Instinto e Intuição

A Aldeia De nosso diário de bordo

A Aldeia é um pouco o instinto de gatos e a intuição de gente traçando um espaço que chamamos de lar, do qual saímos e ao qual voltamos por meio de passagens que nem bem certo compreendemos que relação tem com os nossos destinos.

Fotografia da cachoeira que se encontra à entrada da Aldeia:

Se um dia você nos visitar, talvez tenhamos a oportunidade de reparar numa atmosfera que reconhecemos por aqui em casa e que nos parece levar a uma tranquilidade e a uma paz, quem sabe, pouco comum de se encontrar em qualquer lugar.

Poderemos reparar, por exemplo, que em dias nublados e de janelas fechadas por vidros, o voo de insetos, daqueles minúsculos borrachudos que ficam presos pelo lado de dentro de casa, se dá, então, interrompido devido a um limite invisível de fronteiras erguidas a um minúsculo mundo, ainda que seja feito de insetos com asas, e essas asas, conforme suas formas, sejam chamadas de himenópteras, de dípteras, de coleópteras e ortópteras, e tenham elas todos os demais conceitos que se relacionem aos invertebrados que dominam um mundo inteiro, embora alguns se encontrem presos sem compreender bem o que signifique isso.

Ana Balesca e eu estamos em um mesmo espaço em que nos encontramos à escrita, encontro que se dá ao que compartilhamos esse bem querer comum, entres pessoas e seres que nos acompanham. É ela que me adverte:

“E nem tudo são flores”. 

“Sim”, concordo com ela e digo-lhe num raciocínio que se alonga pelo nosso espaço entrecortado por insetos minúsculos que voam de um vidro a outro:

“As recordações são zumbidos nos ouvidos da gente. Às vezes, zumbidos de abelha que nos chamam atenção para o alimento que é doce, e de que, no quintal, também tem fruta madura”, lhe falo, referindo-me à geleia de framboesa que foi feita por ela a partir das frutas que ela havia colhido dias antes, e que agora estava sobre a mesa na forma adocicada que adere a uma fatia do pão que, aliás, também é obra dela.

“Portanto”, diria ela em meu pensamento que se distraía com insetos: “é bom lembrar que mais alguma coisa existe para além das aparências do que se conta”. Coloco-me diante da advertência dela, observando os eventos que são narrados, mas sem que aconteçam. Assim, releio o texto, afirmando-lhe:
 
“Uma frase que posso destacar é: tem alguma coisa errada; porque acho que se trata de um intuição que nos livrou, na verdade, de situações muito embaraçosas”. Então, eu fico em silêncio por alguns instantes, observando os gatos brincando com mariposas e borboletas no quintal, estando de alguma forma consciente do que me ocorre do lado de dentro de casa quanto ao que levo comigo, e, então, prossigo:
 
“Essa relação entre a intuição e o instinto, anima e animus, é um lugar estético e místico, como nossa Aldeia”, digo-lhe a fim de consultar a opinião de Ana, alimentando, eu, a ideia do texto pela construção da prosa numa frase na qual a gente se vê presente por meio de uma alguma intuição quanto aos seus significados, porque nos somamos à experiência de desenvolvermos num corpo sutil, poético, anima, desde que, de modo particular, essa sutileza possa surgir na confiança e no respeito, dados até de uma forma incondicional da entrega pelos nossos gatos quando esses se deixam ficar em nosso colo, ou nos nossos braços, mas sempre diante das circunstâncias do dia a dia de uma convivência muito próxima e querida.
 
Então, não nos seria surpreendente que a presença dos gatos, desde o Natal do ano passado, tenha nos fortalecido por meio de um sentimento de responsabilidade comum pelo bem estar de cada um desta casa subjetiva em que nos encontramos. Ana e eu já nos sentimos avós de felinos diante dos gatos adotados por nossos filhos, e eles acentuaram um sentimento de proteção em que nos queremos bem em casa.

A casa e a Aldeia tornam o circulo de nossa vivência subjetiva um limite para além de nosso lugar no mundo, uma vez que é reconhecido por uma forma comum de estarmos dentro desses espaços de fronteiras subjetivas, dentro dos quais encontramos consideração e respeito.
 

De nosso diário de bordo, 26 de novembro de 2023

Ao lado, imagem do cacho de bananas colhido do quintal:


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