
O estalo do interruptor sendo ligado ecoou junto à soleira da porta, ainda entreaberta. A lâmpada tubular rendeu um clarão branco, interrompido por pequenas oscilações da luz que vacilou algumas vezes, mostrando-se como alguém que desperta e se põe à porta, ainda sonolento e antes do despertar da própria casa. O ar, ali, parecia conservar o silêncio de muitos dias, com o pó a subir do piso a cada pisada estranha feita por um movimento incomum.
O primeiro cômodo era pequeno demais para dizer qualquer coisa sobre o restante da construção. À esquerda, uma parede branca seguia até desaparecer na penumbra. À direita, um velho cabide de madeira permanecia preso ao reboco, vazio, como se ainda esperasse um chapéu ou uma bolsa esquecida na pressa de voltar.
À frente, um corredor.
Não era longo. Apenas não permitia que se visse o seu fim.
Havia outras portas. Todas fechadas.
Nenhuma delas parecia abandonada. Tinham apenas aquela quietude das coisas que aprenderam a esperar sem contar os dias.
Então veio um som.
Não vinha da rua.
Também não parecia nascer do interior da casa.
Era um som discreto, quase doméstico.
Como uma folha de papel sendo virada por alguém em outro ambiente.
Quem quer que estivesse ali não fazia questão de anunciar a própria presença.
A casa, afinal, nunca esteve vazia.
Ela apenas aguardava o momento em que alguém voltasse a acender a primeira luz.
Aquele som que se repetia, folha a folha, envolvia o silêncio com alguma expectativa de que existisse, ali, alguém presente em um ambiente vizinho, embora sua presença só se pudesse supor pela origem do som, uma coincidência que se adivinhada pela acústica de uma realidade vizinha, se é que existia uma.
A lâmpada fluorescente, intermitente, dizia ruídos de indiferença a toda curiosidade alheia. Era o som do folhear de páginas, por outro lado, algo que indicava que existia alguém, poeticamente existente como um ser distinto, interpretando, iludindo-se e se vendo, talvez, menos diante de um livro do que diante de si mesmo.
O folhear, então, cessou.
Não como se alguém tivesse terminado uma leitura, mas como quem percebesse, enfim, que havia outro silêncio além do seu. A lâmpada continuou a estremecer no teto, e cada breve apagão devolvia ao cômodo a impressão de que ele ainda não havia decidido existir. Quando a luz retornava, um pouco mais do ambiente parecia consentir em ser visto. E havia estantes. Não se sabia quantas, ainda, ou se cheias, ou se estavam vazias, porque a claridade era insuficiente para distinguir os lombos das sombras. O cheiro, porém, denunciava papel antigo, madeira que absorve, havia décadas, a umidade como um vestígio mineral, paredes que aprenderam a conviver com as estações sem jamais serem restauradas. Vestígios de que ninguém falou. Mas, agora, se esperou por um bater à porta, ainda que fosse se ouvir um som oco repercutir no escuro ao ponto de se ouvir três batidas das juntas dos dedos de uma mão contraída em si e levada contra a madeira; além de um corredor existir a frente com a porta entreaberta, por mais que, do outro lado do ambiente, existisse uma sensação de que a interrupção das páginas viradas naquele instante não havia sido uma coincidência, mas sim uma resposta. Não ao ruído do interruptor, nem aos passos, mas ao simples fato de haver, agora, duas presenças dividindo o mesmo recinto — uma delas de carne; a outra, impossível de situar com precisão.
Então o folhear recomeçou. Mais lento. Não vinha do cômodo iluminado, mas de algum lugar adiante, onde o corredor se estreita e a luz branca morre antes de alcançar a curva. Não era um ritmo de leitura. Parecia alguém procurando uma página específica, ou tentando reencontrar uma frase que soubesse existir, embora já não lembrasse em que livro a havia deixado. Essa era uma questão. Ou, ao menos, parecia ser.
No corredor, imóvel, um vaso de tamanho considerável ficava menos visível à distância da porta entreaberta, onde a lâmpada já não alcançava, e o branco se desfazia numa penumbra de contornos indecisos. Havia qualquer coisa de inconveniente naquele silêncio interior recuperado, porque parecia admitir visitas em dias de domingo sem que delas o visitado necessitasse. O vaso não oferecia resistência. Limitava-se a aparentar o vazio de continuar ali, indiferente à hipótese de existir em um ambiente desconhecido, pronto a se desmanchar como barro e pó de que era feito.
O vaso permanecia imóvel, mas a sua presença alterava a medida do corredor. Não pela altura, nem pelo barro escurecido em que pequenas fissuras desenhavam rios antigos, mas porque parecia ocupar um lugar escolhido antes que a casa aprendesse a chamar-se casa. Aproximar-se dele não diminuía a distância até as suas curvas; apenas fazia surgir detalhes que, de longe, não existiam. Um aro gasto junto à base. Um risco horizontal como o vestígio de outra posição. Um grão de terra, ainda úmido, junto ao rodapé, onde não deveria haver terra alguma.
O folhear continuava adiante, paciente, como se soubesse que ninguém atravessa um corredor apenas com os pés. Há travessias que começam quando o olhar aceita permanecer um instante a mais sobre aquilo que parecia não ter importância.
“Gostaria de um pouco d’água…”, era um pedido estranho em um ambiente que não parecia ter algo nesse sentido. Depois, uma parada da leitura ao copo de água sobre a mesinha, momento em que o entorno se iluminou à luz de uma memória alcançada, à luz de uma realidade lembrada, intuída e sentida na exata dimensão do sabor do primeiro gole de água à boca, a ideia de que se sacia a sede e se coloca o recipiente, como o vaso a um canto da sala, como um copo vazio sobre a mesinha de leitura, e a ideia de que algo se consumiu com o tempo.
Não era a água.
Nem a sede.
Talvez fosse apenas aquele instante em que um gesto tão antigo quanto beber algo devolve às coisas o peso tranquilo de continuarem existindo onde havia uma lentidão que não pertenceria ao domínio dos relógios. Era outra medida. Como se cada objeto aguardasse o momento exato de voltar a participar do mundo, sem jamais ter deixado realmente de fazê-lo.
O copo permaneceu sobre a mesa.
Então a página tornou a mover-se.
Uma.
Depois outra.
Sem ansiedade.
Quem lia não procurava terminar um livro. Parecia apenas acompanhar o tempo necessário para que as palavras encontrassem quem pudesse recebê-las.
No corredor, o ar modificou-se quase imperceptivelmente.
Não havia corrente de vento.
Mesmo assim, uma das folhas secas trazidas para dentro da casa, sabe-se lá em que estação, desprendeu-se do rodapé e deslizou poucos centímetros pelo piso, até repousar junto ao vaso. Ali permaneceu, inclinada sobre o barro, como se ambos compartilhassem uma mesma memória da terra.
A lâmpada voltou a vacilar.
Dessa vez, porém, o breve escurecimento não trouxe a impressão de ausência.
Trouxe profundidade.
Quando a claridade regressou, pareceu menos branca do que antes. As paredes continuavam as mesmas, o corredor também, mas alguma coisa havia cedido entre o olhar e a distância. O espaço já não resistia tanto à possibilidade de ser atravessado.
Talvez porque toda casa reconheça o instante em que deixa de ser observada para começar, silenciosamente, a observar de volta.
Os passos demoraram a acontecer.
Não por receio.
Era difícil explicar por que permanecer parado parecia, naquele momento, uma forma legítima de caminhar.
Cada respiração aproximava um pouco mais o corredor, sem que o corpo precisasse mover-se.
Foi então que o cheiro da água alcançou aquele lado da casa. E ouviu-se risadas de crianças brincando no corredor, onde não havia o cheiro de água corrente, nem sequer de chuva. Era o perfume quase inexistente da água repousada em um copo de vidro, misturado ao odor antigo das páginas, da madeira e do pó, com folhas de um jardim para chás diurnos, sendo uma lembrança impossível de se localizar. Daquelas que não pertencem a um dia específico, mas a muitos dias sobrepostos.
Como as tardes em que alguém lê até esquecer que está lendo enquanto brincam crianças com cachorrinhos dóceis nas manhãs em que uma casa desperta antes de seus moradores, mantendo acesa apenas a luz suficiente para que o silêncio encontrasse o seu lugar.
O folhear cessou outra vez.
Desta vez não por interrupção.
Mas porque havia chegado à última página daquele momento.
Não necessariamente a última do livro.
Apenas a última que o tempo consentiu oferecer antes que outra presença, ainda sem nome, resolvesse atravessar o corredor.
E, pela primeira vez, o silêncio pareceu esperar por um encontro que nenhum dos dois lados havia marcado, embora ambos, de alguma maneira, soubessem que ele sempre estivera destinado a acontecer.