O corredor

 

Ivan havia deixado a sacada para se pôr sentado à mesa. Uma vez acomodado na cadeira, colocou as mãos nos bolsos do sobretudo, tirando de um deles um maço de cartas de baralho. Deixou-o sobre a mesa, com a face das cartas viradas para baixo. Achando estranho o modo com que ele agora agia — como se honestamente farto de tudo — Laura lhe perguntou:

— O que tem de errado?

— Nada — respondeu ele de pronto. E sorriu.

Ivan fitava a alça da mini-blusa que Laura vestia e Laura percebeu a razão: a alça escorregara para o braço, deixando a impressão de que seu seio direito iria ficar à mostra. Tão logo percebeu o fato, Laura a ajeitou sobre o ombro.

— Parece que não teremos muito com que nos distrair, não? — disse Ivan um tanto frustrado.

— Realmente não — confirmou Laura.

Se inquietando sobre a cadeira, Ivan disse:

— Você quer jogar?

O baralho no centro da mesa parecia ser a continuidade da pergunta dele, pois era para esse ponto que Ivan remetia à questão, como se nas cartas houvesse qualquer desafio maior do que simplesmente o da distração.

— Não, obrigado — respondeu Laura.

— Hum... Que pena.

— Por que não convida o Jardes, talvez ele queira.

Ivan balançou negativamente a cabeça, dando a entender que tal convite não valia a pena. Depois, remediou a má impressão que sabia ter causado em Laura, por conta da alça frouxa no braço, dizendo-lhe:

— Acho que se tivéssemos nos encontrado em uma outra situação, nós teríamos nos tornado, ao menos, amigos...

— Por que você acha isso? — disse Laura depois de um breve instante de reflexão.

— Talvez porque aqui tudo é especialmente novo, o que faz com a gente se iluda com facilidade.

Ivan deu uma breve pausa dentro da qual encontrou momentos em que refletiu sobre algo que lhe era agradável. Disse ao fim:

— Engraçado... Quando Helena e eu estávamos juntos, por mais que a nossa vida fosse rotineira, estávamos cercados de novidades: aparelhos de som, cds, videos... e livros. Acho que foi por isso que nunca chegamos a nos encontrar realmente.

A franqueza com que Ivan falou de sua vida pessoal não chegou a incomodar Laura. Se fosse em outra situação, provavelmente Laura não o fitaria nos olhos como agora fazia, mesmo porque em uma outra situação, a cumplicidade seria uma fraqueza. Naquele instante, porém, a franqueza de Ivan era apenas uma fonte de curiosidade à Laura.

— E onde ela está agora? — perguntou ela ao debruçar-se um pouco sobre o tampo da mesa, e de tal modo que tinha os dois ante-braços apoiados na superfície de madeira.

— Hum... — expressou Ivan pensativo para enfim afirmar num tom inseguro: — Ela estaria na sala vizinha, sentada numa cadeira de rodas e diante de uma escrivaninha.

— E o que ela poderia estar fazendo lá? — retrucou Laura entre silenciosas reticências.

Ivan recostou-se à cadeira para dizer pontualmente:

— Escreve.

Laura o fitou como se não satisfeita com a resposta. Ivan prosseguiu:

— Escreve o que está se passando nesta sala.

— Por que ela faria isso? — retrucou Laura de modo duvidoso.

Ivan coçou a cabeça pensativo. Respondeu:

— Como vou saber? Já não é suficiente a possibilidade de ela estar do outro lado desta parede — e apontou; — e quem sabe? fazendo de nós dois, duas marionetes em suas mãos?

Laura se calou, recolheu parte da franja de seu cabelo que lhe caia ao rosto e, sem pressa, ergueu-se da cadeira. Não lhe perturbava a possibilidade de alguém estar no apartamento vizinho — fosse quem fosse — assim como não chegava a lhe causar nenhuma surpresa  o fato de que alguém os governasse.

— Me diga — principiou ela enquanto se detinha a estudar Jardes que se encontrava na sacada — o que se poderia dizer de nós dois presos aqui dentro desta sala se, do lado de fora, alguém nos observasse?

— Que nós dois não temos escolhas.

— E ele? — disse Laura ao se referir a Jardes. — Por acaso ele tem escolha?

— Sinceramente, pouco me importa — disse Ivan com indiferença.

Laura o fitou como se houvesse cristalizado em seu lado, não a presença de Ivan, mas o súbito entendimento de que com a resposta dele, tudo o que ele havia dito se descortinava como uma grande mentira. Portanto, Ivan estava fora. Agora só restava-lhe Jardes que nua e cruamente lhe surgia aos olhos como um bobo, um inocente, um homem medíocre.

Jardes continuava na sacada, andando de um canto a outro naquele pequeno espaço fixo entre a porta de vidro e a mureta de proteção que evitava a rua. Sentia-se provavelmente tão agoniado quanto ignorante em relação ao que lhe acontecia: num momento, seu rosto se contraía como se os pensamentos tensos aflorassem à pele, enrugando-a; num outro, seus olhos meditavam ofegantes na rua vazia abaixo da sacada. Laura não podia desconsiderar o fato de que até então ele não se mostrava alheio — e isso lhe pareceu essencial para que, enfim, soubesse se estava ele ou não mentindo.

Com um único objetivo em sua mente, Laura passou à sacada, encostando-se à porta de vidro. Cruzou os braços sobre o peito, percebendo que Jardes, em sua inquietação, tentava ignorá-la. Ela lhe disse:

— Não vai adiantar nada, Jardes.

Jardes parou de súbito, a encarou seriamente, e depois, sem avisos, desatou a rir. Ele gargalhava de modo forçado, estúpido. Em resposta, Laura lhe sorriu com o canto dos lábios, como se não se importasse com as risadas de Jardes. Disse ela:

— Rir deve ajudar você em alguma coisa. Realmente, desde que você chegou aqui só noto em você o que não vejo.

— Você sempre fala por enigmas? — retrucou ele sarcástico.

— Primeiro: o sarcasmo não combina com você; segundo: não estou falando por enigmas.

— Ah é? — prosseguia ele no mesmo tom, mas visivelmente nervoso.

Laura hesitou. Ao se aproximar da mureta de proteção, colocando sobre a mesma, as suas duas mãos, disse:

— Você me contou sobre um amigo seu, um professor, não?

Jardes confirmou, embora decididamente desconfiasse do que Laura desejava com aquilo.

— Antes de vir parar aqui — dizia Laura — passei na rua por um pequeno grupo de adolescentes. Você pode imaginar uma rua qualquer, numa cidade qualquer, num dia de sol qualquer, e à qualquer hora, mas preste atenção no que acontecia: eram cinco rapazes, todos com as pastas de faculdade, um deles usava boné, três tinham cabelos curtos e dois estavam de bermudas. O que estava de boné na cabeça, deu uma rasteira em um dos rapazes que usava bermuda e quando esse caiu no chão, os quatro deram gargalhadas grotescas, forçadas, do tipo que você deu agora. Fiquei pensando o que fez eles gargalharem daquele modo tão forçado, - tão visivelmente sem graça, tão não natural. Será que queriam que todos os que passavam por eles, como eu, soubessem que se divertiam e que estavam satisfeitos em suas novas condições de vida?

Laura pausou-se, buscando com isso penetrar no que, talvez, Jardes refletisse. Não conseguindo, pois Jardes mostrava-se apático, ela concluiu:

— Enfim, o que notei, não foi o que vi.

Jardes, pressentindo uma simpatia da parte de Laura, admitiu:

— Não sei o que está acontecendo, mas tudo o que eu queria era sair daqui.

Silenciaram. Uma brisa indistinta soprou entre eles. Na rua ainda imperava a ausência de pessoas, e essa ausência era o que mais angustiava Jardes, já que ele não podia deixar de pensar que o que ali se materializava fazia parte de antigas expectativas suas; não por acaso, antes de cair naquela cilada — pois era assim que ele compreendia a situação — ele havia constantemente se indagado de como seria a vida numa cidade fantasma, e tentava imaginá-la como um lugar no qual ele poderia fazer tudo o que assim quisesse, o que desejasse. No entanto, agora compreendia que continuava tão limitado quanto antes, embora não houvesse quem o recriminasse de qualquer forma.

Jardes puxou do bolso de sua camisa um cigarro e com um isqueiro o acendeu. A fumaça que baforou foi levada pela brisa para seu lado direito, afastando-se, assim, do rosto de Laura. Propondo-se a uma conversa, Jardes fitou a expressão despreocupada do rosto de Laura como se em tal expressão não estivesse coerente com a situação que Laura e ele se encontravam.

— Parece que você não se incomoda em estar aqui — disse ele.

— Por que deveria? — retrucou ela desatenta.

Jardes fez uma careta. Sentia-se desconfortável com a tranqüilidade de Laura pois, de súbito, teve a impressão de que apenas ele era quem de fato estranhava a situação em que se encontravam. Disse:

— Não te incomoda essa rua deserta?

— Não — respondeu ela.

— Deus! — exclamou ele confuso. — Isso aqui é um insanidade completa.

Laura riu-se, fazendo com que Jardes se sentisse mais confuso.

— O que foi? Por que você riu? — perguntou ele perturbado.

— Durante algum tempo — principiou Laura como se preparasse para dar uma resposta direta, o que não aconteceu, pois dizia: — vivi em São Paulo. Morei em uma pensão que ficava no cruzamento de duas esquinas. Da janela do quarto que ocupava, eu podia ver todos os dias uma multidão de pessoas indo e vindo pelas calçadas, carros correndo em todas as direções; uma confusão. O que mais me chamava a atenção não era aquela gente que eu jamais havia visto na minha vida, nem a quantidade de carros, nem a neurose do tempo, nem nada disso. O que mais chamava a minha atenção, e o que mais me incomodava, era ver, todos os domingos, tudo aquilo desaparecer: era como se de repente todas aquelas pessoas, que dia a dia entupiam as ruas, houvessem, de repente, sumido da cidade, sobrando só as ruas e os prédios como esqueletos de um corpo embalsamado. E sabe de uma coisa? Que diferença tinha, pra mim, aquela gente estar, ou não, na cidade, se eu não tinha nada em particular com elas? Elas eram tão anônimas pra mim quanto eu pra elas. No fim das contas me acostumei e fiz dos domingos um dia da semana particular: caminhava pela cidade com um máquina fotográfica e tirava fotos do silêncio das ruas, do vazio das praças, do preto e branco das janelas entreabertas.

— Mas você sabia que na manhã seguinte tudo voltaria ao normal — comentou Jardes como se apanhasse na breve pausa final de Laura uma brecha por onde uma conclusão lhe alcançava.

— Sim, é verdade. Eu sabia que, na segunda-feira seguinte, tudo voltaria a se repetir: os carros, as pessoas, a banca de revista aberta, a padaria fumegando o cheiro de pão, tudo; mas sinceramente eu passava a me sentir melhor quando chegava os domingos, porque era neles que a verdade se tornava crua: eu estava sozinha, por mais que um milhão de pessoas me cercassem. Acho que não existe solidão pior do que estar cercado de pessoas e não ter sequer uma com quem se possa trocar duas palavras, porque todos são estranhos e alheios.

— E depois? — perguntou Jardes ao baforar a fumaça de seu cigarro.

— Depois do quê?

— Você disse que ficou algum tempo vivendo em São Paulo, e depois? o que fez?

— Me mudei pra uma pequena comunidade pesqueira, pra uma praia. Era a mesma coisa que viver em São Paulo: o oceano de prédios e avenidas preenchidos pelo silêncio e pela ausência das pessoas.

Jardes apagou o cigarro sobre a mureta de proteção. A sensação que o percorria não ia além de um vago entendimento do que Laura lhe falara. De qualquer forma, sentia-se menos angustiado, porque alguém ali conseguia ver algum sentido naquela situação. Talvez ele, com o tempo, talvez também encontrasse.

Suspirou como se aliviado do peso que até então o tomava. Fitou a porta, procurando ver através do vidro, o que Ivan fazia. Tentou sorrir ao notar que Ivan, na sala, brincava com o baralho ao fazer com as cartas um pequeno castelo. Laura, nesse instante, também o observava.

— Por que não entramos? — convidou ela.

Jardes aceitou o convite.

Conclusão da primeira partida.

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