O quintal ao cair da tarde

A tarde descia com a serenidade de quem já conhecia o caminho.

A luz demorava-se sobre as folhas do limoeiro, deslizava pelo muro aquecido durante o dia e ia perdendo intensidade entre os telhados vizinhos. Aos poucos, as sombras deixavam de ser ausência de claridade e passavam a ocupar o quintal como antigas moradas.

No centro do terreno, algumas achas de lenha começavam a despertar o fogo. Os primeiros estalos atravessavam o silêncio sem rompê-lo. Eram pequenos sinais de que a noite se aproximava.

Sobre a cabeça, fios cruzavam o espaço de um lado ao outro. Deles pendiam lâmpadas de luz morna e antigas bandeiras de festa junina, já suavizadas pelo tempo. Permaneciam ali porque, de algum modo, o quintal nunca deixara de celebrar.

As primeiras lâmpadas foram acesas enquanto o céu ainda guardava um resto de azul.

Pouco depois, uma música começou a escapar pela porta entreaberta da casa.

Ela caminhava devagar pelo quintal.

Misturava-se ao fogo recém-desperto.

Encontrava o vento.

Passava pelas cadeiras vazias.

E parecia permanecer um instante sobre a mesa de madeira, como quem também aguardava companhia.

Um a um, os passos começaram a chegar.

Sem anúncio.

Sem pressa.

Cada pessoa trazia alguma coisa.

Um violão.

Uma chaleira de café.

Uma história interrompida dias antes.

Um riso fácil.

Uma lembrança.

O fogo cresceu um pouco.

As cadeiras deixaram de estar vazias.

As conversas nasceram baixas, como acontece quando ninguém deseja romper a delicadeza do entardecer.

Falava-se de pequenas coisas.

Da chuva que finalmente chegara.

De uma árvore que voltara a florescer.

De um encontro inesperado.

De um trabalho concluído.

De um caminho que ainda estava sendo percorrido.

As histórias passavam de uma pessoa para outra com a mesma naturalidade das xícaras de café.

As bandeiras continuavam dançando entre as lâmpadas.

O vento atravessava o quintal.

A música também.

O violão encontrou as mãos de quem já o conhecia havia muitos anos.

Vieram os primeiros acordes.

Quase ninguém interrompeu a conversa.

A melodia foi encontrando espaço entre as vozes, como o fogo encontrava espaço entre as achas de lenha.

Só então alguém sorriu ao reconhecê-la.

As conversas diminuíam por alguns instantes e voltavam logo depois, como faz a maré quando encontra as pedras.

O café passou de mão em mão.

A chaleira voltou ao fogo.

Uma cadeira foi aproximada um pouco mais do calor.

Um pedaço de lenha foi empurrado com a ponta do pé.

As chamas responderam em pequenos estalos.

Ninguém conduzia a noite.

Ela ia acontecendo.

As histórias apareciam sem ordem.

Falavam de caminhos percorridos, de encontros improváveis, de dias difíceis que agora podiam ser lembrados com um sorriso tranquilo.

A melodia já não caminhava ao lado da música que saía da casa.

As duas haviam encontrado uma à outra.

Era difícil perceber onde uma terminava e a outra começava.

Havia risos.

Havia pausas.

Havia aquele tipo raro de silêncio que só acontece quando ninguém sente a necessidade de preenchê-lo.

Ali, o tempo parecia abandonar a pressa.

Como se compreendesse que certos instantes só acontecem quando ninguém tenta apressá-los.

Aos poucos, o olhar deixava a roda.

Passava pelo brilho da fogueira.

Pelas mãos que ainda repousavam sobre o violão.

Pelas bandeiras movidas pelo vento.

Pelas pequenas lâmpadas suspensas entre os fios.

E continuava mais acima, onde outras luzes já piscavam.

Por um instante, era difícil dizer onde terminava a constelação acesa sobre o quintal e onde começava aquela que, desde sempre, habitava a noite.

Lá embaixo, a música continuava.

O fogo respirava.

E a conversa seguia seu caminho.

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