Conexão com a Terra

Quarto Conto da série “Histórias inspiradoras” – De nosso diário de bordo – ano 2025 – gênero de Ficção Especulativa.

A Terra e seu ciclo interminável de eras. 

Hanna foi uma das cientistas encarregadas do projeto de conclusão da Nave. Desde a fase inicial, Hanna sabia que a Nave Interestelar se inspirava em relações que existiam entre elementos naturais na Terra Original, procurando-se, com a criação da Nave, imitar essas relações de uma mesma natureza em equilíbrio dada a existência do OVO no centro da nave, algo que era uma particularidade inventiva ousada para a metade do século XX em diante, ou pelo menos até que a Nave Interestelar COS121418 estivesse pronta, quando o desafio, comum a todas as partes do sistema vivo integrado, se encontrava no fato, e de modo constante, em se prosseguir por ações dentro de prazos, desde a fase da concepção do projeto até à subsistência da Nave, o que significava um estado de equilíbrio como um todo, incluindo a compreensão de cada um dos tripulantes sobre o todo da jornada e do retorno à Terra, ou à Gaia e a um mesmo ponto de retorno, uma vez que, também, sem esse, muitas seriam as chances de todos se perderem no espaço.

Na prática da construção da Nave, a obsolência dos objetos dos sistemas do século XX cairia por terra quanto à programação que faria, da própria Terra, um exemplo à construção da Nave, quase que em todos os seus detalhes.

Mas diferente da Terra, no espaço, além do desafio de permanecer com a Nave inteira pelo maior tempo possível, outro desafio se acrescentava ao ambiente de pouca gravidade em que a Nave se mantinha para habitação dos seus integrantes, e esse desafio era o de se produzir alimento, algo que condicionava a saúde da Nave desde a semente, ou melhor, desde o DNA para Hanna, que estudava o DNA sob os efeitos da viagem, os que ela observava sobre plantas e animais, entendendo, Hanna, do equilíbrio necessário para que todos os sistemas vivos operassem com uma regularidade sadia em suas próprias dinâmicas evolutivas, numa autopoiese, o que, depois, levava a um período de paz e de bem-aventurança na convivência interestelar a bordo. 

O que havia ficado em Terra, com a partida da Nave, representava a ruína e a decadência do que havia sido feito para ser efêmero, passageiro, e limitado a existir por breve tempo, o que, contraposto aos mais de cem anos passados no interior da Nave, demonstrava a Hanna algo que a levava a compreender a iniciativa do que corresponderia a uma batalha coletiva pela permanência de uma memória quanto a uma mesma humanidade, uma humanidade que se mantinha, em essência, incorruptível e, por isso, não caía no esquecimento ao que todas suas partes elementares conviviam com o seus desafios geracionais, e os superavam. Mas esse era somente um ponto que Hanna poderia dizer, possivelmente, perdido por todo o sempre, se não fosse o fato de terem programado a Nave para retornar ao lar, o que haviam conseguido. E esse era mais um ponto delicado a respeito do que Hanna precisava cuidar em seu painel de comando enquanto ela trabalhava, por anos, em seu laboratório, ou mais exatamente na cabine onde Hanna podia cuidar, respectivamente, dos vários sistemas biológicos a partir de uma consciência que ela tinha formado a respeito de cada conhecimento trocado pela sua interação em relação à Nave, interagindo ela através de dispositivos luminosos no painel de comando virtual. 

Antes da partida, o mais próximo exemplo dessa relação humana biológica e sintética, havia sido a relação de Hanna com a tecnologia de Linguagens Inteligentes ou Inteligências Artificiais. Além dela, toda equipe de cientistas era encarregada de interagir com as tecnologias como tripulantes da futura Nave que carregaria consigo esses conhecimentos desenvolvidos entre humanos e máquinas.

Talvez, daí, a questão toda que se dizia a respeito da limitação tecnológica da máquina, naquele tempo, não fosse tanto da máquina em si, mas do despreparo humano relacionado à tecnologia que, naquele momento da criação das Inteligências Artificiais, se encontrava limitada pelo próprio desenvolvimento humano relacionado às linguagens artificiais. Ou mesmo, indo-se mais além, sendo ela uma relação simbiótica, porque já existiam indícios dessa simbiose entre linguagens tecnológicas e humanas, desde a simples busca por informações que ocorriam pela internet, dentro de uma maneira de validação com valores entre 0 ou 1, para, não muito depois, serem lançados os computadores quânticos em que as validações poderiam ser múltiplas e concomitantes entre 0 e/ou 1.

O Duplo

Numa ideia de uma longa permanência em trânsito, o projeto da Nave tinha por meta a manutenção de suas fontes de recursos, dada que a matéria, substância essencial à existência, não existia no espaço e sua decorrente deterioração representava o comprometimento da própria estrutura da Nave. 

Porém, mais do que criar um ambiente em que as espécies vivas poderiam ter maior durabilidade, fosse as preservando criogenicamente ao longo de séculos ou fosse mantendo-as a partir de exemplares vivos, de qualquer forma, era necessário se renovar as fontes de energias que produziam a luz em que toda Nave se banhava para manutenção dessas espécies, por mais que tenha ficado a Nave em estado de imersão em sua longa viagem.

A alimentação da Nave era um compromisso de Hanna: um conhecer que ela explorava como bióloga geneticista associada a um assistente de linguagens virtuais presente em toda Nave. E relacionada à Hanna e ao seu desenvolvimento no laboratório, era, também, a falta que Hanna sentia quanto ao vento, ou seja, ela em relação ao interior da Nave e a Nave em razão do espaço, tinham por um necessidade de um movimento natural que fosse correspondente ao que ocorria em um ambiente terreno e vivo: era essa a ausência de movimento que sua sensibilidade mais queria suprida, porque Hanna via com isso algo real durante toda viagem, ao que se agarrava, ela, a uma sensação boa sobre a pele, como se compreendesse tudo por meio de sua sensibilidade ao sopro da vida.

 

Assim, para Hanna, a circulação de ar tinha uma dimensão que ia além de um simples movimento físico em um ambiente, porque era algo que lhe indicava que ela não estava em um mundo subjetivo de ações, ações que compreenderiam apenas sua memória quanto a uma realidade que havia ficado pra trás. Era uma espécie de prova, ou uma expectativa a ser suprida por um mundo objetivo e pragmático, existencial. Do contrário, e isso a atormentou por anos durante a viagem, um mundo subjetivo tornava-se um mundo sem fim, em que a realidade não se concretizava, sendo essa elástica como, também, por ser desse modo, não se deteriorando, já que nada existia de físico nesse plano subjetivo. 

Por outro lado, Hanna resistia à precariedade da vida ligada às formas da obsolência programada, obsolência destinada às coisas reais por meio de um plano subjetivo numa via de mão dupla: era-lhe, nesse sentido, necessário um se auto cuidar dimensional pela liberdade mental com que ela observava a transformação dos ciclos, principalmente em relação aos elementos que a ligavam à Terra, ou a um espaço em que Hanna e suas memórias estavam presentes e de algum modo não envelheciam.

De igual forma, se reproduzia, no interior da nave, o que era um ciclo vital do que se chamaria luz do Sol, mas de uma substância relacionada à água que, presente em todo sistema biológico, podia ser vista como uma gota solta a viajar no espaço como uma fonte de hidrogênio que se transforma, dada a natureza do Sol e sua composição de hidrogênio, encontrar vários estados de equilíbrio durante uma existência dedicada à navegação.

A Nave era, portanto, um organismo a sobreviver no espaço interestelar e, sendo maior que uma gota, era um ser biônico com uma tecnologia híbrida de uma natureza dada a ser permanente como um sistema vivo, mas transformado por cada parte sua evolutiva, moldando-se às formas de cada parte de suas existências, seus modos e habitats, fosse pelo som ou pelo movimento à criação, dado o salto quântico que a computação criada para gerir essa existência tornou possível, e agora tinham todos uma viagem digna com o fim de percorrer, como humanidade, um mundo subjetivo de várias dimensões que se relacionavam através do sentir biológico, por uma sensibilidade estética próxima à Gaia, a Mãe de cada ciclo vital por eras.

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