Os peixes para o jantar

A Aldeia De nosso diário de bordo

Se há verdade, o tecido da realidade da gente se liga aos pontos nos quais encontramos apoio e troca como a teia que sustenta a aranha no espaço desconhecido que a tudo preenche.

Esse é o último ponto de nossa série e é aqui que embarcamos para o próximo ano de 2024. Também é o ponto em que nos despedimos, vivendo as mudanças de planos. E se temos memória de momentos agradáveis, estendemos o tempo que temos desses momentos e os levamos na memória por mais tempo quanto nos é possível. E se tenha isso em mente para explicar que, no nosso cotidiano, Ana e eu, antes de nos separarmos no nosso portão que fica à entrada da Aldeia, “nos dedicamos aos nossos dez minutos a mais”.

É um dos momentos em que ficamos sentados na calçada em frente de casa e conversamos, ou não, na companhia mútua. São nossos dez minutos a mais. Isso, na prática dos anos, já é um momento de encontro que não se pode dizer limitado a uma única existência, porque é fruto de uma mesma ideia de encontro há milhares de anos, como tão bem existem outras maneiras de se acordar para o que é dia a dia do despertar antes do raiar do dia.

E estar em casa e ter essa relação com esse nosso espaço é uma transformação constante, ainda que de mesmas maneiras nos pareçam os modos como os gatos procuram descanso no abrigo em que se consideram em paz: abrem suas bocas gigantescas para darem um bocejo relaxado que vai saindo com o romper do dia para, depois como gatos, tranquilamente se espreguiçarem. Finalmente, abrimos a porta para os gatos saírem ao quintal.

Tenho pra mim que o lusco-fusco do romper do dia ou o dourado do pôr do Sol são instantes em que nos chegam os reflexos de uma luz misteriosa, e que é passagem ao ato de se sair a um mundo ou de se recolher ao abrigo ao final da tarde. 

O abrir e o fechar de nossos olhos nos traz uma percepção de que um dia se transcorre na passagem das horas, e que cada lugar, em que paramos em certos momentos, pode ser um mundo de escolhas, servindo-se, nós, de uma linha de raciocínio com que traçamos uma rede de pesca invisível e que, lançada sobre as águas da consciência, nos trazem, das águas, os peixes que vão servir de alimento.

Penso que isso se chame conhecimento e que define a capacidade de realização humana. Se não sonhada, a realidade para além do que é real não pode vir a ser como percepção de gatos que antecipam reações a intrusos até então não manifestos, sendo um instinto animal que pode ser interpretado por ignorantes como um simples capricho do destino. Mas a reação antecipada dos gatos à aproximação de estranhos e mal-intencionados, significa o paradoxo que se estende ao tempo do que ainda não se realizou, podendo-se alterar os eventos.

A doxo de Leibniz (1646-1716) compreende ser uma interpretação superficial desses eventos, já que se restringe a uma reprodução de uma ideia de aparência como quando se diz que o Sol nasce ou se põe, embora se saiba que existem outros conhecimentos que dão suporte ao cotidiano solar descrito.

A plasticidade da vida em um paralelo, que é dimensão além, é nosso lugar a encontros como forma-pensamento sem contratempos para nosso livre arbítrio, quando o decidir e o poder decidir sobre qualquer que seja o conhecimento, nos traz o espontâneo da troca genuína que nos une à forma de uma conexão.

Portanto, cada lugar de encontro se torna passagem, porque todo lugar se torna encruzilhada de decisão em que nos implicamos a, pelo menos, refletirmos quem somos em nosso próprio espaço criativo, nosso livre arbítrio, nosso lugar de uma verdade onde a porta da entrada é, também, uma estrada de escolhas como esfera à compreensão do que se está em busca.

Onde está a luz misteriosa, portanto, se não na compreensão de que existe um sentido que é posto pelo que esse sentido representa à consciência de um indivíduo, ainda que por vir?

Pôr do Sol da Aldeia 20 de dezembro de 2023

 

Para o jantar neste dia 24 de dezembro de 2023, trazemos os peixes. 

Você está em seu lugar à mesa e pensa na tarde que passou junto ao rio de onde você pescou seu peixe. Você não sabia exatamente onde lançar a tarrafa, ou onde jogar o anzol com o peso para afundar a isca, mas uma intuição guiou suas mãos à direção do lanço. E no jantar, os peixes, então, se encontram servidos à mesa em torno da qual se reúnem aqueles que, como você, compartilham de um mesmo tipo de alimento à refeição.

Ao partilharmos de um mesmo mundo sensível nos tornamos partes de um mesmo enredo subjetivo tal qual tomam partes os destinos de Ani e Thuthu no “Livro do Surgimento do Dia”. Por isso é que posso dizer que existe um ponto a ser equilibrado sobre os dois pés que se apoiam dentro de quadrados invisíveis de um mundo que existe para além de Ani e Thuthu, e que certamente não se limita ao que se encontra escrito. Porque, retomando uma passagem em especial desse nosso diário, à passagem aos dez minutos a mais, Thuthu está no início dos tempos e se vê como uma cabeça que apenas existe:

“Desde que eu era apenas uma cabeça de olhos fechados, sendo por mim mesma observada e também sustentada, estando sobre essa pedra fundamental no obscuro de minha consciência, e vendo-me exatamente na cena em que me descrevo, posso, então, observar que cada casa tem sua beleza, porque cada casa é a um só tempo, um estado e um templo que nos traz a uma vida em particular, consciência quanto aos motivos que nos levam a uma relação com nosso mundo.”

Thuthu, que sempre se viu só na cena descrita por ela, pôde, então, se compreender não mais sozinha, porque, para além dela e na escuridão do desconhecido, Ani, o escriba, estava lá a escutá-la, antes da passagem deles à próxima dimensão de suas existências.

Estamos de braços abertos aos amigos e ao ano de 2024. Nossos espaços, tanto o virtual de nossa casa na internet, quanto ao de nossa casa, estão abertos para as pessoas que queiram somar experiências às vivências de novos aprendizados!

Vem! A última série de 2023 –  A Aldeia – já deixa saudade! Comente e compartilhe com quem você tenha afinidade de ideias! 

Para todos vocês que nos acompanham, nossos votos a um Feliz novo ano de 2024, que seja um ano de muitas realizações e vitórias, com saúde e sucesso a tod@s nós!

De nosso diário de bordo, 22 de dezembro de 2023.

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