A Tempestade

A Tempestade

Edição Especial de Inverno 2021

Com qual ponto histórico estamos sincronizados?

Minha pergunta ecoou solitária pelo espaço preenchido pela névoa que a cada instante se tornava mais espessa diante de nossos olhos. Foi uma pegunta necessária depois que o pombo mensageiro voou do antebraço direito de Ana, voando a ave biomecânica para dentro da substância da névoa enquanto nós cinco nos aproximávamos, dentre nós, porque já sabíamos que dali a instantes não teríamos a visão de um palmo diante de nossos rostos.

K procurou identificar o ponto histórico por aspectos alquímicos relacionados ao tempo de que se sabia ter conhecimento através das mudanças de estados naturais. Percebi que Sany se ocupava com imagens holográficas dispersas na névoa, porque cenas iluminadas se davam próximas a ela enquanto nós nos fechávamos em nossa cabine temporal. Bella, por outro lado, fechava as comportas e as escotilhas de nossa nau já prevendo uma forte turbulência que adviria, provavelmente, com a tempestade.

Foi quando Ana nos lembrou de uma paisagem na qual uma curva de um rio tornava possível uma experiência de passagem entre suas margens: a margem de um lado, que era silenciosa e para a qual se abria a mata, e de outro, uma margem murmurante com as águas a escorrerem sonoras em meio a um leito de pedras. 

“Estamos prontos” – afirmou K se colocando no assento da cabine de onde deu ignição ao virar a alavanca do motor a vapor de onde exalava enxofre da combustão de carvão. Foi quando Ana nos avisou que seriam os Luns a nos esperar do outro lado, uma vez ultrapassada nossa linha temporal. Ana tinha conferido a comunicação mecânica-orgânica da nossa nau e, então, afirmava, com um gesto de sua mão livre, que a comunicação se encontrava em perfeito estado. Nós, portanto, estávamos sincronizados a um ponto temporal do século XVIII quando a névoa se tornara mais espessa.

Foi por uma combinação de fatores que a mecânica a vapor se transformou no revolucionário motor de fábricas que transformou as paisagens do século XVIII. Por princípios de movimento autorregulado, o silêncio de paisagens bucólicas se tornou rugidos de fios de correias esticadas e estalidos metálicos. Fumaça, fuligem, os sons que viriam dos estaleiros no caís em que novas embarcações a vapor eram construídas, preenchendo mares siderais a contar com o bafo das caldeiras de onde saía um cheiro característico ao desenvolvimento térmico-físico-mecânico da época para a nossa chegada.

Mas a tempestade se aproximava.

Manômetro de latão.

Nossos instrumentos de navegação sentiam as alterações das descargas eletromagnéticas, assim como as sombras dos tenebrosos que pareciam se adensar pela espessa névoa em que nos resumíamos no interior da cabine temporal. Nossa nau era uma fortaleza, embora trepidasse com as ondas telúricas em que navegávamos sob maior pressão. No manômetro, estávamos para entrar na curva que dá passagem a viagem no tempo, gatilho mental a um percepção relativa a um ponto de mudança no tecido temporal.

Uma vez dentro de uma tempestade, nossa cabine dá sinais da passagem de uma tormenta pelas luzes e lâmpadas que se acendem e que se apagam num campo de um conhecimento teleológico. Os ruídos são como preâmbulos das experiências temporais a que vamos passar, elementos subjetivos que nos atentamos na vivência de estar na névoa do tempo.

Por isso, com a chegada da tempestade, os ruídos se transformaram em sons aterradores de trovões e de rugidos mecânicos como feras enjauladas que se encontram em meio a grandes arenas a bárbaros combates. É quando os instrumentos parecem colapsar, só que atenção redobrada à consciência do que existe do outro lado da viagem, nos leva a seguir em frente por aquela estrada de terra pela qual continuamos, no tecido do espaço-tempo, como um grupo unido. Depois, o som das águas do rio dá lugar aos clarões de raios que são, assim, silenciosos, mas que nos despertam para uma realidade da qual outros sons de um mundo ordinário começam a nos chegar pela cabine temporal.

De nosso diário de bordo, dia 07.

Edição Especial de Inverno 2021

Ficções Especulativas

De nosso diário de bordo

Período de 09/07/2021 a 31/07/2021

Tripulantes de nossa nau
Gi Nascimento

Escritor De nosso diário de bordo e pseudônimo de Egídio Mariano.

artesfatos.comEgidio MarianoEgidio Mariano
Ana Balesca

Artesã e Tecelã

Ana Balesca Atelier

De nosso diário de bordo 2021

Nossa Nau – um diário virtual de nossa navegação histórica, um blog sobre nossa jornada que se registra por meio do espaço conceito de institutoshoin.com.br

 

Por que “Instituto Shoin – Espaço Conceito”?

Uma instituição são pessoas que compartilham uma visão de mundo ou um propósito comum. Com o intuito de servir de abrigo às iniciativas pessoais de transformação dos meios de vida a um bem-estar, nasce o “espaço conceito” do “Instituto Shoin” como site a blogs pessoais e ficcionais para uma narrativa iniciada no final da primeira década do atual século XXI, em fins do ano de 2009, sendo que o termo “Shoin” tem tradição de origem nipônica, a significar um espaço específico dentro das habitações japonesas que são destinadas a receber visitas e a ser um ambiente de diálogo, de estudo e de meditação.