Traços de Mafe

 

Ágatha falara-lhe de um apartamento que estava para alugar no lado velho da cidade. Havia dito a respeito do homem que o alugava, e Ivan lembrava bem a descrição que ela havia feito do sujeito: “Tem simpatia no olhar; gostei dele assim que ele me olhou nos olhos; os dele eram um pouco tristes sob aquela cor azul cristalina, melancólicos, sabe? É um homem baixo, rechonchudo, de bochechas rosadas, bem tímidas; tinha um quê de homem bem domesticado sob aquela calvície singular. Não sei, mas ele me parece uma boa pessoa, não deverá cobrar muito pelo apartamento...” Essa era a descrição que Ágatha havia feito do sujeito, o que no entanto a Ivan não chegava a representar uma grande ajuda, pois continuava a não saber aonde ficava o tal apartamento. Logo, havia pedido à Ágatha o endereço do homem, ao que ela respondeu: “Não faço a menor idéia, estive lá por um acidente de percurso, troquei números por letras e pã! Estava diante de um café e acho que diante de um antigo e velho hotel. Não me lembro o nome do hotel que, pelo jeito, parecia abandonado, mas do café... Café Berlin, é esse o nome. Aí entrei no café, e perguntei como eu fazia para voltar a este lado do rio, e aí veio esse homem de que já falei; ele me disse que, como era então noite, eu deveria esperar até o dia seguinte, e ele me convidou a me hospedar num dos apartamentos vagos... Foi aí que me passou pela cabeça que você estava procurando um novo lugar para morar; então perguntei ao homem se ele tinha, além de um apartamento que eu usaria por aquela noite, um outro, para um amigo meu que precisava se mudar de onde estava... É isso. Aqui estou.” E foi tudo o quanto Ivan pode saber sobre o apartamento que pretendia alugar, nem mais e nem menos.

Agora, estando na avenida K. que ladeava o Rio Estlan, Ivan esperava por Helena, com quem havia marcado um encontro ali. Do outro lado do rio, ficava a cidade velha. Ivan, sentado num banco, a mirava com os olhos. Caia sobre aquela parte uma intensa névoa que recobria os velhos e antigos sobrados e prédios. Janelas estreitas encontravam-se fechadas. Uns poucos transeuntes caminhavam na calçada que do outro lado se estendia tal como aquela em que Ivan estava em seu banco. Separando-as, estava o caudaloso rio. Embora não pudesse achar mais nada estranho naquela cidade, ora dominada por letras ora por números, Ivan não se acostumava a ver só aquelas brumas para além do rio. Era como se do lado em que se encontrava não pudesse existir incerteza, sombras ou sonhos; tudo ali deveria ser exato: horas, lugares, hábitos e movimentos.

A avenida K. abria-se de um ponto ao sul da cidade — de onde se imaginava começar o rio, até ao norte. Abria-se num amplo espaço de quatro largas pistas de asfalto por onde corriam veículos em dois sentidos antagônicos. Esse veículos, em alta velocidade, rasgavam a fina camada de água que havia sobre as pistas. Lançavam, dessa forma, gotículas de chuva à calçada em que pedestres caminhavam. Aliás, como quase sempre ocorria naquela parte da cidade porque justamente nela se encontrava a ponte de transição entre um lado e outro, ali chovia. Era uma garoa fina, mas persistente. Era como se da neblina do outro lado do rio, algumas gotas sobrassem e fossem sopradas para aquele lado sem que precissassem passar pela Ponte das Fiandeiras. Essa ponte não estava muito longe de Ivan: bastava-lhe dar cerca de uns vinte passos e assim a alcançava. Por ela passavam uma poucas pessoas que deixavam o lado velho da cidade e entravam no novo. Ao que essas pessoas pisavam na calçada da avenida K. tinham por alternativa duas outras avenidas perpendiculares a ela: a avenida 15 e avenida 67; ambas cortavam o lado novo da cidade quase em três partes iguais; o centro financeiro como todos seus imenos arranha-céus se fixava bem na segunda parte e entre as avenidas. Para Ivan, o centro da cidade nova não era um lugar muito agradável de se ficar. Aliás, quando morava com Helena sempre ele lhe dizia que...

Helena chegava. Vinha com um passo tímido, com um olhar que se arrastava pelo meio fio da calçada; vinha com um cadenciar de ombros e pernas que lhe eram tão próprios; vinha em meio a multidão de pedestres, entre pessoas anônimas que seguiam mudas em diversas direções; vinha em meio a chuva fina que caia — e seus cabelos longos umedecidos davam um contorno particular ao seu rosto branco; e entre a chuva, os cabelos e o rosto, havia uma concordância comum. Quando Helena finalmente alcançou o banco, sentou-se, deixando um espaço vago entre Ivan e ela. Cruzou as pernas; usava uma calça de couro que ficava justa ao par de coxas; calçava um par botas também de couro. O que nela destoava, era o casaco que vestia: parecia ser de pele, embora não o fosse; era um pouco volumoso ao corpo, mas principalmente aos ombros. Sobre ele caiam os longos fios dos cabelos de Helena.

Helena acendeu um cigarro.

— O que voce quer? — perguntou ela sem fitar Ivan e entre baforadas impacientes.

Ivan fez que não ouviu a pergunta dita à queima roupa. Perguntou-lhe de maneira amena:

— Como você está?

Helena fez uma careta, um ar muxoxo, como se quissesse dizer que estava indo de modo indiferente. Ela insistiu em perguntar:

— O que voce quer comigo, Ivan?

Ele decidiu responder:

— Vou me mudar, Helena. Vou deixar o nos... o seu apartamento.

— Já estava na hora — afirmou ela.

— Tem razão. Estou indo para o outro lado da cidade, para a parte velha, porque parece que lá tem aluguéis mais baratos...

— Boa sorte então... — disse ela, motivando-se a se levantar do banco.

De súbito Ivan sentiu-se impelido a detê-la, pois não queria que ela partisse daquele jeito. Persuadiu-a com seu tom de voz ao que pediu:

— Espere.

Ela parou, fitando-o nos olhos com a expectativa de ter dele uma boa razão para que ela ficasse ali. Percebendo isso, Ivan desistiu de tentar impedí-la. Se fez alheio ao fitar quase que por instinto uma silhueta do outro lado do rio. Helena, sem hesitar, levantou-se. Somou-se à multidão e dentro dela desapareceu.

*           *           *

 

A Ponte das Fiandeiras abriu-se para Ivan como um livro. Por ela transitavam os mais variados tipos de pessoas: quatro rapazes riam-se entorpecidos pelo vinho que bebiam; uma mulher conversava com a fiha que lhe ia colo; uma senhora de olhos vivos dentro de um táxi amarelo que passava; um homem, junto a mureta da ponte, pescando. Só este último pareceu a Ivan querer ficar por ali, já que os demais transitavam. Se não iam na direção da grande avenida que cortava a velha cidade, iam na direção oposta, virando para um lado ou para um outro da avenida K. Também transitando pela ponte, Ivan via-se a descoberto: um homem de longas barbas brancas, com um cachimbo descansando na palma de sua mão esquerda, o fitava fixamente. Era um taxista. Provalvemente ele imaginava que Ivan iria embarcar em seu táxi. Ivan, que até então ia de fato na direção do veículo parado ao final da ponte, desviou-se, passando a outra calçada. Cruzou a pista destinada aos veículos com rapidez, chegou a outra calçada sem grandes dificuldades e por ela continuou a percorrer a ponte. O fato curioso foi que o táxista não deixou de o fitar, de o vigiar. Ivan não gostou dele, fosse porque o olhava muito atentamente, fosse porque parecia ver em Ivan muito mais do que poderia ele mesmo supor. Tentou esquecê-lo: alcançou a avenida que tinha por nome uma letra “G” e avançou por ela até uma esquina, em que parou.

À direita de Ivan abria-se uma rua que tinha por nome a letra “O”. Aparentemente, ao contrário do outro lado da cidade onde todas as ruas e direções eram determinadas por números inteiros, naquele lado em que passava a estar imperava letras. Essa rua, em especial, não tinha pista para veículos: apenas pedestres passavam num largo calçamento de pedras coloridas. Para ambos os lados da rua estavam uma seqüência interessante de bares e cafés. Havia uma outra livraria perdida em meio ao clima descontraído que ali se dava, pois em torno de mesas postas de lado de fora dos cafés e bares, uma quantidade razoável de pessoas se entretinha; conversas eram deflagradas com os mais variados repertórios: entre cochichos, entre discuções acaloradas, entre falas modestas e pessoais. Antes de se precipitar em avançar por aquela rua, Ivan decidiu perguntar sobre o “Café Berlin” a um jornaleiro que não muito longe da esquina estava parado.

O jornaleiro era um rapaz de óculos redondos. Estava sentado sobre uma caixa de verduras e tinha nas mãos alguns exemplares de jornal. Pouco gritava, porém quando o fazia, fazia sempre quando algum passante se mostrava interessado num exemplar e assim gritava: “Compre o jornal!”. De resto, deixava-se estar sentado com um ar um pouco apático, um ar de cansaço, tendo os olhos baixos.

Quando Ivan o interpelou, o jornaleiro de modo automático gritou:

— Compre o jornal!

Ivan balançou a cabeça de modo negativo depois de um breve susto.

— Preciso de uma informação — pediu ele.

O jornaleiro ergueu o par de óculos apoiado ao nariz com o dedo indicador apontado quase contra a testa, num movimento lento. Daí lhe disse com uma expressão sonolenta:

— Sim?

— Quero saber como faço para chegar ao Café Berlin... — disse Ivan.

— Qualquer trajeto vai um dia dar lá... — disse o jornaleiro.

— Como assim? — retrucou Ivan desentendido.

— Escolha um, mais cedo ou mais tarde, você estará aonde quer estar.

Ivan duvidava. Imaginou que o jornaleiro estivesse se enrolando para que ele se visse obrigado a comprar um jornal. Foi o que fez: pediu um jornal, juntou moedas nas mãos e o pagou. Voltou a perguntar:

— Me dê um jeito, o caminho mais curto, para que eu possa chegar ao Café Berlin, por favor.

— Ah sim! Bom, se você quer que eu indique um jeito... Vá em frente por essa rua e quando avistar a rua “E”, entre nela. É fácil.

— Obrigado — agradeceu Ivan, retomando seu caminho.

*           *            *

 

O beabá estava formado, tendo Ivan três letras como uma alternativa para se chegar ao tão esperado Café Berlin: “G.O.E.”; e era por curiosidade que, enquanto caminhava em busca da terceira letra, e da conseqüênte terceira rua, ele brincava com elas, formando a palavra “goela”; procurou por uma segunda “goe...” e não lhe ocorria nada. Ficou nisso após um seqüência de tentativas frustradas.

Ao alcançar a entrada da rua E. Ivan deparou-se com uma placa que a indicava: “E. Entre”. Entrou. Passou diante de umas dez fachadas de prédios aparentemente abandonados, um dos quais parecia ser um antigo hotel. Quando enfim vizualizou o luminoso do Café Berlin, comemorou com um sorriso. “Até que não foi tão difícil encontrar” pensou.

A porta do café abria-se de par em par; era uma porta de duas folhas que tinha ao centro de cada uma delas um círculo de vidro através do qual se podia avistar o interior do bar. Ao lado desta porta, havia também uma vitrine grande que deixava expostas as mesas e cadeiras mais próximas a saída. Grudado a vitrine, pelo lado de fora, o luminoso tubo de neon determinava com um formato de uma xícara a finalidade daquele estabelecimento.

Ivan passou pela porta do Café Berlin sem reparar em coisa alguma de sua fachada. Entrou, se adiantou ao balcão, e disse ao sujeito que lavava louça junto a uma pia:

— Olá camarada — principiou ele. — Soube que aqui perto se aluga apartamentos, por acaso você sabe quem os aluga?

O sujeito virou-se. Era exatamente como Ágatha havia descrito, com um porém, não era tão calvo quanto Ivan imaginou que fosse. E o reconheceu com surpresa:

— Jardes?

Ele sorriu ameno, com uns olhos miúdos e tristes.

— Ora! — exclamou Ivan admirado. — Você aqui! Puxa! Mas como?!?

— Foi difícil — admitiu Jardes tendo entre as mãos um pano com o qual passava a secar a louça limpa. — Mas não foi graças a você...

— Sem dúvida, eu não fazia nem idéia de que... — e não terminou, calou-se. Estava como se houvesse compreendido uma charada. Insistiu com ar duvidoso: — Vamos! Como foi?

— Lembra-se de quando me deixou sozinho no hall?

— Não foi a minha inten... — tentou se justificar Ivan, mas Jardes o interrompia com um gesto vago que não pedia explicações.

— Não se preocupe — dizia Jardes — esse foi o menor dos meus problemas, acredite.

— Mas então...?

— Bom... — principiou ele com um sorriso melancólico. — Fiquei naquela sala nem sei direito por quanto tempo. Não sentia fome, nem cede, nada. Tive a impressão de que nem mesmo existia em certos momentos, e essa foi a pior parte, porque acho que estava ficando meio louco, sabe? Mas, não sei como, a Graça me encontrou...

— Graça? — retrucou Ivan um pouco duvidoso, pois jamais havia ouvido falar em tal nome.

— Sim — confirmou Jardes — Maria da Graça. Ela é dona deste café e dos apartamentos deste prédio.

— Hum... — pestanejou pensativo Ivan. — E então você veio parar aqui...

— Como você pode ver...

— Menos mal — disse Ivan.

— É porque você ainda não conheceu a Graça... — disse Jardes com um sorriso frouxo no canto dos lábios.

Jardes abandonou o pano de louça sobre o balcão. Com as mãos livres passou a procurar alguma coisa numa gaveta que havia para trás do balcão. Dizia:

— Enquanto você não a conhece, vou hospedar você num dos apartamentos vagos. Depois ela deve ir lá pra acertar o valor do aluguél, e aí...

E encontrando um molho de chavez, Jardes concluiu:

— Bem, seja o que Deus quiser. Venha comigo.

Na outra margem do rio Estlan

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