A Aldeia De nosso diário de bordo
Do seguir em frente ainda que se lançando raízes à terra a partir do que se é quando em busca de algum porto seguro e o reconhecimento da ancestralidade como um bem imaterial sob uma forma de expressão temporal reconhecida.
“O faz de conta se foi”.
Alguns eventos não exigem muita explicação, porque acontecem uma ou duas vezes na vida da gente e depois eles deixam de existir ao ponto de caírem no esquecimento e por lá permanecerem por muito tempo, ou não.
Foi em um dia depois da primeira lua cheia dessa Primavera que um pato caiu no meio da mata bem perto daqui de casa, o que nos causou certa surpresa. Não criamos patos no quintal e as aves que temos são do próprio jardim que cultivamos em torno de casa, sendo elas presenças mais sutis no pouso e no alçar voo do que um pato de mais ou menos três quilos, de penas brancas e pretas, um tanto curioso e até bem folgado, porque, depois da queda e uma vez inteiro, ele se sentiu bem à vontade para entrar dentro de casa como gente e se acomodar na cama da gente como fosse seu ninho.
Antes disso, foram os nossos gatos que inspecionaram o local da queda do pato e que o desentocaram de algum buraco escuro em que ele havia se escondido. Desse buraco escuro no meio do mato ao interior da casa da gente, e não sei se a convite dos gatos, se diria apenas um pulo de um pato desajeitado que parecia querer morar conosco, mas que depois encontrou algum motivo para seguir sua viagem, saindo de dentro de casa e, uma vez no quintal, lançando-se de asas abertas a partir do ponto mais alto que ele tinha alcançado, do teto do carro estacionado.
O seu voo foi incerto e deu em nova queda depois de um bambuzal que está para além de nossa Aldeia. Então, ficamos por dias sem saber dele, observando, nesse meio tempo, que urubus voavam, de quando em quando, em torno do mesmo ponto onde, também, o pato desaparecera.
Ana e eu, geralmente e por hábito de gente antiga, nos damos a um momento de nos sentarmos na calçada bem em frente de casa e, depois, a uma conversa ao final das tardes. E entre um assunto e outro, vinha à memória a ideia do pato que se encontrava em algum lugar que nos era desconhecido.
“Tomara que ele esteja bem onde quer que tenha ido”, disse Ana Balesca sem me deixar a par do que lhe vinha depois como seus pensamentos naquele final de tarde.
Ela olhava na direção do bambuzal. Dava pra saber que Ana se referia ao pato pelo receio de que aquele voo dos urubus acima do bambuzal fosse, também, um sinal de que o pato já teria virado carniça por qualquer razão que tivesse origem em sua queda ao fim de seu curto voo.
“Achei interessante que o pato tenha vindo à procura de um abrigo”, falei, por minha vez, à Ana, tendo eu a imagem daquele pato no nosso quarto pela memória. E continuei:
“A gente tem essa necessidade de representar alguma coisa de um evento que pode não significar nada”, disse-lhe eu, já me referindo ao voo dos urubus.
Para além da Aldeia, no horizonte, o sol poente sobre o Morro da Cruz era de um intenso vermelho em contraste com a noite chegando e o céu azul escurecendo. Moramos numa região mais alta em relação à cidade de Desterro. E ao fim da tarde, o momento parece ser dedicado a uma reflexão que, geralmente, nos toma pelos sentidos em que nos compreendemos como parte da paisagem, persistindo nossa dúvida a respeito do que faz parte dessa nossa mesma vivência de paisagem.
O voo dos urubus era um pouco errático, mas a quantidade chamava a atenção. Ana o mencionou, deduzindo que os urubus procuravam alguma carcaça grande. Falou a respeito do pato, admitindo que ele não duraria dias como carniça se fosse assim encontrado pelos urubus e, portanto, talvez não fosse nada.
Era-nos óbvio que o pato tivesse quem cuidasse dele e do nada não teria se originado. Por outro lado, havia sumido. Teria morrido?
“Acho que se ele quisesse, teria ficado. Estava bem familiarizado com a gente pelo que parecia”, observou Ana.
Admiti que sim, confirmando o fato de que o pato tinha sido bem recebido, embora nós nos mantivéssemos a uma certa distância, como o fez a Cacau, uma de nossas gatas, mesmo quando desentocou o pato da mata ao que ela o trouxe para mais próximo de nossa casa.
De vez em quando, nos dias seguintes, a ideia da necessidade do pato por um abrigo era algo recorrente nos pensamentos por nossas recentes vivências do que aprendíamos a respeito da espiritualidade. Haveria algum significado extraordinário na aparição do pato em nossa Aldeia? Sim, particularmente pelo que acredito. E essa é a parte, talvez, mais extraordinária que tenha nos ficado daquele dia, em especial, porque se tratava de um animal simbólico na dimensão de uma espiritualidade representada por ele, além de ser sua conduta algo que tornava sua aparição e sumiço ainda mais envolto de mistérios.
Foi depois de um tempo, quando nem bem mais pensávamos no pato, que se deu nova aterrisagem desajeitada no quintal e a surpresa foi de algum modo igual à primeira vez que tinha ele aparecido.

E dessa vez, o pato passou o dia inteiro em nossa Aldeia, fazendo uma espécie de um reconhecimento do terreno em que parecia procurar residência. Sentindo-se bem à vontade ao final daquela tarde, parou, então, no ponto onde Ana e eu geralmente nos sentamos para conversar ao terminar do dia, e dali olhou para o mesmo horizonte que costumamos olhar em meio aos nossos pensamentos. Não muito mais tarde, ao anoitecer, o pato encontrou abrigo num vão que fica debaixo da casa, lugar onde foi provavelmente dormir, embora não tenhamos certeza, porque, na manhã seguinte, já não estava mais lá.
De nosso diário de bordo, 15 de novembro de 2023
Leia em “Os habitantes”, nossa próxima página, a relação dos gatos com nossa Aldeia e o misterioso ataque que um dos gatos sofreu por uma criatura de dentes afiados.
Clique abaixo e conheça o Realismo Mágico De nosso diário de bordo

Parabéns, Gi! Texto, ilustração e fotos maravilhosos! AMEI!
Regina, é muito bom receber um retorno seu tão positivo pelo conhecimento e mais o carinho da sua amizade em que nos encontramos tão bem envolvidos. Seguindo em frente a cada encontro, a gente segue caminhando junto! Um abraço de saudades!
show Gi, me colocou nesse lugar e situação inusitada, me senti meio pato, caindo aqui e acolá, mas sempre vivo procurando o aconchego mesmo com os urubus no céu. Maravilha, forte e fraterno abraço meu amigo.
Alegria em ter você por aqui, Alex! Ana e eu rimos da graça do pato desajeitado como você o descreveu pelo comentário, além dessa ideia de dele buscar o seu lugar, mas se sentindo em casa em qualquer lugar que estivesse. Sempre vivo como você disse acima. Forte abraço, caro amigo e agradeço pelo elogio e comentário!
Impossível não submergir no texto. Revisitei situações parecidas (porém com cachorros) que me geraram a mesma questão. Espero compartilhar na calçada com vcs.
Que prazer ter um retorno seu tão próximo às nossas vivências, Ju! Esse é um espaço pra gente! Estamos aqui, de braços abertos aos amig@s de vários momentos que vivemos, mesmo que distantes! Saudades! Quando quiserem vir, vocês são super bem vindas e será divertido aproveitar o espaço com as vivências e as histórias de vocês! Abraço a você, a filhota e a tod@s que acompanham vocês <3 !
Testo muito real. Que coincidência, esse mesmo pato esteve aqui em casa, ficou alguns dias e depois desapareceu. Ouvi comentários que esteve na casa de um vizinho aqui próximo.
Olá sr. Ribeiro! E não é que a realidade da gente tem um pouco de fantástico, né? Ninguém sabe de onde veio ou para onde foi o pato! kkkkkk! Mas me parece um bom sinal, pelo menos na casa de gente boa ele passou rsrsrrs! Um grande abraço!