Conversa com aranhas

A Aldeia De nosso diário de bordo

O encontro é um olhar de correspondência pela experiência do compartilhar os tecidos escritos que nos tornamos à pele dos corpos em que nos significamos.

Vamos lembrar da linha sutil que liga um livro no terminal de ônibus a um evento de nossas vidas particulares. Um livro fruto de uma variada gama de experiências que se materializaram pelas ações de pessoas, agora anônimas. Um livro que estava lá no terminal de ônibus em razão de um trabalho cultural de incentivo à leitura e que entrou pela porta da frente de nossa casa de forma honrada à história que trazia em seu bojo.

“É óbvio que não se trata de um evento isolado… Tudo é obra de uma permanência viva”, me diria a senhora aranha do alto de sua teia que fica entre um galho e outro do limoeiro nos fundos de casa.

Como a palavra é suporte às ideias, a aranha com a qual eu gostaria de falar é a mesma do realismo fantástico do escritor argentino Júlio Cortázar, mestre que nos serve de suas letras de maneira comum pelo conto “História com aranhas” presente na coletânea Orientação dos Gatos da edição de tradução brasileira de 1981.

“Nada ao acaso”, penso. 

Cada aranha, na Aldeia, tem seu espaço pelo hábito da afinidade que possa ter com seu ambiente. No limoeiro, por exemplo, há liquens de tons escuros e de cor verde mais claro pelo tronco, há musgos e barbas de velho, sendo um pé de limão de muitos anos e que está lá por sorte de alguém ter jogado pro mato, do caminho que perto passava, as sementes que restaram de um fruto consumido. Mas quem recordaria dessa história? Ou saberia desses detalhes, se não as aranhas?

Na “História com aranhas” de Cortázar, você adentra a um mundo de possibilidades a partir de um bangalô em uma praia, quase que deserta, e a natureza daquele isolamento de dois personagens, descritos em férias, se assemelha, um pouco, com o isolamento de nossa Aldeia, já que é onde a aranha tece sua teia, esticando algumas linhas em meio a cor do escuro tronco de musgo, indo de um galho a outro do limoeiro, assim como outra de sua espécie teceria a teia no canto do cômodo do bangalô à praia de Cortázar.

São dois ambientes que se aproximam frente ao reflexo da interpretação e, tanto à época da leitura do conto, leitura coletiva feita em sala de aula na graduação literária, quanto ao que é hoje, pode-se dizer que são ambos ambientes de uma natureza complexa em razão das inúmeras descobertas que nos possibilitam pelo abrir e fechar de olhos.

Porque há 40000 anos esses mesmos elementos técnicos de ligar pontos de vistas já narrados estavam presentes em habitantes humanos na Idade da Pedra Média do sul da África, e são exemplos de narrações indicando uma habilidade cognitiva avançada, porque se tratam de narrativas que demonstram noções de um pensamento abstrato, histórias dadas sob um raciocínio analógico, visando ordenar multitarefas a uma fluência cognitiva de combinações pela consciência de uma capacidade de inovação.

E colher o limão do pé, então gesto simples de romper o tecido da teia da aranha que se encontra entre um ponto e outro de minha ação, é dispor de um objetivo compartilhado por mim e pela aranha, embora ela não possa fazer uso de minha ação em sua dimensão própria: foram nossos ambientes que mudaram, estando neles, tanto os insetos como os frutos. É um ecossistema possivelmente inóspito a uma espécie de vida, e fértil a outra, onde parece existir sempre um equilíbrio como uma linguagem figurada por passageiros do tempo que, em outros quase cinco mil anos atrás, compartilharam o contexto desse nosso cosmos, lar no qual habitamos e que é construído a partir de dois pontos ligados, tais como nos tornamos, também Ana e eu, partes de uma mesma origem mítica dividida pelos mesmos elementos que temos entre aranhas e insetos, e onde nem tudo são flores ou frutos, mesmo em nossa Aldeia.

 

De nosso diário de bordo, 10 de dezembro de 2023

Aranha no quintal: