Quando o mundo começa a receber forma

Em branco, talvez se tratasse de uma névoa clara em meio a uma claridade ofuscante. Uma névoa tecida por volumes e curvas, reduzida a formas das quais se poderia deduzir que fossem mais sólidas, embora nada ali pudesse ainda ser tocado pelo olhar de quem quer que fosse. Naquela claridade intensa, talvez houvesse uma parede inteiramente branca diante de si. Mas talvez fosse também uma folha de papel ainda a ser escrita e onde o olhar se alonga a um indeterminado fim, algo que fosse tão extenso de modo que se perdesse a consciência de que existisse. Ou talvez não fosse ainda nenhuma dessas coisas.

Havia silêncio. O mesmo silêncio que ocorre antes do despertar da manhã. O mesmo silêncio que antecede uma tempestade de areia sob um sol escaldante, quando nem um sopro de brisa parece existir.

Suas mãos descansavam sobre a areia fina e quente. Foi pelo toque que veio o primeiro gesto de sua consciência. Os dedos sentiram a textura dos grãos. Contraíram-se lentamente sobre a superfície. No percurso, as pontas dos dedos encontraram a textura de uma pedra. Depois, sem que ele soubesse dizer quando ou como, a pedra tornou-se tecido. O tecido, então sob seus dedos ainda a se contraírem, tornou-se madeira. A madeira, superfície a superfície, gesto a gesto, tornou-se sintética. E então metálica. Foi nesse instante que despertou. Suas mãos estavam fechadas ao lado do seu corpo deitado. Não sabia onde estava. Tentou ver algo no espaço branco em que se encontrava, quando ouviu:

 — Não tenha pressa. 

Por um momento, permaneceu imóvel, como se qualquer movimento pudesse desfazer aquilo que começava a perceber. Então, percebeu que o silêncio deixava de lhe parecer vazio, sendo ele preenchido, aos poucos, por sensações. Abriu conscientemente as mãos sobre a superfície de algo que lhe parecia ser um tecido. Sentiu com uma maior intimidade o que lhe chegava ao tato. Foi nesse instante que viu o contorno de alguém escurecer o centro da claridade que lhe ofuscava a visão. Deduziu que, talvez, houvesse uma lâmpada atrás do que parecia ser uma pessoa. Logo, a claridade deixou de parecer uma luz que ofuscava seus olhos. Era o sol. Um dia ensolarado. E havia alguém sentado ao seu lado, de modo que a luz, vindo do horizonte, desenhava ao redor daquela pessoa um halo. Só, então, respirou fundo e suspirou tranquilo, como se despertasse de um longo e agradável sono.

A noite havia descido sobre o Nilo.

A lua permanecia escondida em algum ponto atrás das nuvens, e a superfície do rio recebia apenas uma claridade azulada, difusa, que parecia nascer da própria água.

O barco avançava lentamente.

Era uma embarcação estreita, construída em madeira e fibras trançadas, com o casco baixo o bastante para que a mulher pudesse tocar a água, caso ela estendesse o braço. As bordas estavam gastas pelo uso. Havia marcas escuras na madeira, pequenas fissuras preenchidas pela umidade e pelo tempo.

Ela estava sentada próxima à proa.

Os pés permaneciam recolhidos sobre o assoalho.

O barco quase não produzia ruído.

De vez em quando, a água tocava o casco com um som breve, depois se afastava e voltava a tocá-lo decorridos mais alguns instantes como se acompanhasse o movimento da embarcação.

Ao redor, o rio ocupava tudo.

As margens haviam desaparecido sob a névoa.

Palmeiras, campos, pequenas habitações, animais recolhidos para a noite — tudo permanecia em algum lugar além daquela cortina azulada. A mulher sabia que existiam. Havia atravessado aquelas terras antes. Conhecia os lugares onde a água encontrava a terra e onde o rio se estreitava entre as margens.

Naquela noite, porém, o mundo havia perdido suas referências.

Restava o rio.

E o barco.

E ela.

O remo permanecia apoiado junto à borda.

Em determinados momentos, a correnteza conduzia a embarcação; em outros, a mulher fazia um movimento lento com o remo, apenas o suficiente para corrigir sua direção.

Ela não parecia ter pressa.

Seu rosto recebia umidade da névoa.

Algumas mechas de cabelo haviam se desprendido e tocavam sua face.

Ela as afastou.

Depois permaneceu imóvel.

Havia uma estranha delicadeza naquela solidão.

A mulher podia ouvir a própria respiração.

Podia ouvir o tecido de sua roupa movimentar-se com o corpo.

Podia ouvir a água.

E, muito distante, quase fora do alcance da percepção, algum animal noturno emitia um som breve vindo da margem.

Ela voltou os olhos para aquele ponto.

Nada.

A névoa permanecia fechada.

Então olhou para trás.

O caminho percorrido pelo barco já havia desaparecido.

A água apagava a passagem quase imediatamente.

Foi nesse momento que ela percebeu a dimensão daquela noite.

Não havia testemunhas.

Não havia ninguém esperando na margem.

Nenhuma luz indicava uma casa.

Nenhuma voz vinha de outra embarcação.

Ela estava sozinha sobre o rio, cercada por uma extensão de água que continuava para além daquilo que seus olhos podiam alcançar.

E, ainda assim, havia algo profundamente vivo naquele instante.

A mulher colocou a mão sobre a borda do barco.

A madeira estava fria.

Mergulhou os dedos na água.

A corrente passou entre eles.

Por um breve momento, a claridade azulada se desfez ao redor de sua mão e depois voltou a se recompor.

Ela observou.

Parecia haver alguma coisa sob a superfície.

Uma luminosidade muito distante.

Quase branca.

Ela retirou a mão.

Permaneceu olhando para o lugar onde os dedos haviam estado.

Talvez fosse apenas o reflexo difuso do céu.

Talvez fosse a própria água devolvendo uma claridade que a noite não conseguia absorver completamente.

A mulher respirou fundo.

O ar estava frio e úmido.

Ela levantou os olhos para o céu que estava quase inteiramente escuro. Nenhuma lua. Poucas estrelas brilhavam enquanto a névoa subia do rio em camadas, tornando o céu e a água indistintos.

Por alguns instantes, ela teve a sensação de estar suspensa entre dois espaços sem horizonte.

O barco continuava avançando.

Então alguma coisa surgiu à frente.

Primeiro, apenas uma diferença na névoa.

Depois, uma forma escura.

A mulher endireitou o corpo.

Ficou olhando.

A forma parecia aproximar-se.

Ou talvez fosse o barco que estivesse indo ao seu encontro.

Ela procurou o remo.

Segurou-o com as duas mãos.

Esperou.

A forma continuou imóvel durante alguns instantes, como se estivesse parada sobre a água.

Então a névoa se abriu.

E ela viu uma margem.

Muito distante.

Muito baixa.

A mulher soltou lentamente o ar que havia prendido.

O barco seguiu naquela direção.

E, enquanto avançava, o azul da névoa começava a clarear muito lentamente.

Ainda era noite.

Mas em algum lugar além da margem, muito longe dali, o mundo começava outra vez a receber forma.

Ana, Gi, Órif e Teodora.

De nosso diário de bordo, 20 de agosto de 2026

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