
As gotas da madrugada
Não soube dizer em que instante o sono havia começado a se desfazer. A casa permanecia mergulhada na mesma escuridão, e os pensamentos ainda não haviam retomado seus lugares. Antes deles, porém, alguma coisa já acontecia.
Havia um som que parecia se aproximar lentamente de um lugar da consciência onde as palavras ainda não existiam. Primeiro era apenas uma presença discreta, quase confundida com o próprio silêncio. Depois voltou a repetir-se, sem qualquer urgência, como se conhecesse o caminho até a percepção antes mesmo que ela estivesse desperta para recebê-lo.
Somente quando o frio da madrugada alcançou o corpo que foi possível reconhecer aquele ritmo.
Uma gota.
Depois outra.
Mais uma.
A água desprendia-se lentamente da calha e encontrava o fundo metálico do balde deixado sob a beirada do telhado. Entre uma queda e outra, o silêncio retornava inteiro, não como ausência do som, mas como o espaço necessário para que ele pudesse existir novamente.
A porta da varanda permanecia apenas encostada. Por sua pequena abertura entrava o ar frio de um inverno úmido, desses que alternam manhãs de céu profundamente azul com chuvas discretas, suficientes para devolver às vertentes, às cachoeiras e aos reservatórios a água que atravessara o céu durante a noite. Ainda não havia luz para distinguir o quintal, mas a temperatura desenhava a paisagem antes dos olhos.
O balde permanecia ali por escolha. Nas manhãs mais rigorosas, uma delicada camada de gelo anunciava a força silenciosa da estação antes mesmo do amanhecer. Naquela madrugada, porém, as gotas ainda conservavam sua forma líquida, reunindo-se pacientemente, como se obedecessem a um tempo que desconhecia qualquer pressa.
Enquanto a água encontrava seu caminho, ocorreu-lhe, deitado na cama, um pensamento agudo do quão pouco havia mudado o gesto que se repetia ao longo das gerações: mudaram os recipientes, mudaram os telhados e as casas, mas havia permanecido o mesmo movimento de deixar um espaço preparado para receber aquilo que viesse do alto. Talvez toda abundância começasse assim: não pela posse, mas pela disposição de acolher.
Do lado de fora, a água media silenciosamente a intensidade do frio.
Do lado de dentro, outra necessidade começava a despertar.
Seria preciso alimentar novamente o fogo.
As brasas ainda repousavam sob a camada clara das cinzas, guardando o calor suficiente para que a chama voltasse sem esforço. Não havia oposição entre a água e o fogo. Enquanto uma anunciava a estação, o outro permitia atravessá-la. A casa parecia conhecer esse entendimento antes de qualquer pensamento, sustentando-se nesse equilíbrio antigo entre o frio que chegava e o calor que permanecia.
A primeira claridade da manhã começou, enfim, a tocar o telhado. As gotas continuavam caindo no mesmo compasso, como se o mundo jamais tivesse interrompido seu trabalho durante a noite.
Nada de extraordinário havia acontecido.
Ainda assim, naquela lenta travessia entre o sono e a vigília, tornara-se evidente que algumas das presenças mais constantes da vida não pedem por atenção. Apenas seguem seus percursos, repetindo-se com a mesma fidelidade de uma gota que encontra o caminho da calha, o fundo do balde e, por um breve instante, o ouvido de quem desperta para escutá-la.