O Beco (original)

O Beco.

 

Estava ao fim de um beco. Nele, pouco podia observar das paredes dos prédios que, abandonados, erguiam-se sombrios dentro da noite e sob a tênue claridade da lua. Com as mãos, orientou-se ao deslizar os dedos numa superfície áspera de metal. Era uma porta, e à soleira dela, sentou-se com uma interjeição de alívio. Sentia-se cansado.

Na solidão do beco, Jardes Jardins meneou a cabeça. O silêncio em torno era uma resposta sem corpo. Depois de tanto andar à deriva pelas ruas da cidade, o fato de encontrar apenas um beco, um fim, uma parada mesmo que momentânea, o levou a considerar aquela noite como perdida. Aliás, pensando bem, concluiu que era apenas mais uma que se perdia no despropósito de sua rotina. Assim, Jardes, mudo, censurava-se. No íntimo, e apesar de ser quase sempre festivo e alegre, escondia uma insatisfação que lhe corroia o espírito. Às vezes, esquecia-se dessa ausência incômoda de si mesmo; era quando, pelos caminhos que tomava, encontrava ao acaso uma pessoa com quem se divertia durante boa parte da noite. Nesses momentos, além do encontro e da diversão, nada mais lhe importava, nem seu trabalho numa firma de seguros, nem o quarto de pensão em que vivia como um gordo de intenso apetite sexual. De resto, era resto. Bastava-lhe o efêmero instante em que todas as coordenadas de sua vida estavam dispostas ao acaso, ao imprevisível, ao que ele mais apreciava: às risadas de algum bêbado alegre que no corpo senil da cidade encontrava razões para piadas sarcásticas e maliciosas. Era ele — Jardes Jardins, o “temível Jajá”.

Jardes, pensativo, tomou do bolso de sua camisa xadrez, um cigarro. O acendeu sem que com isso se desse conta que para além da chama de seu isqueiro, estava junto a entrada do beco, uma pessoa sob a claridade de um poste de iluminação pública. Essa pessoa, em questão, hesitava a entrar no beco, talvez por observar que nele alguém havia acendido um isqueiro, ou talvez hesitasse por esperar uma pessoa qualquer.

Do piso de concreto em que se sentava, Jardes levantou-se mais pelo incômodo que o piso frio lhe causava, do que pela consciência de que não muito longe dele, havia uma pessoa parada. Foi somente quando se colocou de pé que Jardes notou a silhueta da pessoa à entrada do beco. Tragou o cigarro.

 

Na calada da noite, o som de passos por um calçamento de pedra e entre um corredor de paredes de concreto e tijolos ganha volume e densidade, mas não um corpo específico. Era, portanto, difícil a Jardes apanhar na penumbra do beco a pessoa que se aproximava dele. Tentava, aguçando a visão, dar forma a quem chegava. No entanto, só uma sombra a avançar sem pressa na direção em que ele estava. Decidiu apagar o cigarro, e recuando dois passos para atrás, escondeu-se rente a porta de metal em que ele antes havia tocado. A pessoa, ainda avançando, agora hesitava. Parecia procurar alguém na escuridão que cobria os cantos do beco. Já muito próxima de Jardes, a pessoa sussurrou a um destinatário incerto: “Está quase na hora. Espere mais um pouco.” A pessoa, sob uma claridade tênue, ganhava forma. Pela voz, Jardes já identificava uma mulher. Agora, estando ela não muito longe dele, Jardes podia confirmar, de modo inseguro, um rosto em torno do qual caia longos e lisos cabelos. Achou estranho, perguntando-se o que ela faria ali, à aquela hora da noite, sussurrando à escuridão do beco como se nele houvesse alguém que já a esperasse? Por um instante, Jardes pensou em desfazer aquele equívoco, mas em seguida desistiu. Não sabia como a mulher iria reagir ao ter consciência de que não estava acompanhada por uma pessoa conhecida, mas sim por um completo estranho. Por outro lado, Jardes também não tinha intenção de interromper o que certamente ela planejava fazer com algum comparsa. Acima de tudo, sentia-se instigado. Da entrada do beco, uma segunda pessoa caminhava na direção em que a mulher estava, e não demorou muito para que essa pessoa alcançasse seu objetivo. Parou a uns dois passos da mulher, ficando imóvel por alguns segundos. Depois, passou a ela alguma coisa que Jardes não pode identificar. A mulher, por sua vez, recuou uns dois passos e com uma pequena lanterna, iluminou o objeto que havia recebido: era um pequeno livro de bolso. Apagando a lanterna, a mulher passou a andar despreocupadamente pela penumbra do beco como se alheia à pessoa.

— E então? — disse uma voz masculina em um tom calmo.

— Vamos esperar — dizia a mulher de modo alheio — ainda falta uma pessoa.

O sujeito que havia acabado de chegar se colocou mais junto à parede do prédio, - e quase sobre Jardes. Isso porque, estando ambos na parte mais escura do beco, nem um nem outro podia alcançar com a visão a presença alheia, porém Jardes sabia que o sujeito não estava muito longe, talvez a um passo de distância. O sujeito, do escuro, pediu a mulher que continuava a andar de um canto a outro como se passeasse:

— Você tem um cigarro?

— Não — respondeu ela quando de súbito parou. — Por que não pede a quem deve estar bem do seu lado?

O sujeito reagiu. No escuro, sua provável reação foi a de se afastar do lugar em que estava. Jardes assim imaginou porque ouviu o riscar do calçado do sujeito contra as pedras do calçamento no momento em que a mulher sugerira a ideia.

— Onde você está? — perguntou o sujeito a quem poderia estar ao seu lado.

Jardes acendeu o isqueiro em resposta. O globo luminoso que se fez em torno de sua mão, não alcançava seu rosto. Tomando com a mão livre um cigarro do bolso de sua camisa, ele o entregou ao sujeito. Em seguida, desligou o isqueiro e esperou. Não muito depois, o sujeito acendia o cigarro, iluminando, dessa forma, o próprio rosto.

— Obrigado — agradeceu ele ao que a chama do cigarro acentuava-se no escuro com uma forte tragada. Alguém, nesse instante, entrava no beco.

O ritual repetiu-se. A pessoa aproximou-se da mulher, parando imóvel por alguns poucos segundos, quando enfim entregou a ela um objeto qualquer. Com a lanterna, a mulher iluminou o objeto: tratava-se de um caderno pequeno e uma caneta. A mulher perguntou:

— Alguém sabe dizer que horas são?

O sujeito, em resposta, ligou o aparelho luminoso que havia em seu relógio de pulso, respondendo:

— Uma da manhã.

— Já devem estar a nossa espera — comentou ela. — Vocês estão prontos?

O silêncio dos três ponderou uma incerteza qualquer que pairava no beco.

— Foi o que eu imaginei — sentenciou a mulher que, com a lanterna acessa, passou a indicar um caminho.

Entraram em um corredor por uma porta estreita e rachada como se alguém houvesse, tempos antes, tentado forçá-la. No corredor, o foco luminoso da lanterna, apontado sempre à frente dos quatro, deslizava sobre uma umidade reinante: via-se com freqüência, nas paredes e no piso, o verde escuro de musgo; fios de água escorriam do piso superior até formar poças d’água nos desníveis do chão. A agitação de ratos pelos cantos era singular, porque, embora a luz da lanterna não a alcançasse, ouvia-se os agudos resmungos dos animais em polvorosa sob a invasão dos quatro. Jajá, sendo o último naquela curta fila indiana, tropeçava com mais freqüência nos desníveis do piso, pressentindo muitas vezes que não caminhava sobre uma superfície regular — imaginava sim, e assim se sentia, que o lugar pelo qual passava não se tratava de um corredor de um prédio abandonado; era um corredor, com toda certeza, mas de uma construção tão antiga quanto imprevisível de datar. A rigor, sua sensação era a de que entrava numa pirâmide maia, asteca, isso porque, no escuro, sem outra referência além da claridade da lanterna mais à frente, seus passos adiantavam-se ao anônimo do vazio, ou mesmo, ao nada, e apesar de caminhar no mesmo ritmo dos demais, quase a passos largos, a insegurança o tomava mais do que parecia tomar os outros três.

Ao fim do corredor, bastante extenso para quem, naquela altura, já pensava em recuar, encontraram um lance de escadas. Não havia corrimão e os degraus eram tão úmidos quanto o piso e as paredes do corredor. O cheiro, ali, era repugnante. Entre a claridade da lanterna e a escuridão do corredor, subiram ao andar superior sem qualquer problema, e nele, à direita, encontraram uma porta que se abria de par em par. Foi nesse instante que, diante da porta fechada, reuniram-se em um círculo. Tentando evitar a luz da lanterna, Jardes ficou mais à parte, notando que à sua esquerda, havia um outro lance de escadas. A mulher que carregava a lanterna disse:

— Se alguém pensa em desistir, esse é o momento — Ela tinha o foco da lanterna contra o próprio rosto. Jardes fitou-o com certa curiosidade. Não havendo resposta negativa nem da parte dele, nem da parte dos outros dois, a mulher desligou a lanterna. Ficaram, então por alguns segundos, num breu completo. “Deem as mãos” ouviu Jardes da mulher.

Procurar mãos no escuridão reinante foi tatear no invisível uma forma abstrata. Jardes estendeu ambos os braços à frente de si, balançando-os lentamente em círculos. Deu com a cabeça de alguém em seu punho, e esse alguém resmungou, engatilhando entre seus dedos o punho perdido. A Jardes, ainda faltava uma outra. Ele, balançando do mesmo jeito, porém mais abaixo, sua mão livre, deu com algo macio que conhecia bem. A pessoa em si não gostou do toque, empurrando com o antebraço a mão desorientada, e avisando: “olha o que faz com essa mão”. Jardes achou irônico, porque sequer conseguia avistar o que havia a um palmo de seu nariz, quanto mais ver em que pontod da pessoa tocava. Demorou um pouco para que ele, então, encontra-se um braço. Desceu pelo membro até finalizar num punho firme. Depois, encontrou os dedos entre os quais seus dedos se entrelaçaram. Sentiu, nesse instante, uma satisfação infantil. Era como se estivesse participando de uma brincadeira na qual os demais deveriam ser encontrados naquela escuridão reinante. Lembrou-se de “cabra-cega”.

Seguiu-se o ranger da porta sendo aberta de par em par. Juntos, os quatro deram uns poucos passos. Provavelmente, cogitava Jardes, estavam no ambiente para o qual a porta se abria.

— Chegamos — anunciou a mulher.

Jardes, a isso, não pode deixar de dizer de modo desconcertante:

— Chegamos?

— Sim — confirmou a mulher. Jardes quase perguntou “onde?”, mas se deteve, pois de súbito deu-se conta de que se denunciaria. A mulher disse: — Podemos nos sentar agora.

Sem outra aparente alternativa, sentaram-se no chão. Ouviu-se ruídos de alguém que vasculhava os bolsos.

— Têm um cigarro? — interrogou o sujeito que antes já havia pedido por um.

No escuro, Jardes tirou do bolso o que o sujeito pedia e, sem saber em que direção o sujeito estava, deixou sua mão estendida à frente com o cigarro entre os dedos.

— Tenho — confirmou Jardes.

O sujeito acendeu o seu isqueiro de modo a clarear o centro do pequeno círculo. Com a claridade e a proximidade dos quatro, Jardes ficou a descoberto. No entanto, nenhum dos três parecia se importar com sua presença estranha. Na verdade, pareciam até que entre eles mesmos não havia um conhecimento mútuo. Talvez ali, ponderou Jardes, fossem os quatro desconhecidos entre si.

O sujeito tomou o cigarro da mão de Jardes. O acendeu e só então apagou o isqueiro.

— E agora? — perguntou o sujeito entre tragadas que acentuavam a chama do seu cigarro. A resposta lhe veio no ruído de páginas sendo rasgadas:

— Me empreste o isqueiro — pediu a mulher.

A chama do isqueiro precipitou-se novamente ao centro do círculo. “Queime”, disse a mulher ao sujeito, referindo-se as páginas rasgadas do pequeno livro e as páginas em branco do caderno de notas, todas amontoadas ao centro do círculo. Logo se materializou as chamas de uma tímida fogueira, momento em que se ouviu um murmurar de palavras que partia dos lugares em que a claridade da fogueira não alcançava. O oscilar das chamas remetia a um jogo de sombras em torno das quais estavam vozes alheias aos quatro no círculo. Jardes, não sabendo o porquê, tinha vontade de rir. Os demais, estavam sérios e compenetrados. E de súbito, estavam os quatro numa sala ampla, banhada pela luz matinal que passava por uma porta de vidro que, por sua vez, deixava exposto, para além dela, uma sacada. Da escuridão à claridade total num piscar de olhos. O impacto da mudança só foi compreendido por Jardes alguns segundos depois e a partir do momento que, sem avisos, a mulher se ergueu do chão. Jardes sentia-se confuso.

— Onde estamos? — perguntou ele desorientado. A claridade do dia lhe ofuscava um pouco a visão.

— No “entre” — ouviu ele como resposta.

— Entre? Entre o quê? — retrucou ele, esforçando-se para avistar de maneira mais nítida a mulher que, de pé, seguia até a porta de vidro.

— Entre o que está para vir, e entre o que já foi. Entre o que imaginamos e o que não podemos imaginar. Entre o que foi dito e o que será ainda dito. “Entre”.

A outra mulher, de quem agora Jardes tinha completa visão, ponderou:

— Então quer dizer que ainda não cheguei...

— Não. Você ainda está a caminho — disse a mulher que, junto à porta de vidro, se ocupava a observar o que havia para além da sacada. Retornando de lá calmamente, parou a um passo de onde estavam os demais e disse: —  estamos todos a caminho.

— Imagino que isso signifique — dizia o sujeito — que estamos juntos nessa, não?

— Sim, ou todos, ou nenhum de nós.

— Interessante... — comentou ele pensativo.

A mulher que estava de pé era baixa, vestia uma saia preta e uma camisa preta que curiosamente lhe colava ao corpo. Parecia úmida de suor. Ela, colocando parte do cabelo negro que lhe cobria o rosto atrás da orelha num gesto condicionado, disse:

— Sintam-se à vontade.

A outra mulher deitou-se para trás e sobre o piso atapetado. Cruzou as mãos sobre a cabeça e ficou observando o teto da sala. Era uma mulher grande, notou Jardes, que se deixava ficar como uma menina: seus olhos de uma lucidez infantil se aventuravam a compôr com o novo espaço uma familiaridade ingênua. Fisicamente, contudo, a mulher destoava: tinha os ombros largos de uma nadadora profissional, a altura e um aspecto masculino, principalmente por causa dos cabelos curtos, quase raspados ao couro cabeludo. Se não fosse os grandes seios, passaria por um oficial das forças armadas.

— Acho que precisamos nos apresentar — disse ela de modo pensativo.

— Sim — confirmou a outra, prosseguindo: — já que vamos ficar juntos a partir de agora, acho que sim.

— Como você se chama? — interrogou a que estava deitada com uma expressão de curiosa simpatia.

— Lorena, Lorena V. Maia. E você?

— Laura Lins.

Ambas voltaram-se a Jardes que, nesse instante, erguia-se do chão.

— E você? — perguntou Lorena.

— Jardes Jardins — respondeu ele sem muito interesse e já a caminho da porta de vidro. Atrás de si, ouviu o sujeito dizer: “Cristian Dorfe”.

Jardes parou, surpreso, junto a porta de vidro. Do lado de fora havia uma sacada que, cercada por uma mureta cheia de adornos, dava para uma rua — uma estranha rua, uma rua perdida no tempo, ladeada por fachadas antigas de prédios com, no máximo, três pavimentos. Nela, não havia sinal de vida. As calçadas eram estreitas e o pavimento era de pedra. Jamais Jardes havia visto uma rua como aquela, de modo que agora a pergunta anteriormente feita, se repetia com um outro sentido: “onde estamos?”.

Em torno da porta de vidro havia uma cortina de tecido fino e quase transparente. Ao que Jardes a tocou sem que com isso tivesse consciência de que a tocava, Lorena, não muito longe dele, pediu:

— Cuidado para não rasgar a cortina.

— Como? — retrucou ele sem entender.

— A cortina, você está puxando a cortina.

Estava, de fato, a puxar o tecido com o peso que sua mão exercia ao se firmar na cortina e a se servir dela para dar apoio a todo seu corpo. Jardes se afastou.

— Onde fica o banheiro? — perguntou Laura do chão.

— Não faço ideia — respondeu Lorena.

Laura ergueu-se. Havia um estreito corredor junto a porta de entrada do apartamento. Passando por ele, Laura encontrou duas portas à sua direita e uma terceira ao final. Foi nessa última que, abrindo-a, encontrou o banheiro. Entrou e fechou a porta atrás de si.

Na sala haviam ficado os demais. Os três caminhavam de um canto a outro. Pareciam estudar a nova situação com olhos alheios. Lorena estava com suas costas apoiada a parede branca em que se notava um quadro exposto sem moldura. Cristian, por sua vez, media os passos com uma expressão sombria. Vinha e ia pela sala sem aparentemente dar a entender que nela estivesse. Jardes, deixando de fitar pela porta de vidro a rua, veio a caminhar em direção à porta principal. Passou por Cristian, ignorando-o por completo. Quando ele alcançava a porta, Lorena lhe avisou:

— Está trancada.

Ele voltou-lhe um olhar interrogativo e desconfiado:

— Por que?

— Não há volta daqui.

Jardes forçou a maçaneta. Laura retornava do banheiro.

— Não sei quanto a vocês, mas esse lugar é um pouco estranho, não? — disse ela.

— Por que? — retrucou Cristian.

— No banheiro têm duas latrinas e uma mangueira.

— E daí? — insistiu Cristian.

— Não têm chuveiro, nem pia...

Cristian bufou indiferente. Jardes disse:

— Vai ver que antes tomavam banho numa bacia, ou usavam uma bacia como pia.

Laura não gostou do tom irônico com que Jardes falara, virando-lhe o rosto e voltando a esquadrinhar o apartamento. Começou pela sala. Ali estavam uma mesa de tampo de vidro e circular, com somente duas cadeiras de madeira, depois apenas o quadro a parede. Passou ao primeiro quarto que ficava no início do corredor. Nele encontrou um sofá velho e um bibelô sobre um criado mudo. Em torno da unica janela, havia o mesmo tipo de cortina que estava na sala. Do primeiro quarto, Laura passou ao segundo, encontrando, neste, apenas um colchão, duas mantas de algodão dobradas a um canto, e uma cômoda branca junto a unica janela que no ambiente havia. Ao retornar à sala, foi abordada com uma pergunta apática:

— E aí?

Ela balançou a cabeça negativamente a Cristian que, enquanto tragava seu cigarro, se fazia alheio aos outros dois. Jardes, desistindo de abrir a porta, cogitou:

— Por que não arrombamos essa porta? — Estava irritado.

Lorena calmamente se afastou da parede e esclareceu:

— Porque isso não faz parte do caminho. — Voltando a se pôr junto à porta de vidro, ela disse com os olhos postos para a rua — Não se preocupe; mais cedo ou mais tarde essa porta irá se abrir.

— Como você pode ter tanta certeza? — perguntou Christian com frieza. Lorena não respondeu. Sugeriu apenas que esperassem pelo momento certo.

— E enquanto isso? — interrogou Jardes ainda atento à porta principal.

Lorena bateu de ombros assim que Jardes a fitou, depois respondeu:

— Já disse, fiquem à vontade.

Jardes, pensando alto, murmurou: “espero que aqui tenha comida”; passando a uma porta que estava à sua esquerda. Abriu-a sem dificuldades. Era justamente o que ele estava procurando, a cozinha. Entrou e familiarizou-se resignadamente com o ambiente. Haviam três pias que se ajustavam a parede circular da cozinha. Sobre cada uma das pias, havia uma toalha de louça. A primeira era de cor vermelha, a segunda de cor amarela, e a terceira de cor laranja. Ao centro, estava uma espécie de balcão redondo que tinha abaixo do tampo, várias prateleiras com talhares, pratos e copos. Os talheres eram feitos de latão, os pratos de tábuas de madeira e os copos eram de plástico. Entre os copos, estavam perdidos duas xícaras de porcelana, cada qual sobre um pires de mesmo material. Era a unica coisa que ele realmente não estranhou.

— Onde está a comida? — perguntou-se intrigado.

De súbito, Lorena apareceu a porta da cozinha. Tinha no rosto, uma expressão vazia. Sem dizer uma unica palavra, meneou a cabeça e se afastou. Laura, em seguida, ocupou o lugar em que Lorena havia parado.

— Tem alguma coisa pra comer? — perguntou ela.

— Não, nada — respondeu Jardes que, nesse instante, segurava na mão um dos copos de plástico e com ele se servia de água na primeira pia.

— Eu falei que esse lugar era estranho... — disse Laura ao avançar pela cozinha até ao balcão. — Por que será que aqui é tudo redondo?

— Como? — interrogou Jardes repentinamente atento.

— Redondo — repetiu ela, explicando em seguida: — A cozinha é redonda, as pias são redondas, as toalhas são redondas...

Jardes fitou o copo na mão.

— Os copos... — pestanejou ele, adiantando-se ao balcão. — Está tudo de acordo com os utensílios. Copos, canecas, pratos...

— Exceto os talheres... — observou Laura. — Não é estranho? — acrescentou ela de modo pensativo.

— Ei, vocês dois! — chamou Cristian da porta. Ambos o fitaram quando Cristian se colocava mais próximo. — É melhor ficarmos todos juntos — disse ele ao que apagava seu cigarro num dos pratos de madeira. Seguindo ele à segundo pia, retirou de cima dela a toalha de cor amarela. Colocou-a sobre o ombro e, tendo as mãos livres, passou a enxaguá-las sob a torneira de onde escorria água. — Acho que devemos fazer alguma coisa para passar o tempo nesse lugar — dizia ele enquanto lavava as mãos — porque desconfio que não sairemos tão cedo daqui.

Jardes afastou-se do balcão e tirou do bolso um cigarro. O acendeu desatento e mediu de alto a baixo Cristian que agora secava as mãos com a toalha amarela. Cristian parecia ter uns trinta anos. Apesar de bem vestido, (usava uma calça de algodão preta, e uma camisa de cor azul clara), era relapso com sua aparência. A barba estava por ser feita e os cabelos não estavam penteados.

— O que você faz da vida, Cristian? — perguntou Jardes de modo alheio, quase sem muito propósito, enquanto baforava a fumaça de seu cigarro. Cristian, por sua vez, fitou-se mais acentuadamente. Jardes esclareceu: — É só uma pergunta pra quebrar o gelo, sabe? Não foi você quem disse que precisávamos passar o tempo? Pois bem, podemos falar de nós mesmos, o que acha?

Cristian concordou, respondendo:

— Estou desempregado — dizia ele ao recolocar a toalha no lugar do qual a havia retirado — pelo menos até agora. Faço pequenos serviços, concertos, pinturas, essas coisas. E você?

— Trabalho numa firme de seguros — respondeu de alguns segundos Jardes sem qualquer traço de ânimo. — Não é nada de especial — acrescentou ele de mesmo modo.

Com um sinal, Cristian repetiu a mesma pergunta à Laura que, por sua vez, disse:

— Sou guia de eco-turismo nos finais de semana e, durante a semana, estudante e instrutora de uma academia de ginástica.

Jardes esboçou um sorriso, comentando:

— Vida agitada, hein?

— Bastante — confirmou ela.

Rindo, Jardes questionou com bom humor:

— Digam a verdade: vocês sabem o que estão fazendo aqui? Por que eu ainda não sei e nem faço ideia...

— Não? — retrucou um pouco surpresa Laura. Jardes, em resposta, meneou a cabeça, o que fez com que ela prosseguisse: — Eu, pelo menos, sei o que estou procurando. O que eu faço exatamente aqui, não sei.

— É simples — disse Cristian —  Acho que estamos de passagem para o que a Lorena chamou de “novo mundo”, e o que talvez esteja acontecendo conosco seja um tipo de “purgatório”.

— Purgatório? Que palavra estranha que você foi escolher, hein? — disse Laura.

— Inferno de Dante — acrescentou Cristian — Já leram? — Seguiu-se então gestos negativos como resposta. — Bom, eu não tenho muito certeza mas... aquele corredor que nós passamos, e depois a escada e... bem, parece a passagem do inferno pelo purgatório da Divina Comédia.

— Então, senhor desempregado, você lê livros, não — concluiu de súbito Jardes. — Isso explica mais ou menos sua inaptidão ao emprego.

— Isso é pra ser um insulto gratuito? — repreendeu Cristian.

— Não, apenas uma rápida observação que me veio à mente. Intelectuais não se dão bem com o trabalho, não que sejam preguiçosos, mas... Você faz o tipo intelectual. Escreve?

— Isso faz diferença?

Jardes bateu de ombros enquanto expelia a fumaça do seu cigarro.

— O trabalho que você vê — dizia Cristian — não é, ao contrário do que alguns dizem, edificador do espírito humano, mas sim de um corpo gordo e lento.

— Bem nutrido, você quer dizer — disse Jardes sem se importar com uma resposta.

— Não, o trabalho que você vê deixa gordo e lento não apenas o corpo, mas também o raciocínio e o pensamento. O trabalho deixa qualquer pessoa impotente, porque...

— É escrava? — sugeriu Laura.

— Sim, porque escraviza.

— Engraçado nós estarmos falando sobre isso... — pestanejou Laura. — Nos últimos dias era mais ou menos assim que me sentia em relação às coisas que eu estava fazendo. Foi por isso, acho eu, que acabei aceitando a ideia de participar dessa seita.

Jardes apagou o cigarro no mesmo prato que Cristian havia apagado o seu. Em seu íntimo, Jardes pesava a palavra “seita” com um certa preocupação. Fitando Laura de relance, Jardes entendeu que ela havia notado sua súbita mudança de comportamento: ele havia perdido o sorriso e a segurança desde que ouvira a palavra “seita”; agora, Jardes retomava o sorriso e disfarçava a insegurança com ele. Sorria à Laura ao dizer:

— Temos um bom começo. Por que não chamamos nossa, ao que está me parecendo, anfitriã? Talvez ela faça também suas revelações, não?

— Tenho a impressão de que você não conseguirá nada dela — antecipou-se Cristian.

— Tudo bem — disse Jardes. — Também tenho essa impressão, admito. O curioso é que sei que as pessoas se denunciam involuntariamente; e não sei disso porque li um livro ou outro, só pra citar nomes de defuntos, sei na prática.

Cristian deu uma gargalhada:

— Com toda a certeza! Principalmente porque você é o Homem que trabalha com a desgraça alheia! O homem do “seguro de vida”!

— Você tem razão, você tem razão — repetia Jardes com indiferença. — E por que não dizer que aprendi muito com o que faço? Sou convidado a entrar numa casa onde encontro um casal de velhinhos: ele numa cadeira de rodas; ela sã, mas temendo o futuro, o que você acha? Precisa ser gênio para entender o que está se passando ali? Não. Não preciso recorrer a livros pra entender o medo, não. O medo a gente sente na pele e isso é comum, de fato, a qualquer um de nós, aliás — pestanejou Jardes — o medo é o que nos faz realmente socialistas!

— Isso é profundo — sentenciou Cristian. — Mas é irônico também.

— O problema é que ainda não temos o que comer — interveio Laura agitando-se entre os dois. Andava de um canto a outro de modo alheio. — Pra mim, por mais que vocês dois filosofem, a realidade é essa: precisamos comer alguma coisa, não?

— Sem dúvida — concordou Jardes.

Cristian, pensativo, sugeriu:

— É melhor falarmos com Lorena pra ver o que pode ser feito.

— Pode deixar, eu vou falar com ela a respeito — disse Laura com inquietação. Logo depois, ela deixou a cozinha a passos largos, e não demorou muito para que da sala, ela chamasse por ambos.

Jardes e Cristian passaram à sala. Nela, encontraram Laura junto à porta de vidro. Ela estava inquieta, embora imóvel. Dava para notar que seus olhos se perdiam na luminosidade do dia que banhava a rua. Com os braços cruzados sobre o peito, ela avisou:

— Lorena não está no apartamento.

Nenhum dos dois se surpreendeu. Aproximaram-se de Laura sem pressa, parando ambos à porta de vidro. Jardes enfiou as mãos nos bolsos da calça e se resumiu a um ar alheio e despropositado. Cristian, girando a maçaneta da porta, deu com ela aberta. Passou à sacada e, uma vez ali, olhou em torno. Retornou calmamente.

— Não tem ninguém lá fora — disse ele ao fechar a porta atrás de si.

— Isso quer dizer que estamos literalmente sozinhos no mundo — disse Jardes de modo confuso e pensativo.

— Não sei se isso pode ser possível Jardes — cogitou Laura que estava inflexível no que se referia a idea da ausência de Lorena. Pensava, um pouco tensa, no que representava a mulher que os levara até ali. Era ela sem dúvida uma espécie de guia, contudo, ela havia dito que estavam todos juntos, e que o caminho de um era o caminho de todos. Agora, por detrás disso, havia um sinal de que ela era quem... — Não podemos ser as únicas pessoas nessa cidade, mesmo porque, se não estou ficando louca, não deixamos a nossa cidade. Mas essa rua...

— Olha, Laura — principiou Jardes — faz algum tempo que caminho pela cidade, e pode ter certeza: jamais passei por uma rua como essa.

— Como você explica que estamos diante dela? — retrucou Cristian sem se alterar.

— Sinceramente não faço ideia.

Laura refletia: “um caminho, ela disse que estávamos todos num caminho só, ou eram os quatro ou nenhum.”

— Estou ficando cansado disso — exclamou resignadamente Cristian. — Começo a me arrepender de ter ouvido o papo idiota daquele artista plástico de merda!

— Quem? — perguntou Jardes.

— Um tal J. Filho — respondeu Cristian. — Eu conheci esse filho da puta antes de ele ter ficado famoso. Era um medíocre pintor de cenários urbanos. Depois, não sei porque milagre, o desgraçado passou a pintar realmente. Quando eu encontrei ele num café em que estavam expostos os quadros dele, fiquei intrigado. O cara tinha mudado radicalmente! E aí, numa conversa informal, ele me falou da seita...

Novamente a questão da seita retomou os pensamentos de Jardes. Cristian, ao pôr a mão contra o queixo barbado, prosseguiu:

— Agora começo a desconfiar de que essa seita não existe, estamos sendo enganados e alvos de alguma brincadeira idiota.

— Não tenho tanto certeza — disse Laura inalterável. — Eu soube da seita por uma mulher que fazia canoagem comigo. Ela se chama Valéria. É do tipo esotérica, sabem? Do tipo que é amor e paz e leva a vida numa boa. Eu, que realmente não suportava mais ficar trabalhando, trabalhando, e nunca encontrar sossego, fiquei com uma certa inveja. Eu queria era parar um pouco. Quando conversamos a respeito da vida, das angústias, etc; ela me falou que a resposta estava num caminho particular, e eu não entendi bem o que ela queria dizer com isso. Foi quando ela me contou da seita, e o que aconteceu com ela durante o caminho que ela havia tomado com um grupo de sete pessoas. Achei tudo pura fantasia, mas admito que no fundo fiquei curiosa. Decidi participar. Tinham dado como senha um caderno de notas, aquele que Lorena queimou junto com o livro. Achei, aliás, que no momento em que ela queimava as folhas, fosse o momento que Valéria tinha me falado, a da tal viagem pelo caminho particular. Um caminho, pelo que ela me disse, que é único, mas feito de muitas formas diferentes. Só que realmente estou na dúvida se ela me disse tudo o que sabia.

Laura silenciou-se. Sua fisionomia era abstrata, uma incógnita que só poderia ser apreendida por Jardes e Cristian se esses pudessem percorrer os pensamentos de Laura. “O caminho é um só”, refletia ela, apertando entre os dedos das mãos uma imagem que lhe corria pela mente de modo insistente.

— Venham comigo — disse ela, levando uma das mãos à maçaneta da porta que, uma vez destravada, deixou livre a passagem à sacada.

Pararam os três na sacada do apartamento. Na rua, continuava a ausência de pessoas.

— E agora? — perguntou Cristian fitando a rua abaixo da sacada.

— Ainda não sei.. — admitiu Laura que tinha suas mãos agarradas à mureta. — Mas deve ter uma razão pra que ela tenha repetido que estávamos juntos nisso.

Jardes, que estava desinteressado pelo que Laura sugeria, escorou suas costas à forma da porta entreaberta. Puxou um cigarro do bolso da camisa e o acendeu. Uma leve brisa fez com que a chama tombasse numa direção. Desse direção, não soube Jardes dizer a razão, ele teve um pressentimento de que alguém o observava.

— Psi! — ouviu de súbito.

Os três, então, voltaram-se à mesma direção, encontrando na sacada vizinha, uma mulher sentada numa cadeira de rodas. Estando semi-nua, ela tomava o sol da manhã e, curiosamente, demonstrava-se despreocupada com a presença dos três na sacada vizinha.

— Pode me dar um cigarro, por favor — pediu ela.

Jardes não pode deixar de reconhecer que a mulher, com seus seios grandes e à vista, era bem atraente e bonita. Ela tinha a cabeça apoiada numa pequena almofada de modo que parecia desejar adormecer ali mesmo, sobre a cadeira de rodas. Especialmente esse detalhe, revelou a Jardes uma intimidade com a cadeira que, ao se esticar para passar à mulher o cigarro, teve ele que se desdobrar em esforços para alcançá-la. Ela, imóvel, quase recebeu o cigarro na boca.

— Obrigado — agradeceu ela ao ter finalmente o cigarro entre os lábios. Cristian, de modo solícito, passou-lhe o seu isqueiro. A mulher, então, acendeu o cigarro e baforou sua primeira tragada tranquilamente.

Os três ficaram na expectativa que ela dissesse qualquer coisa. Resumiam-se juntos a um silêncio desconsolado. A mulher, entre baforadas, meditava. Jardes tomou as honras:

— Por acaso você não teria alguma coisa pra nós comermos, não?

A mulher continuava a baforar a fumaça, quando Laura insistiu:

— Não leve a gente a mal, mas é que realmente não temos nada aqui pra comer, e daqui não podemos sair.

— Não podem? — interrogou ela quase irônica. No íntimo ria-se. Seu rosto era de uma travessura infantil: alheio, bobo, superficialmente indiferente. Pendendo a cabeça para trás do encosto, visualizava agora o céu muito acima de seus olhos. Deixava-se banhar pela luz do sol e sentia algum prazer muito especial. Tragava a fumaça do cigarro e a expelia sem se ater que, na sacada vizinha, três pares de olhos compenetrados a fitavam. De súbito, ajeitou-se sobre a cadeira de rodas. Levou ambas as mãos às rodas da cadeira enquanto tinha entre os lábios o cigarro acesso, e em seguida, entrou ao apartamento, fechando a porta de vidro atrás de si. Do lado de fora, desconfiaram que ela não voltaria, de que ela os ignorava.

Jardes terminava de fumar o seu cigarro, não dando a mínima à conversa que Laura e Cristian tinham entre si. Ambos cochichavam picuinhas. Achavam-se no direito de chamar a mulher novamente, e insistir no fato de que precisavam de comida. Jardes os deixou sozinhos na sacada. Passou à sala e da sala à cozinha, onde foi encontrar o prato que estavam usando como cinzeiro. Nele, apagou o cigarro e retornou à sala. Foi quando deu com a principal porta do apartamento aberta.

— Ei vocês dois na sacada! — chamou ele. Laura e Cristian pararam, de imediato, de discutir. Voltaram-se mais na direção da porta aberta do que na direção de Jardes. Da sacada, foram a passos certos à porta.

— Como você conseguiu — perguntou Laura, visualizando a porta por inteira. — Não estava trancada?

— Estava até eu sair da cozinha — disse Jardes.

— Não foi você quem a abriu? — interrogou Cristian.

Jardes meneou a cabeça negativamente.

— Seja quem for que tenha aberto a porta... eu agradeço — disse Cristian que, nesse instante, passava do apartamento para um corredor que era limitado de um lado por uma parede e, de outro, por uma mureta atrás da qual havia um vão para baixo. — O que vocês dois estão esperando — perguntou ele do lado de fora. — Não querem sair daqui?

Em resposta, Laura e Jardes se precipitaram ao corredor. Pararam. Olharam em torno e perceberam que dali não havia saída — não tinha um lance de escada sequer para que descessem ao térreo. Não conquistavam, desse modo, nada além de um corredor que servia a seis outros apartamentos, todos visíveis a partir de onde os três se encontravam. E aquele vão no meio.

Laura escorou-se à mureta que cercava o vão. Olhou para baixo e não viu mais do que um breu terrível. Acima de sua cabeça, estava uma claraboia que, curiosamente, não deixava passar muita claridade de fora. Alguns vasos pendiam por finas correntes do teto. Outros, estavam junto à mureta e à parede dos apartamentos. Todos floridos e muito bem cuidados. Isso lhe chamou a atenção.

— Bom, parece que continuamos na mesma — disse ela aos outros dois. — Só que com um pouco mais de espaço.

— Ou de liberdade — cogitou Cristian. — Sim, porque agora não estamos presos no apartamento, de lá podemos sair, mas e daqui?

— Você tem razão — concordou Jardes. — Isso aqui não é só o que estamos vendo, é o que representa pra nós.

— Como que é? — interrogou Laura um pouco confusa.

— Não é nada não — respondeu Jardes com uma careta. — É só uma observação que passou pela minha cabeça. Falei alto, só isso.

Laura, não dando tanta atenção a Jardes, decidiu:

— Vou bater nos outros apartamentos pra ver se alguém atende. — Da fala ao ato, bastou uns poucos passos. À primeira porta que encontrou, bateu duas vezes. Do outro lado ninguém respondeu. Laura perguntou intrigada: — Não era da sacada desse apartamento que aquela mulher estava?

— Talvez — disse Jardes. — Como é que vamos saber?

Laura passou à segunda porta e repetiu as duas batidas. Esperou.

— Nada! Como é possível? — exclamou para si.

Jardes e Cristian a imitaram, indo cada qual a uma porta diferente. Tudo se repetiu. Ao que se juntaram novamente diante da porta do apartamento que ocupavam, concluíram, com desânimo, que não havia ninguém nos apartamentos vizinhos, e se havia, não queriam atender às batidas.

Retornaram à sala. Laura e Jardes ocuparam as cadeiras que estavam arrumadas à mesa, e em silêncio, articularam entre si olhares pensativos. Cristian, de pé, detinha-se a fitar pela porta de vidro à varanda vizinha.

— Ela ainda não está lá — avisou ele como se de vigia.

— Acho que não devemos nos preocupar com a comida ou com os vizinhos — dizia Laura cabisbaixa — porque tenho a impressão de que tudo aqui vai e vêm conforme algum capricho de algum deus onipotente.

— Mas isso não faz sentido — descordou Cristian aborrecido. — O cara me falou que a seita não tinha essa coisa de deus, etc. Era uma seita que pregava o pensamento... foi isso o que ele disse.

— Então — principiou Jardes — o que estava pensando um minuto atrás, está certo; estamos dependendo não do que vemos, mas do que acreditamos ver.

— Isso é loucura, Jardes — exclamou Cristian.

— Está bem, está bem — dizia Jardes — que seja loucura então! O que isso pode significar se for?

— Que não estamos mais na realidade — cogitou Laura sem ânimo.

— Exatamente isso é o que me parece — confirmou Jardes.

— Então só depende de nós, não é? — disse com impaciência Cristian — Que droga! E o que podemos fazer?

— Por enquanto nada, eu acho. Ou pelo menos até nos entendermos com essa realidade. Se realmente estamos fora, acho que não precisaremos nos preocupar com comida... — disse Jardes alheio.

— Faz sentido — disse Laura. — Mas... e daí? Faremos o quê exatamente enquanto não nos entendemos com essa coisa toda? Falar e falar?

— “ Fiquem à vontade”, foi o que Lorena disse não? É isso.

— Vou ficar mesmo à vontade — decidiu Laura erguendo-se da cadeira — Vou é dormir.

Jardes e Cristian entreolharam-se. Depois, estudaram atentamente Laura enquanto ela se afastava da sala. Deixaram-na em paz ao que Laura desapareceu no corredor que levava ao banheiro e aos quartos.

— Geniosa, não? — pestanejou Jardes. — Até entendo a razão: dois homens, uma mulher sozinha... ela tem que se impôr.

— Acho que já faz parte da personalidade dela ter um gênio forte.

— Pode ser. A mulher parece um tanque de guerra...

— É bonita.

— Bonita mesmo era aquela da varanda vizinha, que peitos maravilhosos!

Cristian ria-se.

— Pelo que vejo, você tem uma natureza bem prática quando assunto é mulher.

— Ao contrário de você, senhor cérebro — disse taxativo Jardes para, ao fim de uma curta pausa, perguntar: — Você idealiza uma mulher?

— As mulheres são como nós, e não há como idealizar qualquer um que seja humano, seja quem ele for. É gente, carne e osso.

— Você se contradiz... — disse Jardes com um olhar de quem havia pescado algo no ar.

— Como? — retrucou Cristian desentendido.

Jardes levava a mão esquerda à papa da pele abaixo do queixo quando disse:

— Nada não.

Pensativo, passou a acariciar algum pensamento à toa, deslizando os dedos na papa caída do pescoço.

— E o “amor”? — perguntou ele por fim, como se a questão houvesse passado em sua mente naquele exato segundo.

— O que têm isso?

— Você acredita no “amor”?

— Não posso acreditar numa coisa que jamais senti — afirmou Cristian sem hesitar.

— É verdade. Concordo. Também acho que não acredito. Acredito sim no prazer que está escondido entre duas pernas torneadas de uma mulher. Isso sim! E se você realmente não se importa... — hesitou, estudando a reação de Cristian para enfim concluir: — vou fazer parte do time de dorminhocos, tudo bem?

Cristian bateu de ombros. Estava de pé, junto à porta de vidro quando Jardes deixou a mesa e passou a passos tranquilos ao corredor. Parecia cantarolar em seu íntimo. Sozinho, Cristian pressentiu que ainda viriam aos três muitas daquelas situações inusitadas. Suspeitava, também, que Lorena estava por detrás de tudo aquilo. Sentia-se cansado. Era estranho que, apesar do pouco tempo que estava ali (diria-se algumas horas), ele tivesse uma familiaridade tão acentuada quanto ao lugar. Ele não podia dizer que estivesse bem, como igualmente não podia afirmar que se sentisse mal na nova situação em que vivia. Gostava do apartamento. Tinha uma vista bonita, apesar de não haver ninguém nela. Além disso, havia ainda a sensação de que a ausência das pessoas era proposital, quase um pica-esconde infantil. Escondiam-se?

Fitou com mais atenção a entrada de um Café que havia abaixo da sacada, na rua. E não podia ter certeza. Talvez fosse um homem de sobretudo preto, ou apenas um saco de lixo que, de onde Cristian estava, assumia uma forma mais humana. Cristian suspirou enfadado. Não queria dormir, embora já sentisse que o corpo pedia um tempo para descanso. Sua mente, sem dúvida, estava agitada. Rodopiavam pensamentos na mente de Cristian; era um resumo do dia, da noite, e daquele instante — tudo numa fração de segundos. Queria um cigarro, mas... Jardes fora dormir. Logo, Cristian decidiu ficar na sacada: abriu a porta de vidro e, munido com uma das cadeiras da mesa, passou para o lado de fora da sala. Sentou-se, e ergueu ambas as pernas para cima e sobre a mureta de proteção. Na sacada vizinha, estava apenas a lembrança que Cristian tinha da mulher sobre cadeira de rodas. Bateu de ombros. Ajeitou-se o melhor que podia e se dispôs a observar o céu. Lá estava o azul de Outono. Nítido e regular. Quase uma massa contra à qual poderia-se levar as mãos e tocar. Sorriu. Se tudo era uma fantasia, ou se de fato estavam loucos, tanto a fantasia quanto a loucura tinham lá suas lógicas. Nada era melhor do que se sentir bem consigo mesmo...

Cristian adormeceu.

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