suspense.

Helena levou o cigarro aos lábios, deixou que Ivan o acendesse com o isqueiro que ele tinha entre suas mãos juntas, e depois, numa longa baforada, disse:

— Tenho certeza de que já nos vimos antes... mas onde? — perguntou ela com uma leve exclamação da voz, menos perturbada com a interrogação, porém mais motivada pela dúvida.

— Talvez... — Ah, esse talvez do acaso com que se fere uma provável fuga.

— Sim, talvez — concordou ela entrevendo um pequeno jogo nas palavras. Tinha nos lábios um sorriso ardiloso, o sorriso de uma mulher que não se faria complacente à toa ou mesmo se faria condencedente com o adversário, fosse ele quem fosse. Meditou, arqueou a sobrancelha direita e, baforando a fumaça de seu cigarro, afirmou:

— Não, não nos conhecemos; jamais vi você antes. Mas outro dia, alguém passou por mim e me atirou esse mesmo olhar com que agora você me olha.

— De um cão magoado?

Ela riu-se com singulariedade.

— De um macaco faminto.

— Não por acaso, imagino.

— Sim, certamente não por acaso... — disse ela para se expôr em uma longa e infindável reticência como se desse ato, desse espaço em branco, saltasse o seu próprio reflexo e daí lhe falasse: — Não tivemos muito tempo desde que tudo começou.

Ivan sentou-se à quina da mesa de centro, perscrutando com intensa vontade cada gesto que Helena então lhe fazia. Ela levava os dedos da mão que segurava o cigarro aos lábios, os delineando vagamente. Fazia-se alheia, mas Ivan sabia que no fundo ela esperava um gesto seu, mesmo que omisso. Ele hesitou, e foi seu erro. Sem dizer uma única palavra, Helena levantou-se lentamente do sofá, apagou o cigarro no cinzeiro que havia sobre a mesa de centro, e se foi para o quarto aonde provavelmente Lorena já a esperava. Na sala, Ivan se arrependia num jocoso olhar que ele destinava à porta então entreaberta.

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