Ana, a Rainha.
De nosso diário de bordo
Lançada em 22 de maio de 1986, a música “Tempo Perdido” de Renato Russo, em sua versão original no Rock de Legião Urbana, preenchia minha cabine sonoramente enquanto eu assistia, pela telemagem, ao Somos tão jovens, filme biográfico sobre Renato Russo, lançado em 2013. Pelo que nos dissera Sany durante a checagem de datas, fiquei pensando em nossa data de retorno do passado, uma vez marcado nosso embarque para 22 de maio de 1796, num domingo, ou seja, cerca de duzentos anos antes de qualquer das datas mencionadas serem compreensíveis, isso até que…
“Estamos prontos”, informava-me Bella ao interromper o áudio ambiente da minha cabine ao transmitir, do hangar de carga, sua voz e, pela telemagem, a cena em que alguns homens gigantes, da vistoria intergalática temporal, desembarcavam nas docas do cais.
“Atracamos” a voz de Ana ecoo a informação no interior da cabine temporal.
“Qual é histórico para nossa localização?”, eu lhe perguntei.
Estávamos novamente na cabine de navegação. A pergunta, ali, nos colocava de par em par, embora fôssemos em número de cinco tripulantes. Nos painéis de controle da nau, holograficamente, tínhamos diante de cada um de nós, uma sinalização de rotina em que se verificava todo sistema temporal embarcado necessário para que nosso desembarque ocorresse sem outros contratempos.
“Vamos precisar de máscaras!” nos avisou K, saindo finalmente da posição de engenheiro das máquinas a vapor. “A atmosfera está ácida! Muito propensa a causar danos respiratórios”, complementou Sany, nossa médica e bióloga, ao observar os índices de poluição local. Bella, nossa navegadora, suspirou aliviada da tensão da qual acabava de se livrar com o término da navegação em terras que nos são estrangeiras, retirando dos braços e das mãos os equipamentos de direção da nau. Bella, então, soltou um “finalmente” enquanto se preparava ao desembarque, que, de rotina, exigia mudança dos nossos trajes, os quais fossem à semelhança da época, de modo a que não destoássemos. Sentei ao lado de Bella enquanto estávamos na cabine dos trajes de época, colocando-me eu a calçar um par de botas que me pareceram bem desconfortáveis ainda que, em razão do movimento intelectual iluminista, os homens houvessem diminuído o uso de calçados com saltos elevados, à moda de Luiz XIV; isso por volta de 1740, a partir do que os homens se utilizavam de um vestuário um tanto mais mais prático, embora não, de todo, tão confortável.
“Como foi a burocracia?” perguntei à Bella, encontrando eu dificuldade com o cano longo da bota para o frio.
“O de sempre… Alguns momentos prós, outros contras… como o alfandegário local que, acredite, não estava muito consciente de que nada mudou lá fora”. Por cima de sua camisa, Bella vestia um colete justo, sobrepondo um casaco curto aos ombros que vinha até a cintura, tendo um suporte, no forro, para o seu relógio de bolso, relógio em que ela, então, conferia o horário local antes de guardá-lo no lugar e dizer:
“Só tive a impressão de ter visto uma floresta, sabe? Mas beeem longe… E daí pode ser apenas miragem”.
“É”, disse eu, concordando com ela, na remota ideia de que o clima, fora da cabine temporal, estivesse com melhor aspecto ao fim de nossa passagem no tempo.
“Uma hora dessas a gente acerta”, disse eu ao me fazer de otimista diante de uma possibilidade muito pequena de vermos uma alteração significativa do clima gélido a que se resumiu o futuro. E daí me coloquei de pé, trajado à época, com botas que, apesar das meias do século XXI, me doíam os calcanhares. “Tecnologia rudimentar”, conclui.
Sany passou da cabine herbário para a cabine de navegação, levando ela, nas mãos, um material orgânico que ela codificava para dar uma forma às nossas máscaras. Ao que ela entrou na cabine dos trajes, Sany já estava acompanhada por K e Ana, que vieram com ela da cabine de navegação.
“São máscaras branquiais para uma respiração sem riscos de contágios ou de contaminações por metais ou por outras substâncias na atmosfera” – explicava ela ao entregar, a cada um de nós, uma máscara que nos seria necessária à nossa comunicação e à respiração.
Ana colocou sua máscara, testando o áudio comunicador, antes de pensar em se arrumar dentro de um vestido longo, da época, talvez bastante pomposo para circular em meio à aristocracia Tory, conservadora. Dizia:
“E aí? Todo mundo está ouvindo?”
E cada qual com um gesto da mão confirmava sua verificação de áudio.
“Estamos com uma anomalia nos eventos da criação do Reino Unido da Grã-Bretanha, a chamada antiga Albion“, dizia Ana enquanto começava a se vestir pelas roupas de baixo da época, tornando a tarefa de se vestir um rito de ginástica e de paciência.
“Temos que restaurar a linha do tempo na qual Ana, da casa dos Stuart, se torne Rainha para que o acordo de 1706 possa ser assinado.”
“Por que, então, vamos desembarcar em 1796?” questionou Bella, uma vez de pé e pronta com seu pequeno arsenal de armas místicas de que se servia para se defender dos Tenebrosos. Levava seu violino ao ombro esquerdo, de modo a apoiá-lo, seguro pelo braço do violino, pelo seu braço arqueado, afinando o instrumento com o arco mantido firme à mão direita.
Ana prosseguia:
“Aí é que está o problema: para voltarmos a data da anomalia, precisamos encontrar quem nos enviou a mensagem pelo pombo, que é navegador local e que está com a chave de nossa passagem para o tempo necessário”, disse-nos Ana, nos colocando a par da história de sua xará, Ana, a Rainha conhecida por unificar a Inglaterra e a Escócia, e por encerrar a Guerra de Sucessão Espanhola dois séculos antes ao nascimento da navegadora Ana, nossa tripulante.
“Considerando o vento que sopra lá fora, é de se esperar um ambiente pouco agradável para se encontrar sozinho”, pensei comigo, ouvindo o sopro de um vento mais forte de tempestade por cair sobre o porto.
“A Ana, da casa dos Stuart, nasceu às 23h39min de 6 de fevereiro de 1665, Londres, sendo a segunda menina de Jaime, Duque de Iorque e Albany, e sua primeira esposa, Ana Hyde”, relatava Ana, sendo secundada por Sany, que perto dela, a auxiliava com os ajustes do vestido ao corpo.
“Vida marcada por um casamento arranjado com George da Dinamarca, por uma perda sucessiva espontânea de gestação ao longo de anos de que não restaram descendentes vivos, por tensões morais relacionadas à fé e aos sentimentos que nutria por sua companheira, confidente e amiga, Sara Jennings, que se tornaria a Sarah Churchill, Duquesa de Marlborough, entre outros fatos relacionados ao período em que foi rainha, a primeira, das coroas unificadas da Escócia e da Inglaterra”, concluiu Ana.
“Desembarque local autorizado às 23hs55min” informou K.
“Tudo pronto?” perguntou Sany, junto a alavanca da escotilha de saída.
Uma saudação afirmativa deu o sinal a abertura da escotilha. O dia 19 de maio de 1796 nos aguardava.
De nosso diário de bordo, dia 17 de um novo calendário fora do tempo.
Edição Especial de Inverno 2021
Ficções Especulativas
De nosso diário de bordo
Período de 09/07/2021 a 31/07/2021
A série especial de Inverno 2021:
- Quando o mundo começa a receber forma 20/08/2026
- Leitura de Órif sobre Cotidiano em cena 13/07/2026
- O quintal ao cair da tarde 12/07/2026
- A casa aberta 10/07/2026
- As gotas da madrugada 10/07/2026
- As brasas da noite 10/07/2026
- O interruptor ligado. 10/07/2026
- Registro 09 – Segundo diálogo entre Órif e Gi Nascimento 03/04/2026
- Registro 08 – A borda da fala 01/04/2026
- Registro 07 – As duas pedrinhas 28/03/2026
Tripulantes de nossa nau
De nosso diário de bordo 2021
Nossa Nau – um diário virtual de nossa navegação histórica, um blog sobre nossa jornada que se registra por meio do espaço conceito de institutoshoin.com.br
Por que “Instituto Shoin – Espaço Conceito”?
Uma instituição são pessoas que compartilham uma visão de mundo ou um propósito comum. Com o intuito de servir de abrigo às iniciativas pessoais de transformação dos meios de vida a um bem-estar, nasce o “espaço conceito” do “Instituto Shoin” como site a blogs pessoais e ficcionais para uma narrativa iniciada no final da primeira década do atual século XXI, em fins do ano de 2009, sendo que o termo “Shoin” tem tradição de origem nipônica, a significar um espaço específico dentro das habitações japonesas que são destinadas a receber visitas e a ser um ambiente de diálogo, de estudo e de meditação.


