A Aldeia De nosso diário de bordo
As teias da vida da gente se tornam os fios dos filtros de sonhos em um cotidiano, porque “capturam” momentos e experiências que podemos ter em cada época por meio de eventos em que nos encontramos e que nos valem ser vividos.
Para além da Aldeia, há Desterro.
Fundada no século XVII, o palco de nossa história em “A Lua e a rua”, Nossa Senhora de Desterro é a Ilha em que transitamos, hoje, por meio de plataformas de transporte público que estão integradas às linhas de ônibus. Nessas plataformas, encontramos, também, uma ou outra caixa de metal que parece se erguer alongada do piso, contendo três ou quatro prateleiras, e das quais as pessoas se servem à escolha de algum livro.
Assim, do trajeto da casa ao trabalho e do trabalho à casa, as pessoas podem usufruir de momentos de leitura. Daí que tivéssemos mais pessoas entretidas com palavras do que com celulares já na ideia de viverem um sonho absurdo de uma realidade mediada por um aparelho, o que me é esquisito, ao em vez de ter os olhos voltados à paisagem, particularmente o que mais me interessa durante o deslocamento.

Em uma outra forma de percurso, não apenas a forma que ocorre no plano literário e intelectual somada a que ocorre pelo espaço físico, convém falar da forma astral. E a misteriosa cultura egípcia da Antiguidade nos chega por alguns nomes que podemos chamar de mestres à área da egiptologia, que é área de meu interesse, especialmente do ano de 2017 para cá. Além disso, algumas referências, as que nos chegam destinadas a sanar um momento ruim de nossa história, podem vir por aparente mero acaso, como no caso do nome de Ana ser correspondente ao nome escrito numa dedicatória feita pelo autor de um livro, intitulado “O Santo do Terceiro Milênio”, o que em muito me chamou a atenção.
Nesse aparente caos em que tudo se transmuta, um momento, em particular, deve ser ilustrado em razão do que acontecia na Aldeia no tempo em que eu estava com Violet no terminal de ônibus à espera da hora do embarque.
Era uma segunda-feira e se tinha concluído um ciclo de estudos aqui em casa. Violet e eu estávamos no centro de Desterro, alinhados a uma realidade urbana como nós a tínhamos vivido na série “A Lua e a rua”. E não sabíamos que, na Aldeia, Sunny cuidava de Ana em razão de uma tristeza que havia a abatido.
Naquele dia, no que Violet e eu voltamos pra casa ao fim da tarde, encontramos Ana Balesca nesse estado ruim de espírito. Foi quando eu lhe contei sobre o livro que lhe trazia pela intuição de poder olhar com um maior cuidado o que a prateleira de livros continha, isso lá no terminal de embarque, 30 minutos antes, quando algo, ao que parecia, estava destinado a ela: um objeto que me veio como o livro que eu lhe trazia.
“Comprou o livro?” quis entender Ana de onde vinha o livro.
“Não, o encontrei naquelas caixas literárias dos terminais”, disse-lhe e, depois que Ana passou a folhear o livro, acrescentei: “dá uma olhada a quem está dedicado e, salvo engano, assinado pelo autor”.
Quando eu li a dedicatória, eu lia até descrente, porque era como se você, Gi, tivesse comprado o livro e, a seu pedido, sido feito uma dedicatória, me relata, agora, Ana diante daquele momento que lhe trazia três instantes distintos: o do sonho que ela teve, isso já há alguns anos atrás, sobre três postas de carne; o do encontro com a fé por meio de um cosmos feminino que, no sútil, representava-se por um cão sendo dominado pela emblema da mulher que traz sobre o ventre a força, como o significado da lâmina do tarô do par animus e anima; e, finalmente, aquele nosso instante, esse terceiro momento de um evento aguardado por nós dois, embora Ana Balesca estivesse mais envolta por uma tristeza que lhe dificultava a visão da natureza até mágica daquele livro entre suas mãos.
Nosso esperado terceiro momento se refere ao deste livro que significa um daqueles achados extraordinários que nos colocam a par de uma realidade que desconhecíamos e que nos leva a interpretar, pela leitura, essa mesma realidade comum de uma maneira até fantástica, como o foi para mim, por exemplo, a leitura de “A Serpente Cósmica: A Sabedoria Iniciática do Antigo Egito” de John Anthony West em relação à egiptologia.
O livro de autoria de Olivo Cesca sobre o “Padre Pio – O Santo do Terceiro Milênio” se tornou muito marcante desse modo. Contei para a Ana a razão, indicando-lhe o livro em suas mãos:
“Ana, no caminho pra casa, pude ler vários trechos e me parece um livro incrível pelo que o testemunho, quase que vivo, nos leva a compreender. E isso é feito pela escrita de gente que pôde acompanhar a vida de alguém que se entregou a um Caminho de fé como o fez Padre Pio, vivendo, em Cristo, à realidade católica. É impressionante”.
Mas eu não a alcançava. Ela estava distante, embora a um passo de mim, em um estado que meu entusiasmo pelo livro não a alcançava.
Se Ana não estivesse absorta em tristeza em razão da escassez que a afligia, teria ela, por si só, se dado conta do livro que eu lhe trazia de uma maneira tão singular, ligando os pontos numa dimensão do plano espiritual com um mundo humano. E quem sabe, teria percebido que aquilo seria algum tipo de resposta que lhe era necessária ao sentimento de tristeza, tal era o sentimento que a aprisionava dentro de um estado de desânimo. Só então, mencionei:
“A gente interpreta a árvore da vida da gente na alquimia das almas. Isso significa que nos levamos a um entendimento de quem realmente somos através das crenças que temos em relação a um sentido de origem, de uma ancestralidade concebida na criação”, foi o que eu lhe disse. Foi sobre o quê eu podia lhe trazer, e não apenas quanto ao objeto que se tratava o tal livro, mas de uma ideia de ser, a escrita, um filtro a servir de exemplo para uma leitura que Ana faria, daquele mesmo instante no futuro, quanto faria ela do filtro, o significado do que, certamente, nos dávamos a nos olhar de modo comum, sobre o que nos transmutávamos de sentimentos tão distintos que, naquele instante, estavam distantes quanto à gente.
Assim, nos esclarecemos pelos sentidos que nos levariam à compreensão de que “o sentimento é o bem mais precioso, dos que já se foram, dos que aqui estão e dos que virão“, marcando, de maneira decisiva, o que se esperaria do melhor de nós dois quanto ao que, algum dia, se desejou se tomar por uma base a um futuro comum. Por isso, me parecia que, ao menos naquele momento, Ana Balesca tinha obtido uma resposta ao sentimento de tristeza que sentia, uma forma de um plano astral interagir pelo acaso de um livro estar na estante de um terminal urbano da cidade de Desterro.
De nosso diário de bordo, 03 de dezembro de 2023
Sala de casa início século XXI
